O DIA EM QUE OS ZUMBIS INVADIRAM ALTOS

(Altos – Piauí)

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12 de Outubro de 2017. A cidade de Altos vibrava em comemoração aos 95 anos de sua emancipação política. Em um palco montado no calçadão que fica ao lado da igreja de São José e da Praça Cônego Honório se apresentavam, desde as 21 horas. O dia inteiro vários eventos, apesar da crise, tinham ocorrido pela cidade. O povo esquecia seus problemas e dificuldades diárias (falta de trabalho, saúde, educação…) para se divertir um pouco ao som de bandas consagradas na capital da manga como Gleyfy Brauly, Forró Leal, Toca do Vale, entre outras. No intervalo entre uma banda e outra, a Prefeita e seus fiéis defensores discursavam exaltando os feitos da administração da cidade.

De repente, um grito em meio à multidão. Um grupo de pessoas esmulambadas e caindo aos pedaços invadia a festa. Não se sabia bem de onde vinham, mas começavam a cercar o calçadão onde estavam ocorrendo as festividades. Não estavam ali, contudo, para se divertir. Atacavam os pacatos cidadãos da pequena cidade de Altos às dentadas arrancando nacos de carne das pessoas. Essas, logo que eram mordidas se transformavam em um zumbi assim como eles. Não havia outra palavra para descrever tais figuras que, de fato, lembravam personagens dos antigos filmes de terror de George Romero. A transformação era rápida e os transformados logo mordiam outros que também se transformavam.

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O pânico era geral, mas não havia para onde correr. Seguranças privados, tão logo perceberam que havia algo errado, apressaram-se em descer a prefeita do palco, junto com seu esposo e meia dúzia de puxa-sacos. Formaram um cordão de isolamento e conseguiram levá-los até carros estrategicamente colocados atrás do palco. Era um plano de fuga de contingência. A prefeita e seu marido tinham muitos inimigos. A administração não era tão boa quanto parecia. Isso sem falar que o marido da prefeita tinha um time de futebol e isso bem podia ser coisa de torcidas organizadas de times rivais. Quando se preparavam para entrar no carro, contudo, foram atacados e devorados pelo que acreditavam ser uma turba enfurecida. Antes de perder os sentidos, a chefe do Executivo pôde perceber, entre os que a atacavam, jogadores do Jacaré (time de seu esposo) e alguns radialistas e jornalistas que lhe apoiavam em troca do financiamento governamental. Ela morreu se perguntando porque estariam fazendo aquilo com ela, afinal, ao contrário do que ocorria com os servidores públicos,  o pagamento deles estava em dias.

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Enquanto isso, o povo corria sem rumo. Uns pra um lado, outros para outro. Mas não havia para onde ir. Parecia que nenhum lugar era seguro. Os zumbis estavam em tudo que era parte. No palco, integrantes da banda que então se apresentava eram devorados por seus próprios fãs. Eu tinha que sair dali. Procurar um lugar seguro. Mas onde? Qual?
Foi então que me lembrei do único lugar da cidade que ninguém frequentava: A biblioteca. Àquela hora da noite, as portas estavam trancadas, mas se eu conseguisse forçá-las, com certeza estaria seguro lá. Os zumbis nunca procurariam uma presa ali dentro, afinal ninguém ia ali nem de dia, quanto mais à noite.

Como por milagre, consegui chegar ali e com um chute desesperado arrombei a porta de vidro. Não haviam grandes danos. Apenas umas vidraças e a fechadura estavam quebradas. Entrei rapidamente antes que me notassem e encostei a porta para que todos pensassem que ainda estava trancada. Por sorte a porta interna, feita de madeira, que leva à sala onde ficam os livros, estava apenas encostada. A funcionária havia esquecido de trancar. Provavelmente pensara que ninguém se interessaria em roubar livros que nem mesmo durante o dia eram procurados. Notei a chave pelo lado de dentro da porta e rapidamente tranquei-a. Corri para os fundos do vão em que ficam os livros e ali me escondi entre estantes e prateleiras. Estava eu com muito medo. Lá fora os gritos mais horrendos que eu jamais pensei ouvir ecoavam por todos os lados, enquanto meus concidadãos eram rasgados vivos, se tornando bestas assassinas e antropófagas.

