CAIPORA (OU CURUPIRA)

(Matas do Piauí)

curupira

Os Caiporas, em geral, são tidos como sendo as mesmas criaturas que em outras regiões se convencionou chamar de Curupira. Normalmente são retratados como sendo um menino de baixa estatura, com os cabelos avermelhados e os pés voltados para trás. Dependendo da região, podem ter pele escura ou pelos esverdeados por sobre todo o corpo. Mas essa é a aparência padrão, embora possa haver uma ou outra diversificação de uma região para outra. Embora quase sempre se apresente na forma de um garoto, há relatos que dão conta da aparição de caiporas-fêmeas, que em algumas regiões são chamadas caiçaras.

curupira_girl_cris_de_laraAs inúmeras versões do Caipora possibilitam que se apresentem ele e o Curupira como manifestações transformadas de uma mesma entidade e que, apesar das variações regionais, trazem ainda mais semelhanças, o que permite afirmar que a criatura pode ter poderes transmorfos. Ruth Guimarães, por exemplo, em “Quatro Histórias do Curupira”, acrescente um parêntesis a esse título: “(Ou Caipora ou Caapora, o Pai do Mato)”. Basílio de Magalhães (“Folclore no Brasil”), diz que o Curupira e o Caipora “constituem a mesma personificação do gênio das florestas.”. Também entendemos assim, pois um dálmata e um pastor alemão, apesar das diferenças ainda são cachorros.

Essa entidade foi a primeira criatura documentada pelos exploradores europeus em terras brasileiras. Ainda em 1560, José de Anchieta documentava a sua presença no Brasil: “Aqui, há certos demônios a que os índios chamam Curupira, que os atacam muitas vezes no mato, dando-lhes açoites e ferindo-os bastante”.

É ele tido como o espírito protetor dos animais que vivem nas florestas, de modo que quem desejar caçar em terras protegidas por um caipora, deve obedecer algumas regras: Nos dias santos, nas noites de sexta-feira e nos domingos não se pode caçar.  Ele protege ainda as florestas não tolerando o desmatamento ou queimadas desnecessárias. O caçador ou desmatador deverá lhe ofertar fumo, cachimbo e aguardente e, assim, poderá adentrar tranquilamente as matas para a execução dos seus fins, desde que tão somente para sua subsistência. Dizem que na versão feminina, aceita também ser agradada com sexo, mas os homens deverão se manter fiéis a ela. Em nenhum caso, o caipora tolera a caça predatória, por esporte ou prazer, e muito menos que sejam vitimadas fêmeas com filhotes. Também não aceita que sejam derrubadas árvores em extinção.

Aquele que desrespeitas as regras impostas pelo caipora sofrerá as consequências de sua ação, pois não será poupado. A entidade usa os seus conhecimentos sobre a vida na floresta para fazer armadilhas para os caçadores, destruir suas armas e bater nos cães de caça. Com a capacidade de mover-se rapidamente e reproduzir os sons da floresta, o caipora assusta os caçadores, fazendo com que saiam da mata apressadamente. Às vezes, a entidade modifica os caminhos e rastros para fazer com que os caçadores se percam na floresta, de modo que a pessoa pode ficar perdida para sempre, ou ao menos por alguns dias.

curupira_01A entidade pode surgir montada em um porco ou cachorro do mato, pois, sendo amiga dos animais, recebe eventualmente a ajuda deles. Muitas vezes é seguida por um cachorro do mato de aparência esquisita a que as pessoas convencionaram chamar de Papa-Mel. Por ter os pés voltados para trás, despista seus inimigos que ao seguirem o seu rastro, caminham sempre na direção oposta àquela em que seguiu.

Por ser cheio de artimanhas e magias, o caipora não precisa fazer uso de armas no mais das vezes, mas alguns relatos dão conta de que ele porta armas primárias, como as utilizadas pelos indígenas, a exemplo, de lanças, arcos, flechas e toras de pau.

Existem alguns relatos dando conta de que o caipora pode transformar em animais pessoas queridas pelo caçador, de modo que, muitas vezes, ao disparar em um animal e ao correr para pegar sua presa, a pessoa, chegando ao lugar em que deveria estar o animal abatido, dá de cara com entes queridos mortos ao chão. Também dizem que quem for perseguido por ele, será amaldiçoado com uma maré de azar que durará por anos, de modo que em tudo que fizer em sua vida, não conseguirá êxito.

images (11)O que se sabe sobre o caipora é resultado de anos e anos de construção oral obtida de populares que deram o azar de encontrar com esse guardião da fauna e da flora. São muitos os relatos não só no Piauí, mas em todo o Brasil. Tivemos o privilégio de ter acesso a um conto, escrito por Antonio Soares, autor de “A Butija”, que informa a aparição do caipora em terras piauienses. O conto, escrito no grupo do facebook “Contos de terror altoenses, trata-se, segundo o autor, da versão escrita de um relato que ouviu, de modo que o interlocutor teria lhe garantido ser um caso verídico. Assim, para complementar o presente post, passamos a apresentar referido conto.

