A PORCA DO DENTE DE OURO

(Teresina / Parnaíba)

porca dente de ouro

Muitos anos atrás, lá pelos anos 1930, havia um sanfoneiro muito famoso nas festinhas que o povo fazia no Piauí. O homem era um musico de mão cheia. Fazia coisa com a sanfona que nem mesmo Luiz Gonzaga, à época um sanfoneiro ainda desconhecido, entendia como era possível. Havia pouco tempo, enamorara-se dele Raimunda, uma moça que era um verdadeiro tamborete de forró. Ela não perdia uma festa. Estava em todas. Foi nessas festas que eles se conheceram. O namoro tava agoniado. Logo a moça não dava folga  para as concorrentes. Até porque o moço era bem danado. Mas ela só podia ser especial para ele. Ele tinha até pago um ourives para colocar em sua boca um dente de ouro, no local de onde havia caído uma das presas de sua boca.

Toda vez que o rapaz ia pra uma festa, a moça acompanhava se enfiando atrás dele. Naquele tempo, uma moça que assim se comportava não era muito bem vista na sociedade. Moça de família não podia andar atrás de macho e muito menos se emburacar em todo forró que havia em qualquer beira de esquina. Mas Raimunda não ligava muito pro que o povo pensava. Ocorre que sua mãe se importava MUITO. A velha, uma beata daquelas muito católicas que não saía da igreja, vivia brigando com a filha, tentando impedi-la de embarcar no mundo da devassidão. Preocupada, sempre pedia em suas orações, que Deus iluminasse a cabeça de sua filha, que há muito não lhe ouvia. Toda vez que a moça se emperiquitava para sair pro forró, o diabo faltava sair da garrafa dentro daquela casa. Pense, caro leitor, numa discussão feia. Nem um sermão do padre da paróquia sobre a importância dos filhos obedecerem a seus pais tinha dado resultado. A velha, coitada, vivia indignada. Dizia pra moça que se esse rapaz não quisesse mais ela, ninguém mais ia querer casar com ela, mas a moça não lhe dava ouvidos e respondia sempre com insultos e blasfêmias.

porca dente de ouro2Certo dia, a moça se preparava para sair e novamente começou a confusão. O arranca rabo, dessa vez, foi tão pesado, que a jovem acabou por agredir sua mãe com uma dentada que lhe arrancou parte do rosto. A velha, então, ferida, lançou uma maldição na filha: daquele dia em diante, ninguém mais ia querer nada com ela e ela haveria de se tornar uma porca grande e feia que ninguém ia querer ver ela nem de longe. A moça, furiosa, virou as costas para a mãe e saiu batendo a porta do casebre, deixando a velha  ferida sangrando e chorando.

Chegando na festa logo se pôs a procurar o sanfoneiro. Tocando ele não estava. Só o resto do seu grupo estava no palco animando a festa. Onde estaria? Será que havia dado uma pausa para descansar ou ir ao banheiro? Já o procurara olhando por todo canto, quando, de repente, o viu num cantinho escuro perto do balcão do botequim, tomando uma dose de cachaça, enquanto abraçava e beijava uma moça que apresentava aos amigos. Já transtornada pela fúria, o humor da jovem só piorou, e partiu pro rumo do rapaz decidida a tirar aquilo a limpo. Chegou nele já o empurrando violentamente, afastando-o da mulher que abraçava, e perguntou histérica:

– Quem é essa sirigaita?

– Opa! Respeite minha mulher sua rapariga… Cê pensa que só prucauso qui eu li usei cê tem direito de chegar aqui ofendendo ela? Sai de perto de mim que eu num quero mais nada com você não!

Rapariga? Era isso o que ela era pra ele? E ele era casado? A moça num olhar perdido ainda empurrou o homem gritando de forma histérica e saiu dali correndo, enquanto todos riam dela. Saiu correndo pela noite escura aos prantos. Não podia acreditar naquilo. Já se arrependia de não ter dado ouvidos à velha mãe. Mas de todo jeito estava perdida. Era tarde para arrependimentos. Agora sim, depois duma humilhação pública daquelas em meio a toda a festa ninguém ia mais querer nada com ela mesmo. “Teria isso sido causado pela praga lançada pela desgraça da minha mãe? Sim, é claro, só pode ser! É tudo culpa daquela velha inútil!”. O arrependimento que já se formava em sua mente é afastado pelo ódio que sentia em seu peito naquele momento. A jovem não conseguia reconhecer sua culpa, pois não acreditava ter feito nada errado.

