AURELIANO, O CORPO SANTO DE ALTOS (SANTO DO QUEIMADINHO)

(Altos – Piauí)

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Ilustração: Douglas Viana

Há muito tempo atrás, havia em Altos um rapaz extremamente devoto ao Senhor chamado Aureliano. Segundo dizem, ele era virgem, andava sempre bem vestido e usava como colar um rosário. Não tinha por costume sair de casa para farras, bebedeiras e coisas do tipo. Vivia alternando caminho entre a escola, o trabalho e a igreja. No máximo, ia à praça conversar com amigos. Era essa sua rotina.

Seu irmão, contudo, era exatamente o oposto. Como muitos homens de sua época, gostava de farra, pinga, forró e, por vezes, frequentava o “Vai-quem-quer”, antiga zona de meretrício altoense, que posteriormente passou a ser chamado de “Queimadinho”, por conta de, certa vez, Zé Maria do Zuquinha, um dos frequentadores, ter dado causa a um incêndio de grandes dimensões (antiga zona de meretrício em Altos).

Ali, o cabaré da Venância era sempre muito bem frequentado, inclusive por nomes ilustres da sociedade altoense. O salão onde as meninas desfilavam a procura de clientes no “Vai-quem-quer” da Venância, era sempre muito animado por músicos que fazem parteda história da cidade, como Luiz Pastora (sanfoneiro), Fogo Pagou (tocador de pandeiro que ao que dizem batia pandeiro nas costas,rodava no dedo e debaixo das pernas e imitava o canto de todos os pássaros e bichos), e Enrique (sanfoneiro). As pessoas costumavam dançar e beber no salão, enquanto uns e outros procuravam outro tipo de diversão nos quartos.

Há muito tempo o irmão de Aureliano lhe atentava para que lhe acompanhasse ao Queimadinho “pra virar homem”, mas este recusava sempre, até que um dia não teve como evitar. “Vou só pra dar gosto a ele… passo um tempo e venho embora”, pensou. No Queimadinho, ficou pelos cantos enquanto o irmão se divertia com as meninas ao tempo em que volta e meia engolia uma pinga. Como o irmão havia entrado em um dos quartos, resolveu ir do lado de fora, tomar um cafezinho na banquinha de um vendedor ambulante, quando foi abordado por Manoel Silvestre, que lhe ofereceu uma rodada de pinga.

Como Aureliano não consumia bebidas alcoólicas, prontamente recusou a oferta. Silvestre, um afamado mal-elemento, com algumas mortes nas costas, logo sacou uma peixeira (faca afiada dos dois lados da lâmina comumente usada por magarefes da região à época), dizendo, irado, que se Aureliano não era homem pra beber com ele, ia era morrer, ao que o pobre rapaz começou a correr, gritando por socorro, enquanto era perseguido pelo bandido com a faca em punho, até que o pobre Aureliano, por infortúnio, enrolou-se numa rama de salsa e caiu no chão indefeso, sem poder reagir. Antes dos golpes fatais, o criminoso vociferou: “vou te sangrar, pois sou acostumado sangrar até boi”, ao que atingiu o pobre rapaz, que nem queria estar ali, com uma violenta facada na goela. Após o velório, a vítima veio a ser sepultada no Cemitério São José, em Altos.

No sétimo dia da morte do rapaz, um senhor de nome Roberto Alves da Costa, que à época trabalhava no Cemitério, presenciou em fenômeno divino em ação. Por todo o cemitério espalhou-se um forte aroma perfumado, mas que ficava mais forte em certas regiões, de modo que Roberto foi seguindo o aroma até a fonte. Para sua surpresa, o cheiro vinha do túmulo do rapaz que havia sido enterrado há poucos dias. O cheiro era tão forte que podia ser sentido também nas casas próximas ao cemitério.

