JOÃO CARTOMANTE, O SANTO DE COCAL, E O MALVADÃO DE PIRACURUCA

(Cocal – Piauí; Piracuruca – Piauí; Parnaíba – Piauí)

joao cartomante

João Cartomante era um dos apelidos que era utilizado por João Francisco Arruda, que também era conhecido como João Baiano. Era ele caixeiro viajante da cidade de Sobral, estado do Ceará, um tipo de comerciante ambulante que vendia jóias, bijouterias, talcos, perfumes, cremes e outros.

Em uma de suas viagens, chegando a estação de  Cocal, o vagão do trem em que andava foi invadido por policiais que procuravam por uma ladra de jóias que viajavam no mesmo trem. Ao que se conta, as jóias pertenciam a um homem muito rico, importante líder político da cidade de Piracururca. A procurada, era exatamente uma mulher negra que estava sentada ao lado de João. No momento da prisão, a mulher balbuciou algumas palavras com os policiais dizendo ser inocente e que o verdadeiro culpado seria o homem que viajava ao seu lado, ou seja, João, informando que não possuía jóia alguma e que o rapaz era quem as havia escondido. Os policiais procuraram pelas jóias em suas coisas, mas nada encontraram. Mesmo assim, terminaram por levá-la à Delegacia de Polícia de Cocal.

Após ser interrogada  insistentemente, a mulher, conhecida como Maria Fninha, disse às autoridades policiais que João era seu parceiro e que era ele quem tinha ficado com as jóias em sua bagagem, tendo seguido viagem rumo à cidade de Parnaíba. A polícia de Cocal transmitiu, via código morse, uma mensagem informando que João Cartomante era o responsável pelo roubo, de modo que deveria ser preso rapidamente.

Assim, quando a velha Maria Fumaça chegou à estação ferroviária de Parnaíba, o homem foi imediatamente detido por policiais de modo que, sendo preso, ao ouvir as acusações, gritava que era inocente. Afirmava que mal conhecia Maria Fininha e que se ela tinha acusado a ele, era porque esperava, com isso, livrar-se.

Apesar dos protestos, João Cartomante foi levado para a cidade de Cocal, onde, ao chegar, foi jogado para fora como se fosse um animal. Em um verdadeira via crucis, foi arrastado pelas ruas, sendo humilhado pelo povo,  além de receber inúmeras pancadas dos policiais sob o comando do delegado da cidade, Dr. Homero.

Mesmo negando o crime, João era acusado de roubar jóias de um homem muito importante e poderoso, que queria, a qualquer custo, suas jóias de volta. Assim, João foi torturado por dias a fio, tendo apanhado de chicote, cabo de aço, palmatória e tendo sido obrigado a ingerir óleo de rícino, tudo na tentativa de forçar uma confissão.

É como diz Zé Ramalho: “… na tortura, toda carne se trai”. De tanto ser judiado, João acabou confessando a autoria do delito, em um ato desesperado para ver se conseguia amenizar os castigos que lhe infligiam os soldados.

Isso, contudo, só fez piorar a sua situação. Apanhou ainda mais, tanto que acabou por indicar o lugar onde as jóias estariam enterradas. Mas quando a polícia ia ao lugar indicado procurar,  nada encontrava. Faziam-no cavar o chão onde estariam enterradas as jóias, e mesmo assim nada. Assim, continuavam as sessões de tortura, motivo pelo qual, dia após dia, indicava novos locais onde as jóias pudessem estar. Acreditava ele que prolongando o seu sofrimento, fazendo os policiais procurarem mais, poderia ser que aparecessem as jóias e o verdadeiro culpado, de modo que, com isso adiava sempre  sua morte na esperança de que lhe deixassem livre e em paz.

Como as jóias não apareciam, enquanto estava recolhido na Delegacia não o alimentavam, nem lhe forneciam água. Os castigos continuavam ao ponto de terem extraído suas unhas com alicates, queimarem seus testículos com gasolina e suas costas com pontas de cigarro. Como não lhe davam de beber, João se via obrigado a ingerir sua própria urina. Um dia, seu corpo foi amarrado e arrastado por animais através da zona rural da cidade de Cocal, em razão de mais uma vã procura pelas jóias. A tortura era tamanha que seus gritos ecoavam pela madrugada, sendo ouvidos por toda a cidade de Cocal.

Um dia, algumas pessoas de Cocal, entre eles José da Cunha Frota, Vladimir Lopes e outros foram ao comando em Parnaíba denunciar o que estava acontecendo na cidade de Cocal, apontando as torturas a que estava sendo submetido o prisioneiro. Assim, exigiram que o prisioneiro fosse entregue às autoridades policiais da cidade de Parnaíba.

