OS FANTASMAS DO CSU DE ALTOS

(Altos – Piauí)

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Ilustração: Douglas Viana

O Centro Social Urbano de Altos está localizado na Rua Jaime Rosa, 189, no centro da cidade. Foi fundado em março de 1979, pelo então governador do Piauí, Djalma Martins Veloso. Na época era a promessa de um espaço de socialização a ser utilizado pelo povo da cidade. Ali eram ofertados cursos, haviam duas quadras de esportes, um anfiteatro e um parquinho para as crianças. Como na época a água encanada só alcançava alguns poucos privilegiados na cidade, ali também tinha uma lavanderia coletiva, para que as pessoas mais humildes pudessem ali lavar a sua roupa, ou, mesmo, a de outros mediante pagamento.

O espaço, por um tempo, cumpriu seu fim, e era super frequentado. Hoje em dia o velho centro social está muito deteriorado. Existem partes do lugar que há muito não possuem condições de serem utilizadas. Exemplo disso é a lavanderia, que está caindo aos pedaços, com paredes e lavatórios danificados, de modo que lembra mais um cenário de uma cidade fantasma. As partes do prédio que ainda são utilizadas possuem pintura deteriorada e suja. O parquinho das crianças está todo quebrado e enferrujado. As quadras de esportes apenas ainda funcionam porque eventualmente os jovens pintam as faixas da quadra e colocam novas cestas de basquete, entre outros acessórios necessários à prática de esportes. Suas salas, que outrora ofertaram cursos, normalmente servem hoje em dia como mero depósito de coisas.

Tamanho é o abandono que sequer há ali equipes de limpeza para cuidar da manutenção do prédio. Os jovens que visitam o lugar praticamente todos os dias é quem ainda o mantêm vivo, útil para algo. Praticamente todos os dias, grupos se formam para praticar esportes ali. Vôlei, basquete, Handebol, futebol…

19415627_305883529836023_890809653_nFoi nesse cenário que Armando e Letícia se conheceram. Ele jogava vôlei, ela jogava handebol. Um dia, os olhares se cruzaram e não deu outra: apaixonaram-se. Como namorados, já haviam se encontrado em um domingo, na praça, após a missa na igreja de São José. Marcaram o segundo encontro para o sábado seguinte, ali mesmo onde se conheceram, no Centro Social. “A velha lavanderia abandonada, com aquele ambiente escurinho, à noite, seria o lugar ideal pra namorar”, teria dito o rapaz à amada. No dia combinado, Armando chegou cedo ao lugar e jogou um pouco de vôlei com os amigos. O jogo terminou cedo, mas na quadra ao lado alguns colegas jogavam basquete, e ele ficou por lá olhando a partida enquanto esperava.

Distraiu-se um pouco, e só às sete e dez é que foi até os banquinhos que ficam em frente à lavanderia, onde deveria encontrar Letícia às sete. Ainda caminhava rumo ao lugar quando percebeu como era escuro ali. Aquele ambiente caindo aos pedaços, deserto, escuro, empoeirado, cheio de teias de aranha, lembrava um pouco o cenário de um filme de terror que tinha visto há alguns dias. Chegou a sentir um calafrio e todos os pêlos de seu corpo se arrepiaram ao lembrar que os meninos outro dia disseram que ali, antigamente, era um cemitério. Armando era medroso que só ele, mas não lembrou disso ao marcar o encontro. Achou-se esperto em marcar um lugar escurinho pra encontrar com Letícia. Agora já não tinha certeza se era tão esperto assim. Mas não podia sair dali… Havia marcado naquele lugar com sua amada e não iria furar… afinal, Letícia valia a pena. Criou um pouco de coragem ao lembrar disso, afinal não queria que a moça percebesse que estava com medo. Ela poderia chamá-lo de frouxo.

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A lateral da velha lavanderia vista de onde Armando se encontrava.

De repente, de dentro da lavanderia, escuta ele uma voz chamar seu nome “Armando… Armando, vem cá!” Era a voz de Letícia… estaria ela querendo lhe fazer uma surpresa? E que surpresa? Algumas fantasias já afloravam à mente do rapaz quando novamente ele escuta a voz chamando por ele. Esquecendo todo o medo, e certo de que a amada o esperava, o sangue ferveu de desejo, pensando nas coisas que ela queria fazer com ele ali dentro daquele lugar abandonado. Só quando entra na velha lavanderia é que ele percebe como ali dentro é escuro… “Mas onde está Letícia? Já sei… é uma brincadeira de gato e rato!”

– Querida, onde está você?

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Por cerca de dez minutos Armando procura pela namorada ali dentro. Olha por todo canto da lavanderia. Nada! “Mas eu tinha certeza de que a voz dela vinha daqui…”, pensa. “Peraí! E se não era ela me chamando?”. O medo retorna com força total. Aliás, só agora é que ele percebe como ali está estranhamente frio. O rapaz é tomado por um pavor imenso ao ter a impressão de que uma sombra se moveu em um canto. Apressa o passo e sai correndo dali!

