O NICHO DE N. SRA. DO PERPÉTUO SOCORRO DO DESERTO E A CRUZ DOS REVOLTOSOS

(Valença do Piauí – Piauí)

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Coluna Prestes foi um movimento político-militar brasileiro existente entre 1925 e 1927 e ligado ao tenentismo de insatisfação com a República Velha, exigência do voto secreto, defesa do ensino público e a obrigatoriedade do ensino primário para toda a população.

O movimento contou com lideranças das mais diversas correntes políticas, mas sua maior parte era composta por capitães e tenentes da classe média, originando-se daí o ideal do “Soldado Cidadão”.

Deslocou-se pelo interior do país pregando reformas políticas e sociais e combatendo o governo do então presidente Artur Bernardes e, posteriormente, de Washington Luís. Em sua marcha pelo Brasil, os integrantes da Coluna Prestes denunciavam a pobreza da população e a exploração das camadas mais pobres pelos líderes políticos.

Sob o comando principal de Luís Carlos Prestes (chefe de estado-maior), a Coluna Prestes enfrentou as tropas regulares do Exército ao lado de forças policiais de vários estados, além de tropas de jagunços, estimulados por promessas oficiais de anistia.

Apesar das boas intenções, muita gente da época morria de medo deles, pois tinham por costume “desapropriar” bens, animais e mantimentos onde chegavam com o fim de patrocinar sua causa. Assim, muitas vezes, a própria gente que diziam defender os temia e/ou os enfrentava.

Estiveram no Piauí por duas ocasiões, nos anos de 1925 e 1926, ocupando várias cidades piauienses, como Floriano, Bocaina, Picos, Altos, Amarante, Pedro II, Oeiras, etc. Em Teresina, a coluna efetuou um cerco no ano de 1925, mas foram combatidos e acabaram derrotados e rechaçados, enquanto Juarez Távora, um dos cabeças do movimento, foi preso no Piauí.

No ano de 1926, estiveram em Valença. O povo da cidade já tinha ouvido falar da terrível batalha que ocorreu na capital no ano anterior. Todos tinham medo dos “revoltosos”. Alguns diziam que eram comunistas que comiam criancinhas. Era até mesmo uma técnica do governo para fazer com que os membros da Coluna não tivessem apoio popular, espalhar o terror através dessas informações. Além de dizerem que saqueavam e roubavam (o nome que o governo dava às “desapropriações”).

Exemplo típico desse temor que o povo tinha, extraído do livro “Coluna Prestes: O Avesso da Lenda” da jornalista Eliane Brum, é o relato de Joana, valenciana que vivenciou ali os dias da passagem da Coluna na cidade: “Eu tinha um medo que me pelava. Era um povo esquisito. Invadiam, prendiam os donos, matavam a criação e faziam uma bagaceira danada. Era igual àquele povo do cangaço”.

O sertanejo do Piauí não estava se importando muito com a política nacional. Nem se tinha idéia direito do que aqueles homens podiam querer. O pouco que se sabia era através do que o povo dizia em repetição ao que diziam os homens do governo e a imprensa oficial. Assim, temendo aos revoltosos, um grupo de populares em Valença abandonou a cidade, que ficou deserta, e se abrigou no Sítio Juaí. Todos estavam apavorados.

Diante de tanto pavor, o Mestre José Francisco Ferreira suplicou a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que lhes concedesse a graça de que ali não fossem visitados pelos colunistas. Prometeu, então, edificar um oratório a Nossa Senhora Perpétuo Socorro, caso a graça fosse atendida. De fato, os revoltosos nunca foram ali e as famílias ficaram tranquilas, de modo que lá permaneceram cerca de três meses, apesar de a Coluna só ter permanecido na cidade por três dias.

