A MOÇA DOS OLHOS DE CRISTAL

(Esperantina – Piauí)

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Ilustração: Douglas Viana

Há muitos anos atrás vivia nas terras em que hoje ficam Esperantina uma bela moça que morava, juntamente com a mãe, em uma comunidade ribeirinha nas proximidades do Rio Longá. Seus vizinhos eram pescadores pobres da região, mas dizem que boa parte deles escondiam uma riqueza maldita: haviam saqueado muitos dos tesouros que um grupo de ciganos assassinados poucos anos antes ali perto carregavam consigo. Se apegaram tanto ao ouro que dele não se desfaziam por mais difícil que fosse a vida no lugar.

À primeira vista, a moça parecia ser tão gentil quanto formosa e aparentava gostar de morar naquele lugar, mas, na verdade, sua gentileza nada mais era que o modo pelo qual convencia as pessoas que usava para alcançar seus objetivos. A moça, como a maioria dos vizinhos, não tinha escrúpulos e muitos já haviam se metido em encrenca por causa dela, embora as pessoas não desconfiassem dela. Sua mãe, uma das poucas honestas no lugar, não tinha qualquer bem valioso que não fosse a filha, a quem julgava ter educado muito bem.

Mas, na verdade, a moça era tão gananciosa quanto os demais moradores, e tinha inveja por eles terem ouro e ela não. Tudo o que ela mais queria era sair daquele que ela considerava um lugar miserável, cheio de “gente pobre e sem educação”, como ela falava para si de seus vizinhos, o que pensava sempre apesar de por toda sua vida ter ouvido a mãe dizer que não agrada a Deus quem julga a seus irmãos. Sonhava em arranjar um marido rico. Não precisava ser muito rico. Só o bastante pra lhe dar um pouco de conforto e lhe levar pra longe dali.

Um dia, na povoação que um dia iria ser Esperantina, ela ficou sabendo de uma quermesse na igrejinha em que iria estar a nata da elite da região e começou a se arrumar para ir ao local, já pensando em arranjar um namorado, mas a mãe proibiu que dali saísse enquanto não terminasse seus afazeres, que nem eram tantos, mas havia acumulado por preguiça e jamais conseguiria se livrar deles a tempo.

A moça, que há muito fingia ser boa, em um rompante de fúria, que lhe transbordou após tantos anos vivendo de aparências, gritou: “Maldito seja esse lugar de gente pobre, feia e burra! E você velha estúpida? Porque tá me olhando com essa cara de surpresa? Só porque é minha mãe pensa que eu gosto de você? Antes você não tivesse me parido pra levar essa vida sofrida em meio a esse bando de porco que você chama de vizinho! Te odeio… Vai pro diabo que te carregue!”

Naquela noite, a mãe da garota, muito magoada, implorou aos céus que ensinassem à sua filha uma lição. Os pedidos da velha foram ouvidos e a resposta não tardou. Quando todos já dormiam, uma tempestade se formou nos céus em meio ao ribombar de raios e trovões. Era tanta água que se houvesse um vivente em meio àquilo, não conseguiria ver mais que dois ou três metros à sua frente. O vento soprava em um assobio que emanava uma melodia sinistra, arrastando consigo plantas e árvores.

O nível das águas do rio subiu rapidamente, inundando com surpreendente velocidade toda a região, deixando sob a água as casas das proximidades. Todos os moradores buscaram refugiar-se em locais mais altos que não tinham sido alcançados pela água. A velha mãe acordou atordoada e, já quase se afogando, saiu dali às pressas. A jovem, contudo, só acordou tarde demais, e, antes que pudesse salvar-se, sua casa, como as outras da comunidade, desabaram diante da força da torrente e a jovem foi arrastada junto com os escombros para o fundo do rio Longá.

O que se diz é que o castigo se deu para todos dali, de modo que os moradores além de perderem suas casas, tiveram os tesouros arrastados para o fundo do rio. A moça, contudo, como tinha cometido um pecado ainda maior (revelou tamanha maldade ao ponto de ofender a própria mãe), foi transformada em uma entidade das águas, e, como era muito ambiciosa, reuniu ali, no fundo do rio, todo o tesouro que pelas águas havia sido arrastado, de modo que, quando viu o ouro reunido no fundo do rio, seus olhos brilharam tanto de ganância que logo a magia do encantamento que lhe sucedera os transformou em cristal.

Desde então, muitos já tentaram recuperar o tesouro no fundo do rio Longá, mas foram perseguidos por ela, que, com sucesso, afogou alguns e afugentou todos. Há quem diga que quem conseguir tomar as joias da moça conseguirá quebrar o encanto que a prende ali e se tornará o detentor de toda a fortuna. Até hoje, contudo, não há notícia de que alguém tenha conseguido, e poucos se atrevem a tentar.

TEXTO: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

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