O MOTORISTA GREGÓRIO

(Teresina – Piauí)

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Era um dia especial em Barras. A cidade estava toda enfeitada e o povo em clima de festa. Tudo isso porque era aguardada a visita do  bispo Dom Severino Vieira de Melo, que iria visitar a paróquia naquele dia, 14 de outubro de 1927.  Gregório, dirigindo o Ford T, levava o juiz de Direito José de Arimathéa Tito, o coronel Otávio de Castro Melo e o padre Lindolfo Uchôa para receber o líder religioso na entrada de Barras. Quando passava pela Rua Grande, Manoel Cardoso de Vasconcelos, uma criança com 4 anos de idade, saiu correndo de dentro de casa e cruzou a frente do automóvel, sendo, assim, atropelado. Gregório, o motorista, ainda tentou frear, mas não houve como evitar a tragédia. Como o pneu passou por cima do peito do menino, causando um traumatismo torácico, a criança teve morte imediata.

Gregório Pereira dos Santos, o motorista, não era natural de Barras. Vivia na Paraíba quando, aos 19 anos, foi residir em Barras do Marathaoan (PI) a convite do comerciante Jaime Teodomiro, que tinha ido àquele estado comprar o Ford T. O homem não sabia dirigir e precisava de um motorista. O carro que tinha acabado de adquirir era o primeiro da sua cidade. Assim sendo, iria ter dificuldades para encontrar um motorista em Barras, razão pela qual acabou contratando Gregório para vir ao Piauí e dirigir para ele o carro. Depois de um tempo, o comerciante passou o carro para a Paróquia da cidade, administrada pelo Padre Lindolfo Uchoa, e, com o carro, foi Gregório prestar serviços para a paróquia. Era por isso que o jovem motorista dirigia o carro para buscar o bispo na ocasião do fatídico acidente.

A população da cidade compreendeu que aquilo tinha sido uma tragédia provocada pelo acaso e todos tinham certeza que o motorista não tinha condições de evitar o ocorrido. Manoel, a criança morta, era, contudo, filho de Florentino Cardoso inspetor de veículos e delegado da cidade. Florentino, ao tomar conhecimento do que acontecera ao filho, prendeu Gregório e o deixou sem água e sem comida por três longos dias. O delegado era afamado por efetuar prisões arbitrárias e infligir torturas cruéis aos presos. Mas para Gregório ele pretendia um tratamento especial. Afinal, havia tirado a vida de seu jovem infante. O juiz, José de Arimatheia Tito, testemunha ocular do acidente (pois estava dentro do veículo), sabendo que o motorista não tinha culpa pelo ocorrido, ainda expediu uma ordem de Habeas Corpus para imediata liberação de Gregório.

O delegado prometeu cumprir a ordem mas, ao invés disso, resolveu conduzir o preso para Teresina. Florentino ordenou que um homem de nome João Fernandes, apelidado Peba, guiasse um caminhão até a capital levando a bordo Guiomar (esposa do delegado), o caixão com o corpo do menino atropelado, o delegado, dois soldados e todos os pertences da família. Gregório viajou na boleia, acorrentado pelo pescoço, sempre sem comer e sem beber.

Motorista gregório 02

Como a estrada na época era muito ruim, a viagem demorou a noite toda. Gregório implorava por água e comida o tempo inteiro. Os dias que passou na cela sem comer e sem beber haviam lhe castigado bastante. Estava fraco, desnutrido e sedento. Quando o caminhão chegou em uma ribanceira próxima do porto do Porenquanto, em Teresina, foi necessário que descarregassem toda a carga (inclusive o caixão do menino) e que todos descessem do veículo, para que João Peba pudesse atravessar tão íngreme trecho da estrada. O delegado mandou que acorrentassem Gregório a uma árvore do outro lado do rio durante esse tempo, para onde também foi com os demais. Dali, o jovem motorista, tão necessitado de água, podia ver as águas do Rio Poty. Implorava o tempo inteiro por um pouco de água.