A devoção foi iniciada, primeiro com a reza do terço mariano e visitações cotidianas. A História se espalhou, sobre o milagre acontecido e, em 1958, no dia 28 de junho foi celebrada a 1ª Missa no local, tendo o Pe. Marques batizado o nicho. Desde esse dia, as pessoas acreditam que ali se operou um milagre e, por isso, o  Nicho foi incluso entre os locais de Devoção popular no Estado do Piauí, e ainda permanece de pé, recebendo a visita de aflitos até hoje, que ali fazem preces e promessas, e, em agradecimento aos pleitos atendidos, oram, acendem velas e pagam penitências.

Um outro lugar onde se operam milagres em Valença, também relacionado com a passagem da Coluna Prestes em Valença é a Cruz dos Revoltosos. A cruz está erguida no Bairro Lavanderia, lugar onde, em 25 de janeiro de 1926, houve um sangrento embate entre as tropas do governo provenientes de Pernambuco e os integrantes da coluna, que ficaram ali conhecidos como revoltosos. O que ficou foi a idéia de sacrifício: o sangue derramado de pessoas com nobres ideais em defesa da população carente de nosso país. Ali tombaram dois membros da Coluna, que já estava estruturalmente fraca, de modo que o bairro Lavanderia ficou conhecido como Cemitério dos Revoltosos, e a cruz ali erguida em memória dos revoltosos mortos passou a ser objeto de devoção popular.

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Pela morte sacrificada, o povo Valenciano passou a acreditar que os membros da Coluna que ali tombaram são agora “almas milagrosas”, mártires que, expiados o pecado por sacrifício e/ou sofrimento, ganharam as graças do povo e acredita-se que de Deus, de modo que passaram a operar milagres. Pedidos que o povo efetua e são atendidos, gerando agradecimento e devoção.

Hoje o povo de Valença, dos intelectuais aos nobres sertanejos, reconhecem a nobreza dos valores e ideais que inspiravam os seguidores da Coluna. Sua passagem é comemorada até mesmo em desfiles cívicos de 7 de setembro em dias atuais. De fato, Valença pode ser tida como a cidade em que o patriotismo da coluna é mais vivo no Piauí, de modo que a cidade já recebeu, por duas vezes nos últimos anos a visita de integrantes da família Prestes.

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FONTE:

CASTRO, Francisco. A coluna Prestes no Piauí. Brasília : Senado Federal, Conselho Editorial, 2007.

http://dentedebaleia.blogspot.com.br/2016/06/nicho-nossa-senhora-do-perpetuo-socorro.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/Coluna_Prestes

https://www.cidadenova.org.br/editorial/instiga/literatos/352-uma_historia_bem_contada

http://www.piracuruca.com/index.php/historia/104-o-manifesto-prestes

http://dentedebaleia.blogspot.com.br/2016/04/referencias-turisticas-de-valenca-do.html

http://www.portalvalencanews.com.br/noticia/1902/01%20banner%20conula%2001

https://www.meionorte.com/cidades/pi/valenca-do-piaui/comemoracao-do-desfile-civico-leva-multidao-as-ruas-de-valenca-222826

TEXTO: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

8 comentários em “O NICHO DE N. SRA. DO PERPÉTUO SOCORRO DO DESERTO E A CRUZ DOS REVOLTOSOS

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  1. Parabéns pelo texto e referencia ao blog dentedebaleia.blogspot.com.br na certeza que a história de um povo é grande quando todos são protagonistas. O Blog dentedebaleia.blogspot.com.br também bpode ser visitado e pesquisado, qualquer duvida, sinta-se à vontade. Dona Maria Prestes, segunda esposa do Luis Carlos prestes, já visitou Valença duas vezes, em 2014 e neste ano de 2017.

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      1. Valeu! Terei mais cuidado ainda, aguarde o texto Preta Mão de Onça Come Carne de Criança, vc já conhece? Posso publicar no dentedebaleia?(rsrsrsr) Calma! lá para os meados de novembro, na segunda lua cheia!

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  2. Aguarde a segunda lua cheia do mês de novembro, depois da missa do Terto, a alma milagrosa da cidade. (Terto morreu, a cidade ficou aliviada, mas como levar Terto para o cemitério? O antes e o depois, só na publicação. Agora só o aquecimento!

    Curtido por 1 pessoa

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