O VIOLINISTA DO CASTELO DE PEDRAS*

(Castelo do Piauí – Piauí)

* Um conto de Enéas Barros, cedido pelo autor para o blog dos Causos

(escritor piauiense, autor de “15:50”, “Parabélum”, “O Boato” e outros)

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Ilustração: Douglas Viana

Lá pelas brenhas da antiga Vila de Marvão morava uma família humilde, numa casa de taipa coberta de palha, no meio do nada. Viviam da pequena roça que plantavam e de algumas criações que se espalhavam pelo terreiro. Quase nunca recebiam visitas e não costumavam visitar ninguém, por conta das distâncias e da falta de interesse. O homem da casa era tocador de rabeca, ofício que repassou ao filho, um rapaz muito tímido, de porte vistoso, mas que nascera com o rosto deformado que o fez se isolar do mundo.

Quando ainda era solteiro, em uma de suas andanças o homem conseguiu arrebatar um violino em uma feira de mangalhos, que guardou por muitos anos. Quando o primeiro e único filho nasceu, retirou o instrumento do estojo forrado de veludo e o presenteou, dizendo que quando estivesse maior o ensinaria a ser um grande músico. Com o tempo, o garoto aprendeu a tocar os muitos lamentos que ouvia do pai, dedicando-se ao ofício como se intencionasse compensar a feiura.

Certo dia, o rapaz resolveu fazer um passeio e conhecer os arredores de onde morava. A região era de mata fechada, com pequenas trilhas abertas pelos animais em busca de água. Para não se expor ao sol, saiu à tardinha, com o violino debaixo do braço, e ganhou as brenhas. Sabia que era noite de lua cheia, quando as trilhas clareiam e as copas das árvores refletem o brilho do luar. Em pouco tempo de caminhada, deu em um descampado de areia fina, onde um imenso castelo de pedras se erguia com largos portões e altas torres. Parecia abandonado, pois não havia movimento de pessoas. Cautelosamente, adentrou um dos portões e começou a percorrer o interior, cada vez mais profundo e mais sinistro. Ao fundo, havia uma subida íngreme que dava para uma passagem estreita, por onde o rapaz alcançou o platô do castelo. Lá do alto se formava uma vista fenomenal. Podia, inclusive, ver nitidamente a luz que vinha da casa onde morava. Sentou-se na grama que forrava o chão e começou a tocar, espalhando pela região os belos lamentos que aprendera.

Subitamente, o rapaz parou de tocar, assustado com o som de talheres e vozes que parecia vir do salão principal. Aquilo não podia estar acontecendo, pois se certificara de que ali não havia ninguém. Mas o barulho que ouvia cessava no mesmo instante em que parava de tocar. Pensou estar sonhando. O silêncio voltou a reinar. Para certificar-se do que ouvira, começou a tocar novamente. E novamente ouviu as vozes, como se pessoas estivessem jantando e se divertindo em uma grande mesa. Ao parar de tocar, tudo sumia. Decidiu que arriscaria um tempo maior. Caminhou até a beira do platô e começou a tocar sem parar. Olhou para baixo e viu vultos de pessoas entrando no castelo. Eram muitos jovens, rapazes e moças, louros e morenos, tagarelas e alegres. Certificou-se de que realmente ali havia uma festa. Continuou tocando. Posicionou-se em uma pequena abertura, de onde podia ver o salão.

Notou que havia um rei, com um manto longo e uma coroa na cabeça, sentado em uma das extremidades de uma mesa que comportava quarenta jovens. Todos bebiam vinho e se embriagavam. Os pares começavam a se entender, enroscando-se uns nos outros, beijando-se ardentemente, caindo sobre as almofadas que se espalhavam pelo salão, em verdadeira orgia. O violinista estava assustado, mas decidido a não interromper a música para ver como aquela cena acabaria. O rei apenas ria de tudo, enquanto se lambuzava com jovens dispostas a lhe fazer as vontades.

A festa atingia o seu ponto máximo quando os vassalos do rei entraram no salão, cada um com lanças e espadas. Cercaram o ambiente e aguardaram o sinal. O rapaz acompanhava tudo, tocando cada vez com mais intensidade. O rei levantou a mão e ordenou o massacre. Os vassalos partiram para cima dos jovens, estocando-os com suas armas, ferozes cumpridores da trágica ordem real. A matança foi geral, sem deixar uma alma viva para contar a história. O violinista arregalou os olhos e tombou para trás, jogando o violino ao chão. Depois de alguns segundos, procurando se recompor do susto, abriu os olhos vagarosamente e nada mais ouviu. O silêncio voltou a reinar. Levantou-se, foi até a beira do platô e olhou para baixo, mas havia apenas o brilho da lua na areia fina e nas copas das árvores. Passava da meia-noite. Resolveu não arriscar mais uma aventura. Pegou o violino e voltou para casa.

Os dias se arrastaram e o rapaz permanecia calado. A mãe notara que algo havia acontecido. O pai pensava ser coisa de adolescente. Na lua cheia seguinte, resolveu voltar ao castelo. Precisava acabar com aquela apreensão, esclarecer o que o consumia. Com o violino debaixo do braço, partiu à tardinha no rumo das brenhas onde ficava o novo mistério de sua vida. A mesma cena se mostrava, o areal, os imensos portões, as torres… Tudo silencioso, nenhum sinal de vida. Subiu ao platô, posicionou-se e começou a tocar. Novamente as vozes surgiram, o barulho dos talheres, os risos e os jovens que começavam chegar. A festa se repetia, com o rei no centro do comando. Os vassalos entraram. O violinista percebeu que a matança estava prestes a acontecer. Decidiu que iria interferir, que não poderia deixar que aquilo acontecesse outra vez. Desceu o pequeno trecho íngreme e se fez surgir em meio a todos. O rei virou-se bruscamente e todos pararam o que faziam. Os vassalos se posicionaram. O rapaz era o centro das atenções. A melodia que tocava deixava atônitos os jovens, que aos poucos se levantavam de seus lugares. O rei ordenou o massacre. Nesse instante, o rapaz aos gritos disse que, se eles continuassem o que pretendiam fazer, pararia de tocar e todos seriam transformados em pedra. O rei não deu bolas e, ainda rindo, levantou a mão e fez o sinal. O rapaz foi parando de tocar, primeiro uma corda, depois a outra e mais outra, até que tudo foi virando pedra, as moças, os rapazes, todos se contorcendo de dor enquanto seus corpos se transformavam. Quando parou de tocar por completo, nada mais restava, tudo havia virado pedra. O violinista saiu do castelo e voltou para casa.

Na lua cheia seguinte, resolveu voltar e repetir o que fizera antes, mas ninguém apareceu. Nem as luzes nem o barulho dos talheres eram percebidos. E ele tocou e tocou e tocou, mas nada aconteceu. Daquela noite em diante, quando é lua cheia, o violinista sobe no platô e toca sem parar. Muitos visitantes já confirmaram ter ouvido os lamentos do misterioso violino que deu vida à Pedra do Castelo.

TEXTO: ENÉAS BARROS

ILUSTRAÇÃO: DOUGLAS VIANA

 

 

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