Entrevista com Eduardo Prazeres: ator e escritor de histórias fantásticas que dão nova roupagem às lendas piauienses

Era uma vez um menino que cresceu se encantando com as histórias fantásticas que lhe eram contadas pelos mais velhos… Quando cresceu se tornou escritor e fez livros usando suas lendas como pano de fundo, perpetuando o encanto das histórias que lhe eram contadas, encantando agora crianças de todas as idades… Conheça um pouco mais sobre Eduardo Prazeres. Em um bate-papo com o escritor, que também já foi ator de teatro (inclusive premiado), falamos sobre algumas de suas obras (já está escrevendo o sexto livro), onde, na maior parte delas, explora lendas e mitos piauienses como personagens. Aqui falamos do projeto da trilogia sobre Crispim (Cabeça de Cuia), sobre o universo mágico de Sárdirus e sobre projetos futuros, entre outras coisas…

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José Gil – Porque falar de Crispim?

Eduardo – Das lendas piauienses, foi a que mais me marcou, principalmente pelo modo como a ouvi a primeira vez. Meu pai me contou essa história quando eu tinha 6 anos de idade, dentro do rio. E isso me marcou muito.

José Gil – Nas obras são abordados, ainda que secundariamente, outros personagens do folclore piauiense?

Eduardo – Nessa trilogia não.

José Gil – Você poderia nos dar uma idéia do que o leitor de suas obras encontrará na trilogia? de que forma explora o personagem  Crispim?

Eduardo – Bom, o principal elemento da obra, em termos de composição narrativa, é o suspense. Busquei construir uma trama em que os fatos do próximo capítulo nunca fossem previsíveis. Quanto a Crispim, quis dar enfoque ao seu lado humano. Porque o monstro é uma figura emblemática, um estereótipo, todo mundo sabe o que esperar dele. O que pode haver de surpreendente nessa história é o caráter do próprio Crispim. Assim, me esforcei para mostrar uma faceta ainda não imaginada do jovem pescador.

José Gil – Ok. Enfrentaria ele tormentos psicológicos e dramas existenciais?

Eduardo – Com certeza. Na forma humana, a minha versão de Crispim é a de um rapaz de bom caráter, íntegro, pacífico. Ao descobrir quem é e o que precisa fazer para se libertar do seu destino sombrio, ele sofrerá muito com isso.

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José Gil – Qual a relação do personagem com a mãe? Além da maldição que ela lhe lançou, ela afetaria de algum modo sua personalidade?

Eduardo – Com certeza. Na forma humana, a minha versão de Crispim é a de um rapaz de bom caráter, integro, pacífico. Ao descobrir quem é e o que precisa fazer para se libertar do seu destino sombrio, ele sofrerá muito com isso.

José Gil – Qual a relação do personagem com a mãe? Além da maldição que ela lhe lançou, ela afetaria de algum modo sua personalidade?

Eduardo – Na minha versão, essa relação é de amor. E não foi a mãe quem lançou a maldição. No momento de sua morte, enquanto ela agoniza ensanguentada nos braços de Crispim (que na verdade tentava socorrê-la) sua comadre, madrinha de Crispim, surge na cena, entende tudo errado e lança a maldição. Crispim cai em inconsciência por 200 anos, mas ao despertar, já no século XXI, está sem memória, mas seu caráter continua o de um homem bom. Antes da maldição Crispim viveu em 1792. E agora sai da água na forma humana para encontrar a sétima virgem, pois as seis primeiras já foram sacrificadas.

José Gil – Entendi. Na Teresina de que período histórico é contada a narrativa? Como é sociedade da época?

Eduardo – A história se passa na nossa época, precisamente em 2009, no caso de livro 1 da trilogia, CRISPIM E A SÉTIMA VIRGEM. Mas em alguns capítulos é feito um flashback, para mostrar como tudo aconteceu no passado.

José Gil – Então, até 2009, Crispim já conseguiu vitimar seis Marias virgens… a obra conta como isso ocorreu?

Eduardo – Não em detalhes. Preferi focar no caso da sétima virgem porque esse é o momento mais dramático da história em que ele se liberta ou não da maldição.

José Gil – E quem seria a Maria escolhida? Você poderia nos descrever a personagem (a sétima Maria)?

Eduardo – Não posso, justamente porque essa é uma das maiores revelações do livro.

José Gil – Mas Crispim consegue se livrar da maldição?

Eduardo – É outra coisa que não posso contar para quem ainda não leu o livro. Afinal, é um suspense, rsrs

José Gil – Em que época o segundo livro se passa? E porque o título “A Fortaleza de Crispim”?

