A VINGANÇA DO VIOLEIRO

(Altos – Piauí)

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Zezinho estava namorando Ana há pouco tempo. Estavam ainda no ardor da paixão. Aquele fervor dos primeiros dias de amor. Zezinho queria muito estar com a amada, mas Ana tinha suas limitações. Nunca podia demorar muito nos encontros, pois namoravam escondidos, já que o pai não a deixava namorar ainda, pois a considerava muito jovem para essas coisas. Marcelo era, para falar a verdade, um pai muito ciumento. Ai daquele que ousasse tocar em sua princesinha. Ele não podia, jamais, nem sonhar que os dois estavam namorando. O rapaz, contudo, não gostava daquilo, e vivia dizendo que uma hora ou outra ia enfrentar o pai de Ana. Queria muito poder estar junto dela. Já vinha, há algum tempo, pensando em fugir para casar com a moça.

Uma certa noite, o casal marcou um encontro para o domingo seguinte, após a missa na Igreja de São José. Ir à missa era uma desculpa que a jovem havia encontrado para poder sair de casa e ver, ainda que rapidamente o amado. No domingo, depois da missa, Ana foi até a praça Cônego Honório, onde havia marcado com o seu amado. Mas ele ainda não estava lá. Todavia, não custava esperar um pouco. Poderia dizer que tinha parado para conversar um pouco com alguma colega.

Na noite marcada para o encontro, Zezinho arrumou-se cedo. Saiu de sua casa, no Bairro Batalhão, pela Avenida Pedro II, rumo ao centro da cidade de Altos, onde ficava a igreja. Carregava consigo seu companheiro inseparável: o violão. Assim poderia tocar um pouco para a amada, que adorava ouvir as canções entoadas por ele. No caminho, encontrou um barzinho ainda aberto e resolveu parar para tomar uma dose. A caminhada havia lhe deixado com a garganta seca e ainda faltava algum tempo para a hora do encontro. No barzinho, dá de cara com um casal de amigos, que lhe convidam a sentar e pedem que toque uma canção para eles. Essa canção leva a outra e a mais outra. Logo, Zezinho pergunta aos amigos as horas e, com a resposta, verifica que já era um pouco tarde e já se encontrava atrasado para o encontro.

– Como o tempo passa ligeiro! É só começar a tocar que as horas vão embora… Já terminou a missa! Tou atrasado pro meu encontro! A gente se fala depois pessoal… vou indo ali encontrar com a Ana…

O rapaz caminha quase correndo pelas ruas torcendo para que, chegando na praça, ainda encontre a amada. Ao chegar no local, dá de cara com uma furiosa Ana:

– Como você se atreve a me fazer esperar tanto assim? Pensei que tinha acontecido alguma coisa! Onde você estava? Não sabe como é que é o meu pai?

O rapaz tenta explicar, mas a moça não lhe dá ouvidos. Magoada, parte no rumo de casa sem aceitar qualquer justificativa do rapaz, até mesmo porque lhe pareceram implausíveis! Seria, afinal, mais importante para ele estar com os amigos que com ela?

Percebendo seu erro, Zezinho fica desconsolado. E agora? Teria perdido a amada? Afinal, porque havia feito aquilo com ela mesmo? Tanto que ele a amava, não podia tolerar perdê-la por conta de um erro tão idiota! Ele tinha que fazer algo para recuperá-la, para obter o seu perdão… Mas o que?

Desorientado, o rapaz vagueia pelas ruas e acaba atingindo a região do Queimadinho, a zona boêmia da cidade. Ali encontra dois amigos: Gil e Daniel, dois pintores que depois de um cansativo dia de trabalho, estavam ali saboreando uma gelada em um bate-papo amistoso. Eles até lhe pedem que toque uma canção como de costume, mas Zezinho se mostra abatido. Definitivamente, havia algo errado com o músico.

– O que você tem? – pergunta Gil.

– Rapaz, é a Ana… cheguei atrasado no encontro e ela não podia demorar porque o pai dela vive na cola dela e não quer nosso namoro… Como eu demorei, ela ficou chateada… Agora eu não sei o que vai ser!

– Cara, tu ainda é desse tempo? – pergunta Gil – Já que é assim, igual nas antigas, e tu anda com esse violão para todo lado, se eu fosse tu, pra acalmar ela, eu ia lá fazer uma serenata pra ela!

– Não posso! – responde Zezinho – Se o pai dela me pegar, me mata!

– E desde quando tu tem medo de homem? – pergunta Daniel.- Pois se fosse eu, ia lá, fazia a serenata e ainda levava a mina embora comigo… eu fugia com ela e casava… queria ver o que é que ele ia fazer!

– Quer saber? É isso mesmo que eu vou fazer! – responde Zezinho decidido.

Ao longo do caminho, o violeiro se pergunta se estava fazendo o correto. Afinal de contas o pai de Ana era muito ciumento e ela havia lhe pedido para nunca ir procurá-la em casa… Mas ele não podia aceitar o risco de perder a amada. Com certeza, devia fazer algo. Em frente à janela do quarto da menina, o rapaz inicia uma serenata. Ana acorda mas sinceramente não acredita naquilo! Como ele podia ter agido daquela forma?