O delegado Homero, de Cocal, junto com o soldado Raimundo, levou o prisioneiro em um jipe de propriedade de Joaquim Vieira de Brito,, prefeito da cidade na época. Todavia, logo que saíram da zona urbana da cidade, temendo que João os denunciasse, deram nele uma surra tão grande que o prisioneiro não chegou com vida em Parnaíba, falecendo no Km 16, onde fica a Baixa da Carnaúba.

 

Sabendo os policiais da morte de João e tendo sido intimados a levá-lo a Parnaíba, mesmo depois do homem morto, resolveram continuar a viagem, de modo que chegando à delegacia em Parnaíba, sentaram seu cadáver de forma ereta em uma cadeira e cobriram sua cabeça com um chapéu, para que não descobrissem que estava morto. Só bem depois, quando as autoridades policiais de Parnaíba resolveram interrogar o réu é que descobriram que ele estava morto, ocasião em que os policiais assassinos já se encontravam longe dali. Seu corpo foi sepultado no Cemitério dos Campos, na Avenida Tabajara, em Parnaíba, longe de parentes e amigos.

Dias depois é que se descobriu a verdade. Maria Fininha, sozinha, é quem havia roubado as jóias, quando trabalhava como doméstica na casa do rico proprietário de Piracuruca. Em seu depoimento confessou que João Cartomante era inocente e que havia entregue as jóias a uma mulher de nome Nenem Pavão, que recolheu sua bagagem na cidade de Parnaíba.

Maria Fininha, contudo, só confessou depois de ser violentamente torturada pela polícia de Cocal, que queimou grande parte de seu corpo, tendo ela sido levada para a Santa Casa de Misericórdia da cidade de Parnaíba para tratar os ferimentos. Sabendo o que a aguardava ao ter alta do hospital, logo que sentiu uma melhora pulou da janela do 2° andar e fugiu.

Ficou para sempre na memória do povo de Cocal, a vergonha pelo sangue inocente derramado. Em razão das circunstâncias sofridas de sua morte, e sendo o homem inocente, hoje o povo dali considera João Cartomante uma alma milagrosa. São muitos os que visitam a pequena capela erguida em sua homenagem, onde são depositados ex-votos (partes do corpo de madeira, velas, muletas e litros d’água)  em agradecimento às graças alcançadas em atendimento a preces anteriormente realizadas.

 

A capela em sua homenagem foi construída em Cocal, no lugar em que se diz que os policiais torturaram João Cartomante até a morte e, em sua volta, aos poucos, foi se erguendo um cemitério. Até os dias de hoje, o povo da região jura que João é santo e ainda hoje é intenso o movimento de fiéis em sua devoção.

Já o proprietário das jóias se tornou uma lenda à parte. O povo diz, talvez por ter incitado a polícia a perseguir um inocente, que o homem era uma pessoa muito ruim. Além das torturas que teria mandado infligir a João e a Maria Fininha, haveriam outros episódios, no dizer da oralidade popular, que demonstram o quanto era cheio de maldade: dizem que ele era extremamente racista, de modo que odiava negros, além de que era muito ruim com os pobres, sendo que qualquer um que lhe pedisse ajuda, não importando a cor, seria enxotado de sua casa violentamente. O povo dá tanto destaque a sua maldade que surgiu uma lenda curiosa lhe envolvendo: contam os mais antigos que, no seu leito de morte, quando estava sob os cuidados de um médico, apareceu, do nada, um homem de terno preto perguntando se o homem já havia morrido, porque queria levá-lo, ocasião em que o médico teria desmaiado, e, em seguida, o homem de terno preto, que dizem ser o próprio diabo, desapareceu, levando junto o morto.

É claro que isso é só lenda. O tal homem não foi levado por ninguém. Ao que consta, era uma respeitável e importante figura política na cidade. Tanto que seu nome acabou batizando um logradouro público em sua cidade, Piracuruca. Se fosse tão ruim assim isso não poderia ter acontecido… Seu corpo, com certeza, jaz hoje em um cemitério daquela cidade. E essa é a verdade… não é?

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FONTE:

PASSOS, João Araújo. Cocal. Panaíba, Piauí: Gráfica Melo. 2007. 181 p.

PASSOS, João. João Cartomante: o milagreiro. Cocal, PI: edição do autor, 2015.

Informações de Evonaldo Andrade

Texto: José Gil Barbosa Terceiro

3 comentários em “JOÃO CARTOMANTE, O SANTO DE COCAL, E O MALVADÃO DE PIRACURUCA

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  1. Porque não citam o nome do ( ilustre ) cidadão de Piracuruca ??? Olegário Machado. Será que a ate hoje esse nome assusta tanto ? Se não podem ou não conseguem falar tudo, procurem mais informações !!!

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