O NEGÃO DA MACAÚBA

(Teresina – Piauí)

negão da macaúba
Ilustração: Douglas Viana

Anos 80. Bairro Macaúba (antigo bairro dos carvoeiros) em Teresina, Piauí. Era uma Sexta-feira. O Brasil passava por uma crise financeira braba. Sol quente. Era mais ou menos na hora do almoço. Maria, uma jovem muito bonita das ancas largas e seios médios, que, nos seus 17 anos sonhava em ser professora, desce do ônibus vindo do centro, onde estudava em uma escola normal (antigo pedagógico de ensino médio), e ruma ao comércio para comprar sardinha, ovos e uma lata de óleo.

“Lá em casa só tem arroz branco e ainda tenho que fazer a comida já que a mãe foi lavar roupa”. Folheava uma revista de fotonovelas que havia comprado mais cedo. “Ai! Esse Joca é tão lindo! Pena que é um canalha”, pensava.

No comércio só o quitandeiro ouvindo rádio e aquele ar quente, que preenchia os corredores. Maria entra e pega, além da sardinha e dos ovos, um saco de leite e uma lata de óleo. Acabara de lembrar que aqueles produtos também haviam acabado em sua residência. Mete a mão na bolsa e começa a contar cédulas e moedas.

“Moço, acho que esse dinheiro não vai dar! O senhor pode anotar aí no caderninho que depois eu passo aqui e deixo o dinheiro?”. O quitandeiro normalmente não vendia fiado, mas ao olhar para a bela jovem vestindo uma saia e farda escolar, usando tranças e exibindo pernas bem torneadas, não consegue dizer não.

Enquanto ele anotava as compras, sai no rádio uma notícia de que uma mulher havia sido estuprada na região da Macaúba. “Que barbaridade”, pensa Maria, enquanto recolhia os produtos para ir pra casa. Os dias se sucedem.

Novos relatos davam conta de que na região de Maria havia um estuprador atuando constantemente. Algumas dessas mulheres foram estupradas em casa em um momento que ali se encontravam sozinhas.Outras na rua, à noite. Diziam que ele se escondia atrás das árvores. Ou espreitava nas esquinas. Outros diziam que se escondia nos quintais das casas desertas aguardando o momento em que alguma mulher adentraria sozinha. Na madrugada abria as torneiras dos quintais para que as mulheres saíssem de casa para fechar, e, então, atacava.

Dia após dia, novas notícias. A polícia não conseguia identificar o meliante. As vítimas apenas diziam que o criminoso era alto, magro e negro. Os mais supersticiosos diziam que ele tinha feito um pacto com o demo pra ninguém prender ele.

O terror se instaurou no bairro. As moças não queriam mais ir às ruas. Temiam até mesmo ficar em casa. Ao menor sinal de ruído noturno que não pudesse ser identificado as pessoas não dormiam mais. Havia quem cogitasse fosse um capeta ou um ET.

No rádio, o jornalista João Borges da Rádio Clube começou a usar um bordão em seu programa de notícias policiais: “Pede a Deus, que te livre da pistola do Correia Lima! Pede a Deus que te livre, neném, do Negão da Macaúba!” Pronto. Virou o assunto da cidade. Aonde Maria ia, as pessoas perguntavam pelo tal negão. Não tinha como esquecer o assunto.

Começaram a sair no bairro as mais diferentes versões da história. O criminoso era como um bicho-papão. Podia aparecer em qualquer lugar e a qualquer hora. Qualquer negro do bairro podia ser o tal, e, por isso, era recriminado. Na escola meninos negros eram chacoteados com o apelido de “negão da macaúba”.

Certo dia, correram no bairro notícias de que a polícia teria pego o “negão” e, quando iam colocá-lo na viatura, o mesmo pôs-se a correr. um policial ainda teria agarrado o meliante, mas ele teria escorregado. Uns diziam que, devido ao calor de Teresina, ele era um negão liso de suor. Outros falavam que ele teria fugido entre as grades da janela de uma cela de delegacia porque ele passava graxa no seu corpo para ficar liso. O fato é que se isso fosse verdade, ele poderia ser qualquer um, pois a graxa é que seria a razão dele ser preto. Afinal ele sempre atacava no escuro. Vai que as vítimas não tinham atentado a isso. Todos desconfiavam de todos. O clima estava tenso. O certo é que ele era incapturável e era quase certo que ele iria atacar de novo.

Um dia, em um domingo a noite, Maria começa a se arrumar. Põe um belo vestido de chita e penteia bem seus cabelos escuros e cacheados. Quando se prepara para sair, sua mãe pergunta: “onde você pensa que vai?” Maria responde: “vou à missa!” Ao que sua mãe fala: “Vá, mas por favor tome cuidado com o negão da macaúba”. Enquanto atravessa a porta, Maria pensa: “se eu não enfrentar o medo desse diacho nunca mais saio de casa”.