“Ainda bem que os meninos ainda estão jogando”, pensa aliviado. De fato, ainda se ouvia o som de pessoas jogando basquete na quadra. Corre na direção dos garotos. Ao dobrar a parede para pegar o corredor que o levaria à quadra de basquete, vê a quadra deserta e as luzes todas apagadas. É só então que percebe que não era só a quadra. O centro social estava às escuras. Já haviam fechado o lugar. Olha para o relógio. 3 horas da manhã.

– Mas como? Que diabo é isso? Agorinha tava vendo tudo aceso e o som dos meninos jogando aqui! E como é que pode ser três da manhã? Não faz nem meia hora que era sete e dez…

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Em primeiro plano a quadra de vôlei e, ao fundo, a quadra de basquete do CSU à noite.

Aquilo tudo era muito estranho! Será que queriam lhe pregar uma peça? Se era isso, estava funcionando! Armando estava apavorado. De repente, pareceu-lhe ouvir uma risada estranha ao longe. “Talvez tenha vindo lá de fora, da rua… De qualquer jeito é melhor sair daqui”. Quando Armando dá as costas e inicia o primeiro passo para sair do lugar, as luzes que iluminam as quadras de esportes acendem e ouve alguém encestando uma bola! “Ufa, eram os meninos me sacaneando!”. Mas ao virar. Estava tudo escuro. De repente uma voz do nada:

– Rapaz… que jogada linda, gordo! Por isso que o povo te chama de canhotinha de ouro!

– realmente, muito linda a cesta que tu fez! – disse uma outra voz.

Tinha algo errado ali! Seriam fantasmas? Se fossem eram três. Armando, tremendo mais que vara verde, corre em direção ao portão de saída. Mas o portão estava trancado. Tinham passado nele uma corrente com cadeado. E agora? O rapaz começa a gritar por alguém na rua que o pudesse ouvir. Mas nos dias de hoje as pessoas não costumam responder pedidos de ajuda na madrugada. Temem pela própria segurança. “Mundo cão! Não se pode mais contar com ninguém hoje em dia… E agora? Que que eu faço?”.

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corredores do CSU à noite ainda com as luzes acesas visto do portão de entrada.

De repente, Armando escuta passos atrás de si. Ao longe, vê o vulto de um homem segurando algumas chaves na mão. O que seria dessa vez? O porteiro do inferno? O rapaz não sabia mais o que esperar, afinal tudo ali estava estranho… Parecia assombrado! Se fosse mesmo o porteiro do inferno não seria nenhuma surpresa!

– Calma menino! Deixe que eu abro pra você!

“Ufa! É só o vigia”, pensou Armando.

– Moço, graças a Deus… já tava aqui sem saber o que fazer! Tô todo borrado de medo…

– Você foi na lavanderia, não foi menino? Não se deve ir naquele lugar. Existe uma razão para as coisas serem abandonadas, num sabe? Coisas estranhas acontecem com quem vai ali. – disse o vigia abrindo o cadeado do portão.

– Eu não duvido mais de nada moço… Depois de tudo que eu vi!

– O que você viu?

– Primeiro a Letícia me chamando na lavanderia…. Depois os fantasmas na quadra de basquete…

– Na quadra? São só os meninos! Eles são gente boa, num sabe? São meus amigos! São do bem… num são como aqueles outros lá não!

– Meninos? Amigos?

Sem entender nada, Armando olha para o velho vigia de cima a baixo como que em busca de explicações… Só então, percebe que o vigia não tem pés e que suas pernas não tocam o chão!

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– Boa noite menino! – diz o vigia abrindo o portão.

– B-Boa noite, moço! – responde Armando com a voz trêmula, pondo-se a correr no rumo de casa em seguida.

Ao chegar em casa, percebe mensagens no whatsapp em seu celular. Só agora, que ele estava ao alcance do wifi, elas foram recebidas. Letícia agradecia a noite romântica que tiveram juntos na lavanderia do Centro Social e proferia mil juras de amor. Mas como assim? Letícia foi à lavanderia? E com quem ela encontrou, se não foi com ele? Quem se passou por ele?

O olhar de Armando congela. Seu rosto fica pálido. Em seguida, seu rosto se converte em uma expressão de fúria e dor. Se alguma assombração havia se passado por ele, Letícia não tinha culpa. Mas isso não podia ficar assim. Estava decidido: ele voltaria à lavanderia… e quem quer que tenha feito aquilo iria enfim se ver com ele.

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Visão frontal do CSU durante o dia e à noite

(este conto está sendo transformado em um livro e quem pegou Letícia você só vai poder conhecer em referida obra, que por enquanto tem o título de “A PELEJA DE ARMANDO CONTRA O HOMEM DO PÉ DE BODE”)

Texto: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

Ilustrações: Douglas Viana

 

 

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