O INFERNO DE JÚLIO

(Localidade Crioulos. Altos, Piauí)

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Há muitos anos atrás, na Localidade Crioulos, zona rural de Altos, Piauí, vivia Julio, um rapaz namorador que adorava festas. Não perdia um forró, que considerava excelente oportunidade de agarrar-se com um rabo de saia. Danado que só ele, o moço rodava por toda a região em que morava e até por localidades distantes, buscando diversão.

Certa noite, vinha ele voltando de mais uma de suas andanças. Tinha ido a uma festa na localidade Saco de São Mateus e agora, já cansado, só pensava em finalmente chegar em casa para o merecido descanso. Lamentava, contudo, não ter conseguido nenhuma paquera. Caminhava por uma vereda no meio da mata com a luminosidade de uma lua cheia no céu clareando a trilha, quando, de repente, dá de cara com uma bela jovem sozinha em meio àquele matagal. A moça lhe convida para que ele a siga em  meio ao mato. O rapaz até achou estranho, mas com certeza não iria rejeitar o convite de tal beldade. Afinal, não é todo dia que uma mulher bonita lhe convida para o meio do mato. Imaginava mil formas de satisfazer sua lascívia com tão linda morena de vestidinho curto, olhar sedutor, cinturinha fina e pernas bem torneadas que lhe puxava pela mão mata adentro. Não deixava de se insinuar um só segundo, até que finalmente chegam ao seu destino.

Era uma clareira enorme próxima do morro das cobras. O que Júlio viu ali, contudo, fez com que se arrependesse de ter acompanhado a moça. Era uma visão horrível… Mais que isso: estarrecedora. Pra onde olhava só via desgraça. Um monte de gente torturada em castigos indizíveis por criaturinhas tenebrosas que só podiam ter saído do inferno. Até seu avô, que havia batido as botas há anos, estava ali enforcado com meio metro de língua do lado de fora da boca. Nunca tinha ele sequer sonhado em seus piores pesadelos uma cena tão medonha com todo tipo de atrocidades sádicas cometidas enquanto uma orquestra satânica composta de moças endiabradas cantavam a música “ô coisinha tão bonitinha do pai”.

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Júlio, então, percebeu a encrenca em que se metera: a bela jovem que o havia guiado até aquele lugar, não era uma moça como lhe aparentava, mas o capeta em pessoa, que queria arrastá-lo para danação eterna em seus domínios infernais. O susto foi tão grande que o rapaz caiu desfalecido no chão. Acordou no dia seguinte, quando foi encontrado por alguns vaqueiros, tendo lhes contado todo o ocorrido. As pessoas, contudo, riam de sua história. Diziam que a visão só podia ser uma alucinação decorrente do álcool que ele consumiu na noite anterior.

Por dez anos, Júlio contou sua história ao povo da região, mas ninguém acreditava nele, até que um dia morreu esclerosado sem que ninguém tenha se convencido da verdade em suas palavras. O mais estranho é que desde o dia em que o rapaz disse ter testemunhado a visão infernal, no lugar nada mais cresceu. Tornou-se uma terra improdutiva em que nada cresce. Eu não sei se o que Júlio dizia era verdade, mas quem já passou perto do lugar nas horas mortas da noite, afirma que por ali, volta e meia, se escutam gritos horrendos de criaturas torturadas vindo da mata escura.

FONTE:

Informações de Irene Nascimento, que cresceu em região próxima ao cenário da estória, e de Carlos Dias, historiador altoense que obteve as informações de Irene.

TEXTO: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

ILUSTRAÇÕES: DOUGLAS VIANA

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