Naquele momento, o delegado enfurecido com as lamúrias do rapaz, vendo o caixão do filho no chão, não contou conversa. Sacou do coldre sua Parabélum e efetuou um tiro fata na cabeça de Gregório. O laudo do exame cadavérico, aponta, além da causa mortis, os sinais das torturas infligidas ao jovem motorista ao longo dos dias em que esteve sob a guarda do delegado:

Aos 17 do mês de outubro de 1927, procedeu o Perito Médico Legista, Doutor Benjamim de Moura Baptista, o exame no cadáver de José Gregório, ao cabo do qual respondeu que houve lesões corporais produzidas por cordas nos punhos, chicotadas no rosto e nas costas e marcas de corrente no pescoço, tendo sido empregado meio cruel e tortura. Informa que a vítima apresentou ventre escavado e costelas à mostra e uma perfuração produzida por arma de fogo no ouvido direito, que produziu morte instantânea (BARROS, 2008, p. 174)

Motorista gregório 01

A certidão de óbito do Motorista Gregório, registrada no livro nº. 18 do 1º cartório de registro civil da cidade de Teresina (PI), também aponta como causa da morte o ferimento de arma na região da cabeça:

Aos dezoito dias do mês de outubro de mil novecentos de vinte e sete, nesta cidade de Theresina capital do Piahuy em meu cartório compareceu o senhor Antonio José de Sousa, com um atestado do doutor Benjamim de Moura Baptista declarou o seguinte: que faleceu hoje, as sete horas, victima de ferimento por arma de fogo na região cerebral o chauffeurt de nome José Gregório, de vinte anos de idade, presumíveis, piauhyense, morador na cidade de Barras; cujo corpo vae ser sepultado no cemitério público. E para constar eu, Antonio Pereira Vieira, official do registro cível lavrar este termo que comigo assina o declarante.

Tudo ocorreu perante os olhos de testemunhas atônitas, populares humildes que habitavam aquela região e que nada podiam fazer para impedir o martírio  de Gregório. A história logo se espalhou e, pela oralidade, tomou as mais diferentes versões, todas destacando o suplício do rapaz e a injustiça cometida, de modo que foram disseminadas pela imprensa, o que causou indignação na sociedade piauiense como um todo.

Após o assassinato, Florentino Cardoso se dirigiu ao Quartel de Polícia e se entregou ao
comandante, o major Delfino Vaz de Araújo, que imediatamente o prendeu. Com o inquérito instaurado, foi levado para a penitenciária do Campo de Mártires, onde permaneceu em regime semi-aberto. Na prisão, o homem tinha muitas facilidades, de modo que podia circular livremente, de modo que, em pouco tempo, acabou fugindo. Há suspeitas de que teria recebido o auxílio de outros policiais na fuga.

Só foi encontrado oito anos depois, em Salvador, capital da Bahia, sendo reconduzido para Teresina para julgamento. No primeiro julgamento, realizado em 21 de agosto de 1935, o delegado foi condenado a 19 anos e três meses de reclusão. A defesa recorreu e, em segunda instância, foi absolvido por unanimidade por ter sido considerado perturbado dos sentidos no momento do delito. Num terceiro e último julgamento, motivado por recurso da acusação, o delegado foi considerado, mais uma vez, inocente, sendo absolvido da acusação.

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Florentino fixou residência em Crateús, Ceará, onde viveu o resto de seus dias obtendo o sustento por meio de bicos no setor da construção civil. Nunca se arrependeu de seu crime. Dizia ter transformado um pecador em santo.