Peguei meu celular no bolso e procurei por notícias na internet que pudessem me dar uma luz sobre o que estava ocorrendo. O Piauí inteiro já estava sabendo do ocorrido. Afinal era o aniversário da cidade e parece que de algum modo alguns jornalistas da capital que cobriam o evento conseguiram se pôr a salvo e transmitiam ao vivo as imagens da tragédia para a TV local. Logo, as imagens estavam também sendo exibidas para todo o Brasil, através da emissora a qual era afiliada, exibindo as imagens de terror real para olhos descrentes no Brasil e no mundo. Pela internet ecoavam teorias diversas. Uns diziam ser o fim do mundo, outros que era castigo de Deus. Mas a mais plausível me pareceu ser aquela com a qual cientistas piauienses concordavam: o lixão, construído na zona rural entre Altos e a capital, havia contaminado o lençol freático da cidade. Ali havia de tudo, restos animais em decomposição, lixo hospitalar, medicamentos vencidos, restos de alimentos. Aquela mistura de elementos químicos havia chegado ao lençol freático da cidade e como ele passa por baixo do cemitério da cidade, havia, ao longo de alguns anos, desenvolvido uma mistura capaz de despertar os mortos dali. Alguns acreditavam que os próprios restos humanos em decomposição, corpos de pessoas expostas a radiação e elementos químicos para tratamento de câncer e outras doenças, haveriam adicionado ingredientes químico-radiativos a mais para a mistura que contaminava as águas que percorrem o subsolo da cidade. Uma outra teoria que chamou bastante atenção foi a de que poderia ser que tais criaturas fossem fruto de um novo tipo de droga que havia chegado à cidade. O certo é que ninguém sabia direito o que era. Eu mesmo fiquei ali teorizando o que poderia ter causado aquilo, mas não conseguia pensar direito. Meu raciocínio era a todo tempo cortado por horripilantes gritos de desespero que ecoavam noite afora.

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Eu só conseguia pensar nos meus parentes, amigos e conhecidos. Como Estariam? Meu nervosismo era tamanho que me vi esgotado física e mentalmente. Em meus últimos pensamentos lembro de ter pedido a Deus e a São José para me proteger do mal que percorria as ruas. Eu nem sou muito de acreditar em santo, mas nessas horas a gente apela para tudo. Torci para que estivesse tão seguro ali como acreditava estar enquanto minha vista escurecia.

Com o dia claro, uma funcionária da biblioteca me acordou. Eu então lhe perguntei se estavam todos bem. Se o perigo havia acabado. Ela se fez de desentendida. Provavelmente me julgou maluco. Levantei e pelos basculhantes de vidro entreabertos, pude ver que nas ruas a cidade estava normal. Parecia que nada havia acontecido. Foi então que caí em mim. Tudo não havia passado de um sonho. Eu havia ido à biblioteca pesquisar lendas para o meu blog Causos Assustadores do Piauí e havia adormecido por algumas horas. Já era meio dia e a moça tinha que fechar a biblioteca.

Levantei e saí dali e, com meus olhos, vi que a cidade continuava como sempre foi: uma terra de gente pacata correndo atrás de seu sustento diário, enquanto vive explorada por alguns poucos poderosos que se alternam no poder. As pessoas caminhavam pelas ruas e comentavam a festa do aniversário da cidade que só ocorreria no dia seguinte. Era ainda 11 de Outubro e o circo que iria se apresentar às custas do dinheiro público apenas começava a ser montado. Nesse momento, chorei. De alívio, por um lado, confesso, mas também porque fui tomado de imensa tristeza pela realidade da minha terra e da minha gente, o que sinceramente ainda não sei se prefiro às consequências de um apocalipse zumbi.

 

TEXTO: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

ILUSTRAÇÃO: DOUGLAS VIANA

3 comentários em “O DIA EM QUE OS ZUMBIS INVADIRAM ALTOS

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  1. A justificativa para a aparição dos zumbis foi tão boa que nem precisava ter tornado tudo tão realista no final, apresentando o conto como um mero sonho. Se o texto for editado, excluindo-se o aspecto de sonho, teremos uma obra de ficção fantástica bastante satisfatória. A arte não precisa “imitar” a vida coisa nenhuma. E a fundamentação com a contaminação dos lençóis freáticos já é verossimilhante o suficiente. Acredite na fantasia, amigo! Acredite!!!

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  2. No momento que vc citou os filmes do Romero vc conquistou um leitor, isso prova que existe “um algo a mais no seu texto” e é bom escrever historias assim tendo como pano de fundo nossa cidade com suas tristezas e suas glorias, isso é muito melhor do que ficar escrevendo imitando os roteiros de series de tv internacionais que versam sobre apocalipse zumbi, coisa que muito blogueiro faz por ai, mas não vai muito longe, parabéns pela iniciativa.

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