Já conhecendo o que se dizia sobre esses fenômenos, logo deduziu que ali havia sido sepultada uma pessoa muito querida por Deus, um corpo santo, e logo foi avisar ao Monsenhor que trabalhava à época na paróquia de São José, recém-chegado da cidade de União, onde exercia o sacerdócio anteriormente. Este, ao checar o fenômeno, logo em seguida, comunicou o que estaria ocorrendo a Dom Avelar, importante líder religioso em Teresina.

17523254_1851983008396029_7249372675260962385_nDom Avelar teria chegado em Altos na calada da noite, acompanhado de mais uns padres que trouxera de Teresina, para checar o fenômeno e logo entendeu que o que havia ali era, de fato, um corpo santo. Ordenou que cavassem o túmulo, mas surpreendeu-se ao verificar que o corpo estava raso no chão, onde jazia intacto quase que como a sair da cova, sendo que bastou remexer a terra para o mesmo aparecer.

Conta-se que os corpos santos não se deterioram jamais e que a terra não é digna deles, de modo que ele de lá é retirado por forças divinas. É por isso que o rapaz estiava tão raso na terra. Seu corpo já estava saindo da terra.

Para evitar chamar a atenção e atrair ao local curiosos e familiares do morto, reza a lenda que o bispo teria surrupiado o defunto e enviado a Roma para análise do corpo pelas autoridades eclesiásticas supremas. Mandou que retornassem a tumba exatamente à aparência que era e ameaçou o vigia do cemitério de excomunhão caso revelasse algo, exigindo de todos sigilo absoluto.

O povo só soube que seu corpo havia sido levado pela Igreja porque Roberto, desobedecendo as ordens do bispo, deu com as línguas nos dentes e trouxe a verdade à tona, contando tal fato a seus familiares e amigos íntimos, que logo se encarraram de espalhar a história, que se tornou conhecida nos quatro cantos da cidade. O que dizem que o corpo está hoje em exibição em algum lugar do vaticano, onde deverá ficar por toda a eternidade, como prova dos favores que Deus dá a quem Ele ama.

67764157_2313916158869376_6610996606135173120_nO lugar da morte de Aureliano, marcado por um pequeno cruzeiro à sombra de um pé de mufumbo, no Queimadinho, passou a ser local de devoção, onde algumas pessoas, acreditando no poder milagroso da alma do rapaz, passaram a fazer preces e pedidos ao finado, que logo eram atendidos por intervenção de Aureliano junto a Deus.

José de Ribamar, vulgo Riba Kaburé, filho de Aninha Kaburé, uma das “meninas” do Queimadinho, conta que muitas vezes presenciou sua mãe pagando promessas, acendendo velas e depositando litros d’água no local, em oferta a Aureliano, como agradecimento por graças alcançadas.

Muitas outras pessoas na cidade participaram da devoção a Aureliano. As graças são as mais variadas: problemas financeiros, conjugais ou de relacionamento, de saúde, ou até em busca por emprego ou aprovação em concurso. Alguns anos atrás, uma devota atendida em seu pleito, como agradecimento, construiu um pequeno túmulo simbólico no lugar em que morreu a pobre alma, onde, até hoje, devotos costumam exercer sua fé no santo popular que teve seu sangue puro derramado no Queimadinho, em Altos, Piauí.

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FONTE:

  • DIAS, Carlos. FRAGMENTOS DO FOLCLORE ALTOENSE. PORTAL ALTOS. Disponível em: <http://portalaltos.com.br/novo/?pg=not%EDcia&id=1116&gt;. Acesso em 14 de maio de 2017.
  • Relato via facebook de José de Ribamar (Riba Kaburé), filho de Aninha Kaburé, uma das meninas do Queimadinho;
  • Relato oral da Dona Das Dores, moradora antiga da região próxima ao cemitério;
  • Relato oral do Seu Pedro Preto, vigia do Cemitério de Altos;
  • Relato oral do Seu Francisco das Chagas Santos, vulgo Chicuta, residente nas proximidades do Cemitério de Altos há quase meio século e que é afilhado de Roberto, que era vigia do cemitério à época dos fatos.

TEXTO: José Gil Barbosa Terceiro

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