APARIÇÕES DE IARA, A MÃE D’ÁGUA, NO PIAUÍ

(Batalha / Castelo / Amarante / Parnaguá / Altos)

iara
Ilustração: Douglas Viana

A lenda da Iara, também chamada de mãe d’água, é conhecida em todo o Brasil e encontra suas raízes nos povos indígenas. Segundo contam era ela uma linda guerreira indígena de olhos penetrantes, longos cabelos negros e corpo bem torneado, que protegia a natureza na região em que morava.

Reza a lenda que foi ela assassinada nas águas de um rio e, compadecidos dela, os deuses dos povos indígenas fizeram os peixes levá-la à superfície da água, onde a transformaram em uma sereia, dando-lhe a missão de proteger às águas e aos seres que nele habitam, de modo que, por muito tempo era comum que ela aparecesse em rios, riachos e olhos d’água afugentando pescadores e mineradores e outros que buscam caçar os animais aquáticos ou poluir as águas dos rios.

Também dizem que, com a colonização do Brasil, após os índios serem praticamente exterminados em confronto com o homem branco, Iara passou a seduzir com a magia de seu canto os homens que tenham maldade no coração, com a intenção de afogá-los, como vingança pelo extermínio de seu povo.

No Piauí, a Iara é mencionada em muitos mitos, como é o caso dos mitos que contam a origem da Lagoa de Parnaguá, no sul do Estado, onde se diz que a lagoa é fruto de uma enchente provocada pelos poderes mágicos da Iara em tempos passados. Segundo os mitos da região, a Iara aparece ali vez por outra e protege a lagoa, bem como inocentes sem pecado que estejam a se afogar naquelas águas (ver as lendas piauienses do Barba Ruiva e de Miridan).

c94e80ecca0ff07f2c9fa9c7cb621f7aSegundo Reinaldo Coutinho, em Batalha, região norte do Piauí, na Cachoeira das Lajes, situada na Localidade Pintadas é possível, vez por outra, ver a sereia Iara que faz fracassar as tentativas de pesca predatória efetuadas fora do tempo correto. Continua dizendo que no Poço do Maninho, no rio Cais, em Castelo do Piauí, é possível ver a Iara vez por outra, onde, apesar de bela, a entidade se mostraria assustadora. Informa também aparições da Iara em Bom Princípio do Piauí, no bosque da Guarita, onde existe uma pequena cachoeira de em que só caem águas nas chuvas de verão. Ali dizem que a Iara é muito bonita e se apresenta cheia de jóias, assumindo, vez por outra a forma humana para sair da água, se transformando ainda, em outras ocasiões, em uma cobra de fogo que pode ser vista de longe à noite beirando as águas do rio em alta velocidade.

Segundo Luís Alberto Soares, em Amarante, a Iara gosta de aparecer sentada em pedras no leito dos Rios Parnaíba, Canindé e Mulato. Quem já a viu por ali, jura que é uma mulher muito bonita que gosta de ficar penteando os cabelos longos, lisos e negros com um pente de ouro, enquanto cantarola uma canção mágica. Dizem que as crianças que caem nas águas são todas salvas por Iara, mas a sereia tem uma predileção pelas pagãs.

Na cidade de Altos também se registraram aparições da Iara em um passado não tão distante. Alguns anos atrás, lá pelos anos 80, o local onde hoje ficam os bairros Santa Inês e São Sebastião era uma enorme fazenda. Ali dentro, havia um olho d’água de onde brotava um líquido limpo e cristalino que formava uma pequena concentração de água que corria e era utilizada pelas pessoas da região para banhar e beber (na época, no local, onde muitas poucas casas se via, não havia água encanada). Era ali que vez ou outra aparecia a Iara, que diziam ser protetora daquelas águas e dos seres que a habitavam.

Pelo que o povo da região conta, ali ela aparecia na água como sereia, e, fora d’água, assumia a forma de uma bela mulher que era vista à noite, sob a luz do luar, sentada nos lajeiros que margeavam o olho d’água. Aqueles que viam aquela beldade nua cantando sua canção mágica, quando tinham maldade em seu coração, quase sempre eram por ela afogados. Alguns poucos sortudos escaparam para contar da sereia, o que só era possível se ela não estivesse cantando ao ser vista, de modo que, espalhada a notícia, poucos se atreviam a pisar ali. No entanto, pelo que dizem, ela não fazia mal aos puros de coração. Desses, ela apenas se escondia, pulando nas águas ao perceber que estava sendo observada.

Dizem que existiam certas horas do dia em que era certeza que quem fosse ao olho d’água lá iria encontrar a Iara setada nos lajeiros: meia-noite, seis da manhã, meio dia e seis da tarde. Não que ela não aparecesse em outras horas, mas nessas é que se podia ter certeza de que seria possível vê-la ali.