5b7ca28a6cEduardo – o segundo livro se passa no ano seguinte à ação do livro 1, ou seja, o ano de 2010. O título A FORTALEZA DE CRISPIM tem camadas de significados, concreto e simbólico ao mesmo tempo. Refere-se ao lugar onde vive o personagem, mas também tem outros sentidos mais abstratos.

José Gil – Quais?

Eduardo – tipo: o que é a verdadeira fortaleza de Crispim? o que ou quem pode garantir efetivamente um porto seguro a um homem que foi amaldiçoado há 200 anos e busca agora sua redenção?

José Gil – Na trilogia Crispim revela poderes sobrenaturais?

Eduardo – Sim. Ele vive metamorfoses intermitentes entre a forma humana e a forma da criatura. No livro 2 há cenas de batalha entre ele e seu oponente, um poderoso mago europeu, que é também um samurai ocidental.

José Gil – E porque esse mago samurai resolve implicar com o pobre coitado?

Eduardo – É que no livro 1 existe um personagem que é morto por Crispim, ao atacá-lo com um punhal de prata. O mago-guerreiro do livro 2 é irmão do personagem morto e vem a Teresina para vingar a morte do irmão.

José Gil – Crispim sempre conseguiu se metamorfosear? Quem é ele quando não está no fundo do rio na forma maldita?

Eduardo – As metamorfoses são intermitentes, e só começam a ocorrer no final da história do livro 1, a partir de um fato que não posso revelar, sob pena de estragar a leitura de que ainda não leu. Mas a partir desse fato, Crispim passa a ter a habilidade de se assumir a forma meio-homem meio-monstro. Ele é Crispim em ambas, continua a viver no fundo dos rios, mas agora com consciência de quem é. Quando deseja encontrar os amigos que conquistou na forma humana, ele vem á margem, num lugar específico da cidade, e se comunica com eles, especialmente com seu grande amor, a bela Carol, que o conheceu durante seu retorno provisório à forma humana no ano de 2009.

José Gil – Que aspectos sociais de Teresina você ressalta em sua obra?

Eduardo – Bem, há personagens oriundos da classe proletária e também da classe média, então acabo navegando um pouco pelos dois universos. Chego a mencionar aspectos já extintos da nossa cidade (porque quando estava escrevendo ainda eram presentes), como vendedores ambulantes de vales-transportes e seus jargões publicitários. As pessoas têm destacado muito o fato de se reconhecerem no cenário da obra, pois constantemente menciono lugares muito comuns ao dia a dia dos teresinenses. Mas quanto a isso, o livro não tem o propósito de se fazer uma obra de caráter analítico do ponto de vista sociológico, embora isso seja inerente ao ofício de escrever. É uma obra de ficção fantástica. O que ela traz de retrato social fica por conta da necessidade de retratar a realidade dos próprios personagens.

José Gil – Carol… é ela a fortaleza de Crispim?

Eduardo – Será? me conta depois que você ler, rs.

23561614_10214767933976429_7522982613256703880_nJosé Gil – Você já está trabalhando no terceiro livro?

Eduardo – sim, se chama PARA SEMPRE CRISPIM, e isso é tudo que vou te dizer sobre ele agora, rs

José Gil – Só uma pergunta que não revela a trama do livro… Crispim vai ter um final feliz?

Eduardo – sério? cara, isso revela simplesmente tudo, kkkkk… Mas 2018 vem aí e tudo será revelado.

José Gil – Tá! Ao início da entrevista você disse que em outras obras abordou outras lendas… que obras seriam essas e que lendas seriam esses?

Eduardo – O livro é SÁRDIRUS – A TERRA LENDÁRIA DO AGRESTE. Baseia-se nas lendas em torno da serra de Santo Antônio, em Campo Maior. SÁRDIRUS é um mundo paralelo: o portal que conduz a ele está escondido nessa montanha e nesse mundo há seres mitológicos do Piauí e outros criados por mim.

José Gil – Que seres mitológicos já conhecidos podemos encontrar nesse mundo mágico? Como seria esse portal?

cover_front_bigEduardo – O portal na verdade é uma pequena gruta que existe mesmo. Morei em campo maior por 5 anos e banhei muito nessa gruta nos invernos… Mas é muito escondida, um tipo de lugar secreto. Achei perfeita pra ser o portal! Os seres mitológicos mais conhecidos são a Não-se-pode (numa versão adaptada minha), os Pés de Garrafa e o Saci (Yaci Yaterê). Os outros são povos imaginários, criações minhas.

