ASSOMBRAÇÕES DA FAZENDA BURITIZINHO

(Altos – Piauí)

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Acho que era ainda em 1993 quando ouvi falar pela primeira vez da Fazenda Buritizinho e de suas assombrações. Vinha eu de Teresina, onde estudava a sétima série no Colégio Cidadão Cidadã, nos velhos ônibus da Prefeitura de Altos que transportavam diariamente estudantes e trabalhadores quando, passando em frente à fazenda, ouvi 1896901_441201919373494_623124380076619595_ncomentários que davam conta de que aquela era uma velha fazenda de escravos, onde haveria um cemitério de escravos, em que ocorreriam fenômenos sobrenaturais. Diziam, então, que à noite era possível ouvir ali o batuque dos tambores de escravos em festa ao embalo de ritmos africanos, outros falavam que já tinham visto ali vultos que lembravam escravos correndo na escuridão noturna e haviam ainda aqueles que diziam que ali se podiam ouvir os espíritos dos escravos agitando furiosamente as correntes de seus grilhões na escuridão noturna e emitindo gritos e lamentos assombrosos.

11159952_441200932706926_7900724386946201322_nCom o tempo, me inteirei um pouco melhor da história da fazenda. Edificada em 1848, a casa é, provavelmente, a mais antiga construção em território altoense ainda em pé. Pertenceu primeiramente a Dona Maria Joaquina Saraiva (1817-1895) e seu esposo Antonio Saraiva de Carvalho, e, depois, a Polidoro Antonio Saraiva e sua esposa Joanna de Abranches Saraiva, a primeira professora da Escola Mista de Altos. O local, dizem, seria assombrado por conta das torturas cruéis a que eram submetidos comumente os escravos naqueles tempos remotos.

11203159_441199306040422_7250226794008179675_nRelata Carlos Dias, em texto publicado no Portal Altos, que “pessoas que residiram em sua vizinhança ou nela estiveram por algum período, dão conta de inexplicáveis barulhos de pratos quebrando, correntes sendo arrastadas, gritos e outros barulhos aterrorizantes. Afirmaram os depoentes que ao se dirigirem para o local de origem do barulho, nada avistaram, encontrando a casa em perfeita ordem”. Até aí, nada diferente do que já tinha ouvido falar.

11188229_441201779373508_8156057592387453813_nBuscando me informar melhor sobre as assombrações do lugar, visitei a fazenda Buritizinho, em companhia de meus filhos Ana Lúcia Sena Gil Barbosa e Francisco José de Morais Gil Barbosa e do amigo Daniel Sousa em busca de maiores detalhes a respeito das lendas do lugar. Ao chegarmos ao local encontramos ali apenas o caseiro, que morava nos fundos da casa grande com esposa e filhos, que permitiu nossa entrada e nos apresentou o lugar. Teria ele nos contado que, de fato, já teria presenciado alguns vultos correndo na escuridão noturna, mas que deles não teria medo e até achava interessantes as aparições com as quais já estava acostumado, pois se quisessem lhe fazer mal já teriam feito. Segundo ele, quem tinha muito medo de morar ali era a sua esposa, que vivia lhe chamando para ir embora do lugar.

Ainda não satisfeito, comecei a conversar com outras pessoas da cidade sobre o lugar. O professor e artista plástico Cacá Silva me contou que alguns anos atrás, mais ou menos em 2010, uma grande empresa que operava serviços na cidade de Altos, chamada SPIC, alugou o casarão para abrigar alguns dos seus funcionários que não eram naturais de Altos, mas o contrato teria durado poucos dias, visto que, em razão das assombrações do local, os novos hóspedes abandonaram o local logo depois das primeiras noites.

11150617_441201942706825_5912651453759669558_nFrancisco Isaias, narrou-me uma história que era contada por seu pai: Conta o povo que um proprietário da fazenda, não se sabe qual, ainda nos tempos da escravidão, observando o que ocorria em outras fazendas negreiras Brasil afora, passou a demonstrar receio de que ocorresse uma revolta da senzala contra a casa grande. Como não era besta nem nada, o fazendeiro, portador de enorme fortuna pessoal, para evitar ser saqueado caso isso ocorresse, pediu a um escravo que carregasse um jumento com potes cheios de moeda, e o seguisse, junto com o jumento carregado, até um local em meio ao mato nos fundos da fazenda. Ao chegar no local, o fazendeiro ordenou que o negro cavasse um buraco e, depois, perguntou ao escravo se ele queria ser o guardião daquele dinheiro e esse inocentemente respondeu que sim, de modo que, em seguida, foi surpreendido e morto por um tiro disparado pelo fazendeiro, que alvejou, também, o 11188353_441201116040241_7812399535047008008_njumento, enterrando dinheiro, escravo e jumento na vala. Anos depois da morte do fazendeiro, o espírito dele apareceu a um homem pedindo que ele desenterrasse o tesouro, pois sua alma encontrava-se em sofrimento e só assim poderia encontrar a paz. Isso se repetiu por várias vezes até que o homem tomou coragem e, em um dia de verão, foi arrancar o dinheiro, que estava enterrado embaixo de um pé de caju. A certa altura, cansado do esforço, suspirou e limpou o suor da testa. Olhou para cima e percebeu aterrorizado a figura do escravo, sentado em uma galha do cajueiro de arma em punho, que ainda guardava o tesouro como seu dono ordenara. O homem correu aos gritos, sem conseguir arrancar o dinheiro, que, ali, ainda se encontra enterrado.