A ESPERA

Seu Antônio Pedro sempre gostou de fazer suas caçadas. Um dia ele estava em uma de suas esperas, já quase cochilando, quando despertou com o barulho do chap, chap de folhas pisadas por alguma coisa que se movia logo mais embaixo, no pé da árvore que ele escolhera para fazer a espera.

Ao olhar para baixo distinguiu o que seria um garotinho de aproximadamente sete anos, porém com um aspecto bastante esquisito: o moleque tinha uma cabeleira volumosa, arruivada e espichada, usava uma tanga que parecia ser feita de pele de animal e carregava na mão um pedaço de madeira.

Seu Pedro ficou calado no alto da árvore apenas observando os movimentos do estranho garoto, que se mexia feito um animal arisco: farejando num canto e no outro. Remexendo na folhagem aqui e ali, olhava para os lados com olhos atentos e vivos, provavelmente a procura de alguma coisa ou alguém que adivinhava o estar observando.

Então o moleque cautelosamente se abaixou e parou de se mexer como queCurupira3 se tentasse escutar ou farejar algo. De repente ele olhou para cima e enxergou aquele homem estático entre os galhos da árvore. O coração de seu Antônio Pedro trepidou no peito.

O molecote então suspendeu o pedaço de madeira numa embira à tira colo e se pôs a subir com a maior facilidade pelo tronco da árvore como se a gravidade não exercesse efeito algum sobre seu corpo. Seu Antônio Pedro já tinha visto de tudo nesta vida, mas menino como esse era de deixar qualquer um escabreado; ele não conseguia realizar nenhum movimento de tão pasmo que estava; à medida que o menino se aproximava, a respiração do velho caçador ia ficando cada vez mais ofegante, dificultosa…

Já bem pertinho dele o estranho garoto achegou-se a seu rosto e fitou-o nos olhos, seu Pedro podia ouvir a sua respiração, e encarando-o percebeu que seus olhos tinham um tom amarelado como que olhos de felino.

O garoto, lentamente, pegou o tronco de madeira, se desvencilhou da embira e, preparando o golpe, acertou seu Antônio Pedro de cheio na cabeça, que só não caiu porque esbarrou nos galhos, mas pareceu que a intenção dele não era a de derrubá-lo, pois o golpe nem fora tão forte assim, maior foi o susto do velho caçador.

O moleque, por fim, estendeu a mão e retirou um pacote de fumo que estava no bolso de seu Antônio Pedro. Depois disso ele simplesmente desceu da árvore da mesma forma que subiu e se embrenhou na mata. 

Levou um tempo ainda para que seu Antônio Pedro compreendesse o que havia acontecido. Quando, por fim, conseguiu voltar a si e descer também da árvore, seu Antônio Pedro buscou pelas pegadas do moleque e percebeu que os rastros no tronco tinham o sentido contrário às pegadas normais. “Isso é coisa do Caipora”, disse ele.

FONTE:

https://apanaceiaessencial.blogspot.com.br/2011/03/caiporacurupira.html

https://books.google.com.br/books?id=R7FcBAAAQBAJ&pg=PT10&lpg=PT10&dq=versão+feminina+do+caipora&source=bl&ots=p0fJuyeOqZ&sig=pYUUDGjE_Oxr9uW1zoNh9aws-bM&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwji9Lue3sDWAhVE7SYKHe-AAhwQ6AEIYzAO#v=onepage&q=vers%C3%A3o%20feminina%20do%20caipora&f=false

https://folclorando.wordpress.com/2015/01/14/qual-a-diferenca-entre-caipora-e-curupira/

https://folclorando.wordpress.com/2015/01/14/a-crenca-dos-curupiras/

http://sitededicas.ne10.uol.com.br/folk_curupira.htm

http://leiturartes.com.br/a-lenda-do-caipora-ou-curupira

https://www.suapesquisa.com/folclorebrasileiro/lenda_caipora.htm

http://www.meionorte.com/blogs/danielcristovao/a-lenda-da-caipora-79488

http://objetivoteresina.com.br/blog/coluna/663/o-folclore-piauiense-lendas-crenas-e-costumes

http://www.onordeste.com/portal/caipora/

https://www.folcloreolimpia.com.br/pagina/mitos-e-lendas/124

http://ongprojetocurupira.blogspot.com.br/p/lendas-brasileiras-folclore.html

SOARES, Antonio. A ESPERA. Disponível em: <https://www.facebook.com/groups/185851718227175/permalink/343453379133674/>. Acesso em 25 set. 2017.

TEXTO: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

ILUSTRAÇÃO: DOUGLAS VIANA

CONTO “A ESPERA” DE ANTONIO SOARES

 

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