José Gil – E quem é o personagem que atravessa o portal rumo a esse mundo fantástico?

Eduardo – uma dupla de meninos, os primos Leônidas e Alberto. Na verdade, a história começa com os dois adultos. Leônidas é um famoso escritor de fantasia que resolve contar sua aventura de 20 anos atrás em forma de ficção.

José Gil – Esse Leônidas é autobiográfico? O Eduardo Prazeres já foi a Sárdirus?

Eduardo – Os que já leram o livro garantem que sou eu, kkkkkk

José Gil – kkkk… Qual o significado desse nome Sardirus? De onde você tirou ele?

Eduardo – É um anagrama. Utilizei o termo SERRA DE SANTO ANTONIO, fui eliminando as letras repetidas e depois saí fazendo combinações até chegar a esse nome.

José Gil – A que você atribui o enorme sucesso dos livros sobre Crispim?

Eduardo – Talvez à possibilidade desse novo perfil do personagem, oferecido pela obra. Ouvi de uma professora universitária que sendo inocente, e não um matricida, Crispim poderia enfim ser aceito como o herói do Piauí.

José Gil – realmente foi um enfoque interessante… E ao fim da trilogia de Crispim, já existe um novo projeto engatilhado?

Eduardo – muitos, na verdade. Sárdirus também será uma saga. Creio que de muito mais que três livros.

José Gil – Opa! que massa… minha lenda piauiense favorita é a num-se-pode.. fiquei curioso para saber que tratamento você deu a ela…

Eduardo – ela é bem surpreendente e você verá o surgimento da personagem, como e porque ela surgiu, e porque ganhou esse nome.

José Gil – Qual o nome real dela (na sua obra)?

Eduardo – antes de surgir como não-se-pode, ela se chama Eva.

José Gil – esse nome está em outras fontes ou é uma criação sua?

Eduardo – gosto da simbologia de Eva como “a primeira”… Mas, no caso específico, criação minha.

José Gil – entendi… apenas comentando tenho visto que o nome dela seria moita (que eu acho um nome muito estranho)… mas, voltando a nosso bate-papo, eu devo dizer que me arrependi de entrevistar você… agora, eu tou me coçando de curiosidade! fiquei com vontade de adquirir todos os livros das suas obras… só vou sossegar quando eu ler! até lá a inquietude vai me dominar…

Eduardo – kkkkkk… fico feliz!

José Gil – E como adquirir os livros? Onde estão disponíveis para venda? Pergunto isso para o público saber como adquirir… Ah! Diz tb o preço!

Eduardo – POSTOS DE VENDA: Livraria ENTRELIVROS (Av. Dom Severino), Livraria NOVA ALIANÇA ( Por trás do Diocesano), Livrarias LEONEL FRANCA (Centro e Riverside), Livraria PIAUIENSE (Av. Frei Serafim), Livrarias ANCHIETA (Jockei e Centro), Loja ARCÁDIA (por trás do Colégio Diocesano), Banca de Revistas ESTRELA D’ALVA (Praça Rio Branco), Ou AQUI MESMO, na minha lojinha do face. Envio pelos correios, com frete grátis para todo o Brasil). custa 40 reais, qualquer um dos dois. Sárdirus está disponível também no Clube dos autores (clique aqui).

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José Gil – Deixando de lado o escritor, quem é Eduardo Prazeres?

Eduardo – Um menino das periferias de Teresina, brincador de “Salva-Latinha”, que se encantou com as histórias de fantasia de sua mãe e de seu avô, e que, mesmo sem formação acadêmica, decidiu ser na vida um contador de histórias fantásticas.

José Gil – Pra finalizar: o que você achou do projeto Causos Assustadores do Piauí?

Eduardo – Um projeto não apenas belíssimo, como também necessário. Nosso povo, de um modo geral, tende a se encantar sempre com “o de fora”. Esse projeto mostra um potencial atrativo da cultura piauiense, que é justamente o seu aspecto mitológico, riquíssimo e capaz de promover o interesse pelos demais aspectos culturais da nossa terra.

2 comentários em “Entrevista com Eduardo Prazeres: ator e escritor de histórias fantásticas que dão nova roupagem às lendas piauienses

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  1. Amei essa entrevista! Me deixou super curiosa também… Conheci o projeto a uma semana e venho lendo todas as publicações que posso, queria ter conhecido a mais tempo, verdadeiramente fascinante!

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