Nesse momento, iniciou-se uma transformação. no céu, uma lua despontava por detrás de uma nuvem, enquanto a jovem começa a se encurvar, criar pêlos e cascos nas extremidades de seus membros em lugar de pés e mãos. As orelhas ficam enormes e o nariz se transforma em um focinho. Os seios se tornam inúmeras tetas por todo o abdômen e acima das nádegas nasce um rabinho. Na boca desponta um longo e afiado dente de ouro. Quando o astro celeste aparece por inteiro no céu, a transformação está completa: a jovem tinha virado uma porca grande, feia, magra, com as tetas longas e as orelhas compridas, olhos avermelhados que brilhavam no escuro e uma enorme presa de ouro saindo de sua boca.

– Ficará assim por todas as noites até que um corajoso lhe arranque este dente de ouro. – disse-lhe uma voz que parecia vir das nuvens que povoavam os céus naquela noite escura.

Essas pessoas que viram bicho, quando transformadas, perdem a capacidade de raciocinar como ser humano. Passam a pensar como bicho, guiados pelo instinto. Apesar disso, na mente da porca só havia uma lembrança: o sanfoneiro que havia lhe humilhado. A obsessão era tamanha que mesmo naquele estado selvagem, a lembrança do homem sobreviveu em sua mente. Assim, roncando e fuçando feito louca, a porca saiu correndo pelos caminhos iluminados apenas pela lus da lua e das estrelas de volta à festa.

Quando chegou ao local, já não havia mais festa. Estavam recolhendo as mesas e limpando o local. O sanfoneiro também não estava mais lá. Já tinha tomado o caminho de casa, acompanhado da esposa. A porca, contudo, conseguiu farejar seu rastro e iniciou a perseguição. Enfim, iria ter sua vingança.

porca dente de ouroO sanfoneiro e sua jovem esposa caminhavam pela noite, como dois namorados, aos risos. O homem que carregava a sanfona nas costas  pegava delicadamente na mão de sua amada. Essa era a cena que a porca visualizou quando conseguiu acompanhá-los, o que só deixou o bicho mais furioso. A porca soltou um ronco alto que parecia vir carregado de dor e raiva. Nas costas os pêlos estavam eriçados e os olhos vermelhos brilhavam em meio a escuridão, junto com o dente de ouro que reluzia refletindo a luz do luar. Ao virar-se para ver o que tinha feito tal som, o casal assustou-se com aquele animal furioso e horrendo e correu em disparada.

O animal correu atrás do casal até a porteira da cerca que cercava o terreno da casa em que moravam. Revoltada, ainda roncou e fuçou por não ter conseguido ferir suas vítimas, de modo que passou horas correndo e gritando furiosa ao redor da casa, até que, instintivamente tomou o caminho de casa. O sanfoneiro montou em um cavalo e com uma peixeira à mão ainda perseguiu o animal, mas assustou-se ao ver que entrara na casa da jovem que desprezara mais cedo e que já tinha ido deixar ali por algumas vezes. Ali ainda ouviu enorme barulheira, mas, depois de um tempo, veio o silêncio.

Daquele dia, em diante, ninguém mais viu a jovem nos forrós da vida. Também não a viram em nenhum lugar mais. Nem mesmo à luz do dia, quando mantinha sua forma humana. Dizem que vive trancada dentro de seu quarto, envergonhada por sua dupla maldição: a de ser considerada uma rameira e a de ter se tornado uma besta furiosa. Ali, dentro do quarto, se exilou dia e noite, e só a velha mãe, com o rosto lesionado, ainda se importava com ela, levando comida na porta do quarto. O povo conta que de sua casa, à noite, emanavam os mais horríveis sons. Com certeza, havia ali uma criatura amaldiçoada. Às vezes, naquele estado, conseguia fugir de casa, e, nas noites, invejosa, perseguia os que se aventuravam pelas ruas de toda a cidade, muitas vezes voltando dos  mesmos forrós que ela, desobedecendo a sua mãe, frequentava. Aproveitava essas oportunidades pra fuçar e perseguir pessoas por todo o Piauí, já que dizem que nessa forma era dotada de incrível velocidade. Os relatos mais constantes de encontros com a fera eram quase sempre de Parnaíba e Teresina, de modo que nessa última, até hoje, volta e meia, aparece um dizendo que viu a porca do dente de ouro assombrando as ruas na madrugada…

REFERÊNCIAS:

TEXTO: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

ILUSTRAÇÃO: DOUGLAS VIANA

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