Sabendo disso, alguns curiosos mais corajosos, até teriam ido ao local tentando ver a moça nua. Contudo, como iam com esses fins, não tinham o coração puro, e eram seduzidos pela aparição que os afogava sempre. A tentação era maior porque todos diziam que quem resistisse aos encantos da Iara iria desencantá-la, de modo que essa pessoa poderia tomar a beldade como esposa. Ao que contam, quando a Iara ia sair do fundo das águas, sempre era possível ouvir um barulho alto, vindo da água, que se repetia por três vezes e que lembrava um tambor, só que mais fino e metálico. Aquele som era o aviso de que a entidade iria vir à superfície, de modo que as pessoas poderiam assim fugir do local. O povo dali conta ainda que a Iara podia assumir a forma de um peixe, razão pela qual a certas horas, por mais que se procurasse por ela, não era possível vê-la. Há quem diga, ainda, que ela teria o dom de ficar invisível, de modo que alguns já teriam sido por ela empurrados para dentro do olho d’água, onde em seguida eram afogados.

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Manilhas em formato de poço cartesiano que represaram o antigo olho d’água da Santa Inês.  Maio de 2017.

Com o avanço da urbanização e a construção de moradias nas vizinhanças, somou-se uma multidão de moradores que se reuniu e, em um horário em que ela não estava por ali, se aproveitaram e colocaram manilhas em torno da nascente do olho d’água, de modo que a água ficou represada dentro das manilhas, como que se fosse um poço, que passou a ser utilizado pelo povo do lugar para todos os fins domésticos: beber, banhar, cozinhar… Por não conseguir cumprir com seu papel de protetora do lugar, a Iara teria se enraivado a tal ponto que deixou de aparecer ali. As pessoas falam que, com isso, ela passou a ser vista em um outro pequeno lago altoense, de nome Angelim, que fica depois da chácara da ex-prefeita Eliete Fonseca. Ali dizem que ela pode ser vista até hoje, e que ela estaria bem mais impiedosa e cruel em seus ataques, pois teria ficado revoltada com a perda do olho d’água da Santa Inês.

O olho d’água represado em manilhas pelo povo, foi abandonado pelos mesmos populares com a chegada da água encanada na região. Hoje se apresenta deteriorado, sujo e largado em meio ao mato. A população até tem saudades do tempo do pequeno lago que era formado pelo olho d’água, onde era possível banhar em certas horas do dia. Apenas não retiram as manilhas, afim de a água se espalhar novamente, por temerem o retorno da temível Iara.

REFERÊNCIAS:
– COUTINHO, Reinaldo. A FABULOSA MÃE D’ÁGUA. Disponível em: <http://www.piracuruca.com/index.php/lendas-e-folclore/143-a-fabulosa-mae-d-agua>. Acesso em 14 de maio de 2017.
– TEODORO, Alexandra. Folclore do Piauí presente nas lendas e ‘causos’ ao longo de gerações. Disponível em: <https://www.portalaz.com.br/noticia/arte-e-cultura/346531/folclore-do-piaui-presente-nas-lendas-e-causos-ao-longo-de-geracoes>. Acesso em 14 de maio de 2017.
– KERON-E. Probacionista: Apêndice de entidades místicas brasileiras. Disponível em: <http://www.ordoaa.com.br/arquivos/ht/apendice_entbrasil.htm>. Acesso em 14 de maio de 2017.
– FOLCLORE DO PIAUÍ (BARBA RUIVA, O DUENDE FILHO DE IARA). Disponível em: <https://nuhtaradahab.wordpress.com/2009/08/28/folclore-do-piaui-barba-ruiva-o-duende-filho-de-iara/>. Acesso em 14 de maio de 2017.
– THARLEY, Guerreiro. LENDA PIAUIENSE – MIRIDAN. Disponível em: <http://www.recantodasletras.com.br/fabulas/4819703>. Acesso em 14 de maio de 2017.
– RELATO ORAL DE RITA DE CÁSSIA ALMEIDA E ANTONIO FRANCISCO DA SILVA (FRANK), MORADORES DO BAIRRO SÃO LUIZ, QUE CHEGARAM A FREQUENTAR O PEQUENO LAGO DO OLHO D’ÁGUA DA SANTA INÊS, EM ALTOS.

– SOARES, Luís Alberto. AMARANTE, PERSONALIDADES E FATOS MARCANTES.

http://somosnoticia.com.br/cidades/amarante/amarante-um-chao-de-cultura-14921.html

TEXTO: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

FOTOS: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

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