Maria sai e vai assistir a missa. Na saída, encontra sua amiga Luzia. As duas põem-se a conversar. Falam da vida, dos amigos, do colégio, das novelas… O tempo passa rápido e despercebido. “Eita, já são dez horas!” – fala Maria receosa – “Minha mãe deve tar preocupada”. Despede-se da amiga e parte rumo à sua casa.

Enquanto caminha pelas ruas Maria relembra as histórias. Àquela altura não passa um carro. Ninguém nas calçadas como antigamente. Nenhuma criança brincado nas ruas. Só uma enorme lua cheia no céu, os postes iluminando as ruas e um uivo de cachorro ao longe. “Deus me perdoe o sacrilégio, mas já tou é arrependida de ter ido à missa”.

No céu passa uma rasga mortalha com seu grito assustador. Não se vê viv’alma. O sangue da moça gela. Essas coisas que a gente pensa quando tá com medo, uma puxa a outra e o medo só aumenta. Maria, virgem já lembrava até do cabeça de cuia. Aumenta o ritmo do passo.

De repente, falta energia. Ao longe um grito. O que seria aquilo? De novo! Quando chega na porta de casa, Maria já está quase correndo. Pega a chave do portão que tinha levado consigo. Tenta enfiar a chave na fechadura, mas sua mão está tão trêmula que não consegue. Novo Barulho. Era como se alguém houvesse derrubado um monte de coisas. Seria o negão tentando invadir alguma casa? A de Maria talvez?

Nesse momento, ouve sons no telhado de sua casa. Estaria ele tentando entrar pelo teto? “Mãe, a senhora tá bem?” Maria teme entrar, mas tem medo que algo possa acontecer com sua mãe. E o diabo da chave que não encaixa nunca nessa fechadura. Ao longe, ouve sons como se alguém revirasse algo. O que estaria acontecendo? Finalmente Maria consegue abrir o portão da casa murada.

Bota só a cabeça pra dentro afim de curiar o terraço da casa pra ver se nota algo estranho. Escuta um gemido agudo. Não sabe se vai ou fica. Resolve ir: o amor pela mãe era maior que o medo. A frente da casa está escura e o velho poste que fica a duas casas de distância ainda está apagado pela falta de energia.

É quando, pelo canto do olho, Maria percebe um vulto pulando do teto para o chão, caindo na lateral da casa. Não deu pra ver direito, mas com certeza era o negão da Macaúba. Tenta abrir a porta. É quando percebe que havia esquecido as chaves no portão. Pensa em chamar a mãe. “Vai que dessa vez ela escuta”. “Mas vai que eu chamo e o negão me escuta e vem pra cá”. “Ai meu Deus! E agora?” Resolve ir. “Se ele vier no meu rumo eu corro pra rua gritando”.

Ao chegar ao portão, abre-o para pegar as chaves que haviam ficado pelo lado de fora. Antes de sair olha para os lados. “Nem sinal de nada”, pensa. Pega rapidamente as chaves, fecha o portão e quando se vira algo passa correndo. De novo um gemido. Maria não se atreve a olhar. Parte rumo à porta. “Vou já é entrar”.

Enquanto tenta abrir a porta, sente que tem alguma presença atrás dela. Seu sangue gela. “É agora”. Rapidamente se vira. Nada vê. Sua velha mãe acorda com o som de gente mexendo na porta. Pega um pau que servia de trava na porta da cozinha e sai. Nesse momento, ouve um grito do lado de fora. A velha não hesita. Sai armada com o pau.

Ao abrir a porta vê a menina de costas para ela ofegante. Estava paralisada. A mãe sacode a menina: “Que foi minha filha? Que foi?” Com a voz trêmula, a menina responde: “dois gatos no cio que me deram um susto…”, diz a menina trêmula e branca como um vara pau. E a velha com o coração pra sair pela boca: “Ai meu Deus! Pensei que era o negão da macaúba”. “Eu também, mamãe…” responde a menina, entrando em casa.

FONTE:

NASCIMENTO NETO, José Ribeiro do. Terror da Macaúba: a lenda urbana Negão da Macaúba como um mecanismo de controle social em Teresina-PI (1985-1989). Disponível em: http://www.sudeste2013.historiaoral.org.br/resources/anais/4/1374455592_ARQUIVO_TerrordaMacaubaalendaurbanaNegaodaMacaubacomoummecanismodecontrolesocialCampinas.pdf

____________. Terror da Macaúba: História e memória da construção lendária do “Negão da Macaúba”. Teresina-PI [1945-1987]. Disponível em: http://www.encontro2012.historiaoral.org.br/resources/anais/3/1340403961_ARQUIVO_TerrordaMacauba-NegaodaMacauba-Teresina-PI1945-1987JoseRibeiro.pdf

____________. Teresina (Piauí – Brasil) sob contexto de um bairro: expansão, modernização e origem do bairro Macaúba (1939-1957). Disponível em: http://www.revista.ueg.br/index.php/revistahistoria/article/viewFile/2150/2503

https://orkut.google.com/c866564-t4e626df3222f7665.html

TEXTO: José Gil Barbosa Terceiro

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