Ele não estava errado. Devido à morte sofrida, o povo de Teresina e de todo o Piauí logo passou a ver Gregório como um mártir milagroso. O lugar da morte de Gregório, à época, não era tão urbanizado quanto o é hoje. Não existia ainda a Avenida Marechal Castelo gregorioBranco, que, em dias atuais, beira o lugar da tragédia. Ela só foi construída  na gestão de Joel da Silva Ribeiro como prefeito de Teresina (1971-1975). Todavia, a falta de estrutura e as dificuldades de acesso não impediam a visitação. Pouco depois do assassínio de Gregório, populares, acreditando-o santo, passaram a visitar constantemente o lugar. Iam em busca de auxílio, fazendo preces e promessas, de modo que quando tinham seus pedidos satisfeitos, voltavam ao lugar para agradecer à alma do motorista que, dizem, faz milagres.

 Em 1983, na gestão do prefeito Freitas Neto, a Prefeitura de Teresina construiu um monumento em homenagem a Gregório no lugar de sua morte. Seu formato é o de uma gota d’água, lembrando a todos a sede que o motorista passou antes de morrer. Ali, ainda hoje,  os devotos se reúnem para colocarem ex-votos, rezarem, acenderem velas, conversarem, enfim, um espaço para agradecer e pedir ajuda.

 

Além do monumento, os devotos de Gregório costumam exercer sua fé em outros lugares que o imaginário popular associou à morte do rapaz: a) A árvore do martírio – é a árvore em que Gregório ficou amarrado até o momento de sua execução. Ali, fiéis depositam pedidos e deixam ex-votos como agradecimentos. Várias placas com agradecimentos são colocadas no tronco da mesma e o povo acredita que a casca de seu tronco possui capacidades curativas; b) A cruz da Avenida Frei Serafim – Embora a cruz date da época da construção da Igreja São Benedito, nos primeiros anos de Teresina, alguns fiéis associam o local como sendo o lugar onde Gregório morreu, de modo que ali depositam garrafas d’água, velas, ex-votos e efetuam orações, em homenagem ao motorista; c) O túmulo de Gregório – o lugar onde estão sepultados os restos mortais do jovem motorista morto é um dos túmulos mais visitados do Cemitério São José, em Teresina. Além de garrafas d’água, também é comum encontrar esculturas de madeira, bilhetes e outros tipos de ex-votos no túmulo.

A fé dos piauienses no motorista é tamanha, e tantos são os milagres que dizem que realizou, que há alguns anos, desde os anos 1980, fiéis piauienses têm se mobilizado pela canonização do motorista junto ao Vaticano com a ajuda da imprensa, da sociedade civil organizada, de políticos e de membros do clero no Piauí. São vários os que já se mobilizaram nesse sentido e também os que continuam se mobilizando. Enquanto isso, para muitos piauienses, Gregório já é santo, com ou sem o aval da igreja.

FONTE:

BARROS, Eneas. Parabelum. Teresina: Nova Aliança, 2013.

http://finadogregorio.blogspot.com.br/p/locais-de-culto.html

http://finadogregorio.blogspot.com.br/p/sobre-gregorio.html

http://www.tribunadebarras.com/2009/10/motorista-gregorio-martir-ou-santo.html

https://piauinauta.blogspot.com.br/2008/10/o-motorista-gregrio.html

https://revistas.unasp.edu.br/actacientifica/article/view/387/391

http://tede.metodista.br/jspui/bitstream/tede/615/1/IURY%20PARENTE.pdf

http://g1.globo.com/pi/piaui/noticia/2013/11/motorista-gregorio-dos-santos-pode-ser-tornar-o-primeiro-santo-piauiense.html

https://cidadeverde.com/noticias/99841/finado-gregorio-fe-e-devocao-em-85-anos-de-historia-do-motorista

http://180graus.com/cultura/a-historia-do-motorista-gregorio-vira-o-livro-parabelum-10244.html

http://www.razonypalabra.org.mx/N/N77-1/22_Aragao_M77-1.pdf

 

TEXTO: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

FOTOS: RAFAEL NOLÊTO

 

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