Seu Zé Mateus, morador antigo da Tranqueira, me contou que quando era mais jovem, ia com seu pai fazer farinhada na Buritizinho. Lá dormiam em uma casinha que não existe mais, por ter sido derrubada. Disse ele que era comum ouvir o som de alguém datilografando por toda a noite e, também, pedras que inexplicavelmente caíam no teto vez ou outra, que as pessoas acreditavam ter sido arremessadas pelos espíritos dos escravos.

11203154_441199279373758_5219054732277879907_nAlém dos tormentos sofridos por escravos no lugar em eras remotas, a fazenda Buritizinho teria sido palco de um dos mais sangrentos e horrendos homicídios do século XX, quando Sitônio, um ex funcionário que tinha sido preso a mando dos empregadores, tomado de uma fúria cega, em busca de vingança, degolou, com golpes de foice, à beira da estrada que passa em frente às terras da Buritizinho (BR 343) o então proprietário João Simeão, que por ali passava a cavalo, em 04 de janeiro de 1941. Anos depois desse terrível crime, surgiu uma lenda segundo a qual apareceria cavalgando pela mesma estrada, um cavaleiro sem 11164631_441199196040433_7439507557804773236_ncabeça usando trajes negros e uma capa branca, galopando em seu cavalo fantasma na escuridão da noite. Sérgio Morais, que por anos morou ali por perto, me contou que certa vez, logo depois de abrir a porta de casa altas horas da noite para que seu irmão entrasse, ao encostar a porta, ouviu apenas o cavalo galopando a alta velocidade pela estrada no sentido da Buritizinho, e, ao abrir a porta novamente, nada viu. Josemi Sampaio Segundo me contou que conheceu um senhor que morou ali por perto que certa vez, caminhando tarde da noite na região, teria dado de cara com referida aparição fantasmagórica e que o próprio homem foi quem lhe contou 538003_282215721907079_1014891400_nter visualizado o cavaleiro sobrenatural. Os mais supersticiosos querem associar a sinistra figura com o fatídico episódio do passado, mas é claro que isso não passa de uma lenda, ou seja, histórias que fazem parte do folclore que dá encanto ao lugar. Conforme Carlos Dias, João Simeão, que compôs a primeira formação de vereadores em Altos, era um “Trabalhador incansável, homem de coração generoso e alma nobre, sabia tratar a todos com polidez invejável e oferecia sempre uma palavra amiga de aconselhamento e conforto a quem precisasse”, de modo que é mais crível que ele, em seu descanso eterno, esteja ao lado do Pai, e,se, de fato, houver um cavaleiro fantasma por ali, é mais provável que seja o tinhoso em pessoa, ou seja, uma figura do cão. Com certeza não pode guardar qualquer relação com o espírito de João Simeão, que, como dizem, era um homem de bom coração, morto de forma injusta, covarde e brutal.

Fazenda Buritizinho 2Hoje em dia a fazenda pertence à professora e escritora Lina Celso Pinheiro Ribeiro, que a herdou de seu pai, o advogado, jornalista e escritor Celso Pinheiro Filho (1914-1974). No local ainda existem escombros do que seriam as antigas residências dos escravos, bem como um velho cemitério de escravos em área à esquerda da casa grande, além de inúmeros objetos de tempos remotos que atestam a antiguidade do lugar e ajudam a contar a sua história. Há, ainda, uma lenda, segundo a qual, no dia em que novamente for derramado sangue negro naquelas terras, os negros da Buritizinho irão se levantar em busca de vingança, mas isso tudo é só lenda, não é?

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FONTES:
– relato via facebook de Francisco Isaias;
– relato oral de Josemi Sampaio Segundo;
– relato oral de Cacá Silva;
– relato oral de Zé Mateus, morador antigo da Tranqueira;
– relato oral do caseiro que habitava a fazenda Buritizinho em 2015;
– relato oral de Sérgio Morais;
– DIAS, Carlos. Fazenda Buritizinho. In: Portal Altos. Disponível em: <http://portalaltos.com.br/novo/?pg=not%EDcia&id=2412>. Acesso em 01 maio de 2017.

– DIAS, Carlos. Câmara Municipal de Altos: Memória Histórica. 2. ed. rev. e ampl.

TEXTO: José Gil Barbosa Terceiro.

FOTOS: José Gil Barbosa Terceiro, Francisco José de Morais Gil Barbosa, Daniel Sousa e Carlos Dias

ILUSTRAÇÃO: DOUGLAS VIANA

Edição de Imagens: Marcelo Cavalcante.

 

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