NUM-SE-PODE

(Oeiras/Teresina)

num se pode

Ilustração: Douglas Viana

“Num-se-pode”, ou “Maria  não se pode”, ou “Mulher não se pode”, é o nome pelo qual é conhecida uma das assombrações mais famosas e antigas do Piauí.

As origens da lenda remontam ao período em que Oeiras era, ainda, a capital do Piauí. Em uma edição do jornal “O COMETA”, de março de 1976, o escritor Bugyja Brito conta que, em torno de 1845, nas ruas da antiga capital aparecia uma mulher muito alta e muito magra trajando um vestindo branco que, de tão comprido, arrastava no chão. Perambulava pelos ermos das matas oeirenses e sempre pedia, com uma voz cavernosa, cigarros aos que se aventuravam na escuridão noturna. Às perguntas dos interlocutores a resposta da penada era sempre “não se pode”.  Vários boêmios da época afirmavam ter encontrado a “Maria Não Se Pode” (como era chamada a assombração na antiga Oeiras) nestes pontos da cidade: estrada do Carcará, Praça da Matriz, Rua do Tanguitá, Alto do Rosário e Ponte Grande.

Com a mudança da capital, muitos que habitavam Oeiras mudaram-se para Teresina. Com eles, ao que parece, veio a assombração, que nas ruas da nova capital passou a ser conhecida como “Num-se-pode”. Em Teresina, conta-se que uma jovem, muito bonita, alta, de cabelos morenos e corpo perfeito, passava as madrugadas a rondar o centro da atual capital. Segundo dizem, vestia roupas de boa qualidade (quase sempre um vestido vermelho ou branco que, de tão longos, varriam o chão por onde passava) e caminhava a passos lentos. Geralmente, transitava pelo trecho que ia do Alto da Moderação à Praça Saraiva, onde, ao chegar, ficava circundando na região da praça e da Rua do Barracão.

De tão linda, chamava a atenção de qualquer transeunte, de modo que não eram poucos os que em vão tentavam acompanhá-la. Todavia, apesar de caminhar lentamente, sempre que alguém estava próximo de alcança-la, dobrava uma esquina e desaparecia misteriosamente. Naqueles idos, não haviam ainda em Teresina lâmpadas alimentadas por energia elétrica. A iluminação das principais ruas era feita por postes com lampiões a gás, enquanto o restante da cidade ficava às escuras ou à luz de velas e/ou lamparinas.

Há uma versão da lenda que diz que um dos boêmios da noite teresinense, que já tinha tentado acompanhá-la por diversas  vezes, conseguiu que parasse na Praça Saraiva e encostou-a em um poste onde passou o braço em torno da cintura da bela mulher, pedindo-lhe logo um beijo, ao que a moça respondeu “num-se-pode”. Perguntou seu nome, onde morava e outras coisas, mas ela respondia unicamente com as palavras: ‘num se pode’.

Tentando agradar, o conquistador ofereceu-lhe, então, um cigarro que ela logo levou aos lábios. A moça, que já era alta, começou a crescer mais ainda, até chegar à altura do poste em cujo lampião de gás tocou o cigarro, acendendo-o. Após dar um trago no cigarro, sua boca transformou-se em um enorme bico que veio roçar o rosto do rapaz. Com voz rouca e desafinada, falou: “me dá um beijo”.

O moço, apavorado, disparou a correr, mas a mulher estava sempre ao seu lado, soprando em suas faces um bafo fedorento. Depois de muita  perseguição, o canto de um galo cortou o silêncio da noite. “Foi tua salvação” — disse a estranha figura, desaparecendo com os primeiros raios de sol.

A versão mais conhecida da lenda, narra apenas que essa bela e alta mulher sempre esperava suas vítimas na região da Praça Saraiva, embaixo de um desses postes iluminados por lampiões a gás, onde costumava se encostar sempre que um homem dela se aproximava.

Os homens, atraídos por sua enorme beleza, aproximavam-se estranhando o fato de tão bela mulher estar àquela hora naquelas ruas, de modo que muitos lhe ofereciam ajuda, acreditando que estivesse perdida ou coisa semelhante. Quando chegavam frente a frente com a mulher, ela pedia um cigarro, e, assim que lhe entregavam ela vagarosamente ia aumentando de tamanho, aumentando, até alcançar a chama que brilhava no alto do poste, que, geralmente, tinha três metros de altura, e, ali acendia o cigarro recebido.

O pretendente, sem acreditar no  que seus olhos tinham visto, saía correndo apavorado, enquanto a misteriosa criatura se punha a gargalhar e a gritar repetidas vezes: “Num-se-Pode, Num-se-Pode, Num-se-Pode”, numa voz ecoava pela escuridão como que um assustador deboche, enquanto a entidade desaparecia na noite escura.

Ninguém sabe de onde vinha, para onde ia, nem seu real nome. Ninguém sabe porque assombrava a região, nem de onde se originou a lenda, pois a qualquer pergunta a moça misteriosa a tudo respondia num se pode. Apesar da incerteza quanto a seu nome, algumas pessoas dizem que seu verdadeiro nome seria Moita.

Por anos os Teresinenses que se atreviam a estar tarde da noite no centro de Teresina temiam dar de cara com a misteriosa assombração. Alguns, que fumavam, não podiam ver uma mulher na noite, que corriam às léguas. Juravam ser a “Num-se-pode”. Alguns juram que ela ainda está a rodar o centro de Teresina. Algum corajoso disposto a ir ao centro da capital tarde da noite para checar?

FONTES:

TEXTO: José Gil Barbosa Terceiro

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