O CASAL QUE VIRAVA BICHO

(Região próxima da estrada que liga Altos a Coivaras, perto da Localidade Estrela do Norte)

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Ilustração: Douglas Viana

Há algumas décadas atrás, vivia no lugar Buriti Grande (que fica próximo da localidade Estrela do Norte), às margens da estrada que liga Altos a Coivaras (em uma época em que Coivaras ainda pertencia ao Município de Altos), encostado em um velho pé de manga, um casal de velhos que, por serem compadres, mantinham uma relação pecaminosa.

Em razão disso, o povo falava que eles viravam bicho. A velha, de nome Maria, virava uma porca imensa e furiosa com olhos que emitiam um brilho avermelhado. O velho, que infelizmente teve seu nome perdido no tempo, ao que diziam virava um bicho estranho: uma mistura de guaxinim, porco barrão e cachorro selvagem. Seja lá o que for que ele virasse, era bem grande. Diziam que os bichos, apesar de parecerem meio-humanos, corriam em quatro pés.

Os dois transformavam-se sempre em noites de quinta para sexta em que ocorresse uma lua cheia. Saíam pela noite daquela zona rural perseguindo qualquer um que se atrevesse a rondar pelas estradas naquelas noites.

A filha Nuca, vivia inocentemente alheia às transformações, e desconhecia o fato de que os pais viravam bicho. Na verdade até já tinha ouvido falar, mas achava que era “besteira preconceituosa” da gente que morava por ali. Certo dia, foi guardar as criações, quando viu lá pelo curral onde seu pai tinha ido, um urro horrível, bem como uma barulheira dos infernos. Chamou pelo pai, mas ele não respondeu.

De repente, é surpreendida por uma criatura horrível dos pêlos negros que sai de detrás do curral, onde supunha que o pai estivesse. Salta de uma vez para agarrar-se a uma galha de um cajueiro que passava acima de sua cabeça, sendo que sobe ao alto da galha para se proteger. Ainda com os pés pendurados, sente a boca da fera passar raspando em um de seus pés, chegando a morder o longo vestido que usava, ocasião em que puxa a perna para cima e trepa de vez na árvore.

Dentro de casa, escutam-se sons horrendos, como se estivessem a quebrar a mobília, bem como horríveis grunhidos. A fera, que era seu pai, parte naquele rumo, e a moça permanece ali por longo tempo. Só quando despontam os primeiros raios de sol é que desce do galho para o chão e se dirige para a casa, onde verifica um cenário caótico, com tudo dentro de casa tão bagunçado que mais parecia que um furacão havia passado por ali. Agora a moça havia encontrado a explicação para o fato de que volta e meia os pais apresentavam ferimentos inexplicáveis pelo corpo. Era verdade o que o povo dizia, afinal!

Tempos depois, o velho veio a falecer, de modo que só a velha continuou a se transformar em bicho. Em uma dessas noites, Luiz Gonçalo, cunhado de Luiz Malaquias, ia de Altos para o Buriti Grande. No caminho, a porca dos olhos fumegantes lhe aparece. Em sua defesa, saca uma faca que trazia na cintura, de modo que após um breve embate, consegue meter a faca na guela do bicho, que sai guinchando e correndo mata adentro. Segue viagem e conta a todos o que ocorrera. Resolve o que tinha para resolver e, no dia seguinte, retorna à cidade de Altos.

Uma semana depois, retorna ao Buriti Grande. Na ocasião, como era dia claro, resolve passar onde estava a velha, que se apresentava com um grave ferimento no interior da boca. Como já sabia do que o povo falava, pergunta a ela se fora ela quem ele feriu. A princípio a velha nega, mas, pressionada, cede e confessa que era ela aquela figura dos infernos. Dias depois, a velha vem a falecer em virtude dos ferimentos. Desde então, ninguém mais ouviu falar nos tais bichos que andavam assombrando a região.

FONTE:
– Relato oral do Seu Francisco das Chagas Santos, vulgo Chicuta, residente nas proximidades do Cemitério de Altos há quase meio século, mas oriundo da região da história.

TEXTO: José Gil Barbosa Terceiro

 

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