– Você tá louco? Sai daqui! O meu pai vai te matar… – reclama a moça.

– Vim te buscar… vem meu amor, vamos fugir juntos… vou te levar embora daqui para você ser minha mulher!

– O que é que está acontecendo aí fora Ana? Peraí que eu tou indo ver!

– Oí tá vendo seu louco? Sai daqui! Se meu pai te pega, mata nós dois…

Nesse momento, Marcelo, o pai de Ana, chega ao lado de fora da residência, e, armado de um facão, parte para cima de Zezinho, que cai desfalecido com um golpe fatal.

– Meu amor! Não, pai pára… – diz a menina correndo em direção ao corpo. – Porque você fez isso pai? Não precisava!

– Vai pra dentro moleca! Senão você é a próxima! – responde Marcelo. – Vou já é enterrar essa desgraça!

Após enterrar o corpo do violeiro, Marcelo, o algoz, volta à sua cama como se nada houvesse acontecido. Enquanto isso, desconsolada, Ana chora em seu quarto até cair em sono profundo. Lá pelas tantas, no meio da noite, Marcelo começa a ouvir um som inquietante de violão no interior de seu quarto. A música repetia sempre os mesmos acordes, tornando-se chato ouvir aquilo por tanto tempo, o que faz com que Marcelo não consiga dormir. Chateado, o homem se levanta:

– Já matei um violeiro hoje, será que vou ter que matar outro?

– Você me matou! Mas agora vou ficar com você até você se entregar… – responde uma voz em eco que Marcelo reconhece como sendo a voz de Zezinho, enquanto a música continua de forma insistente e irritante sempre com os mesmos acordes.

Durante a noite, Marcelo não consegue pregar os olhos. A música tocou o tempo inteiro de modo que não fora-lhe possível dormir. Aquele som repetitivo incomodava tanto que não tinha como pegar no sono. A música se repetia ainda por vários dias, sem parar, desde que começou a tocar pela primeira vez. Onde quer que Marcelo estivesse, lá estava ela, sempre nos mesmos acordes. O homem já se encontrava à beira da loucura. Será que nunca mais poderia dormir em paz?

Uma noite, cansado de ser importunado pelo espírito do violeiro, Marcelo finalmente resolve se entregar. Pega a sua moto e parte rumo à Delegacia de Polícia Civil do Município de Altos, o 14° Distrito Policial. Depois de confessar o delito ao policial de plantão o homem é conduzido a uma cela vazia. “Finalmente vou poder dormir em paz na cadeia”. Ledo engano. No interior da cela, havia um grilo, que em seu “cri cri” repetitivo lembrava a música entoada pelo violeiro e que se tornaria o companheiro de cela de Marcelo por muito tempo.

Depois de tudo, Ana se sente perdida. Afinal dependia do pai que a sustentava e nem namorado tinha mais. Todavia, no dia seguinte ao dia em que Marcelo se entregou, Ana recebe a visita de um advogado. Era o representante de uma gravadora, que lhe explicava que Zezinho havia cedido os direitos autorais de algumas músicas por ele compostas há alguns dias para uso pela gravadora e o contrato contemplava a namorada como herdeira da renda que o artista faria jus pelas músicas objeto do contrato. Assim, o advogado, após as explicações de praxe, repassa um cheque milionário para a jovem, que, de repente, se vê rica do dia para a noite. Os valores futuros seriam agora depositados em sua conta. “Mesmo após a morte, cuidando de mim”, pensa.

Um tempo depois, Ana, agora uma chique e pomposa madame da sociedade piauiense, visita o túmulo do amado. Ela havia pago uma funerária para trasladar o corpo para o lugar, mas ainda não tinha tido coragem de visitá-lo ali. Não conseguia aceitar tudo o que ocorrera. Finalmente, ao visitar o túmulo, depositou umas flores no lugar e agradeceu ao amado, enquanto lamentava a sua ausência. Em seguida, após um breve tempo, despede-se e se afasta do túmulo, saindo do cemitério. Tão desconsolada estava a moça, que não percebeu uma presença que a seguia. Era o espírito do violeiro, que, ainda que morto, finalmente poderia ficar junto da amada.

Marcelo, por outro lado, passou muitos anos na cadeia, e nunca mais viu Ana, que depois de rica, se recusava a manter contato com o pai homicida. Durante todos os anos que esteve preso, o homem tinha problemas de insônia. Não conseguia dormir, pois ali, em sua cela, um grilo que só ele podia ouvir, parecia caçoar dele enquanto cricrilava a melodia da canção do violeiro todas as noites.

TEXTO: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

ILUSTRAÇÃO: DOUGLAS VIANA

VÍDEO: “A VINGANÇA DO VIOLEIRO”. DE CAUSOS ASSUSTADORES DO PIAUÍ.

 

 

 

 

 

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