Festa das Almas, os espíritos visitam nosso mundo

(POR RAFAEL NOLETO*. DA VILA PAGÃ PARA O BLOG DOS CAUSOS)

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Valorizar a memória de nossos ancestrais é ser grato por todo o conhecimento deixado por eles, pelas boas lembranças e pela própria história. Para os adeptos de tradições pagãs ou politeístas, o período compreendido entre 30 de outubro e 02 de novembro é uma fase em que o véu entre os mundos dos vivos e dos mortos fica mais tênue. Por esse motivo, em diversas tradições são celebrados festivais que tem como protagonistas os espíritos dos mortos, seja com a intenção de apaziguar as almas inquietas, para celebrar a memória dos antepassados, ou simplesmente para festejar a lembrança e os legados deixados pelos ancestrais que já partiram.

Na Rússia é celebrado o Dziady, no México o dia de los Muertos, nos EUA é massivamente festejado o Halloween, no Brasil o dia de finados já faz parte do calendário de liturgias. Talvez a mais antiga celebração do gênero tenha sido iniciada com os celtas: o Samhain (lê-se “sou-êin”), festival pagão em honra aos espíritos e Deuses do Submundo, quando se comemorava o “ano novo” celta. Todos esses festivais ao redor do mundo têm em comum a celebração da ancestralidade.

Sem título

Na tradição piaga, forma de politeísmo autóctone do Piauí, este período também é celebrado, entre 31 de outubro e 02 de novembro, quando se comemora a Festa das Almas. Na visão piaga, a vida é cíclica e a morte não é oposta à vida, é apenas uma fase da vida. Por isso, esse é um momento de transição importante, um momento de fechamento de ciclos, celebrado entre os oito festivais principais do calendário anual piaga. Na época são realizados ritos tanto para honrar, como também para apaziguar os espíritos que passam por esse mundo nesse período.

Nos altares de diversas tradições pagãs, cada elemento possui seu simbolismo particular, que faz referências aos antepassados dos celebrantes e também ao simbolismo de morte e renascimento espiritual.

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A popularização dessas antigas tradições pagãs deu origem ao que se conhece atualmente como halloween, onde as pessoas se fantasiam e decoram suas casas com temas aterrorizantes, para afastar os maus espíritos. Muito além de uma simples festa, essa época possui profundas raízes históricas e um amplo significado religioso, onde se busca a conexão com a ancestralidade sagrada.

Conexão com a Ancestralidade

guias

Quando falamos em ancestralidade, nos referimos ao legado de todos aqueles que viveram antes de nós: nossos antepassados, sua cultura, seus valores, suas crenças e o conjunto de heranças materiais ou imateriais deixadas por eles. Na visão piaga, consideramos três tipos de ancestralidade: a de sangue, a espiritual e a da terra.

A ancestralidade de sangue envolve seus antepassados diretos, sua família, pai e mãe, seus parentes encarnados e desencarnados. Os laços de sangue são importantes, pois influenciam diretamente em nossa relação com o mundo, em nossa personalidade e na nossa história.
ser de luz

A ancestralidade espiritual envolve seus Guardiões, guias espirituais e os ancestrais que, por algum motivo, se aproximaram de você por afinidade energética. Seus ancestrais espirituais podem ou não ter convivido com você em outras vidas ou em outros planos. A ancestralidade espiritual ajuda a explicar porque, muitas vezes, você sente uma afinidade enorme com uma cultura estrangeira, mesmo sem ter nenhuma ligação de sangue com a mesma.

A ancestralidade da Terra envolve os Guardiões, espíritos e divindades nativas da terra, que viveram no lugar ou que interagem no campo espiritual da região. Pessoas de diferentes ancestralidades sanguíneas ou espirituais, estando em um mesmo local, possuem em comum os ancestrais da terra.

Celebração e Simbolismos

O período de celebração das almas, que vai de 30 de outubro a 02 de novembro, favorece algumas práticas mágicas que ajudam na conexão com nossos antepassados e também com a herança ancestral.

22835596_10214520561988539_35970745_nÉ um período propício para pedir que nos sejam revelados conhecimentos ocultos, sabedorias perdidas com o tempo. Essas revelações podem ocorrer através de transe mediúnico, sonhos, viagens astrais, meditações ou até mesmo por conta da “linguagem das coincidências”.

Práticas comunitárias pagãs recomendadas para a ocasião são procissões com velas e cânticos, com o objetivo de afastar os males para longe da aldeia. Também podem ser confeccionadas máscaras e guirlandas, entoados cânticos, executados rituais de banimento e rituais para despertar a clarividência, práticas com oráculos e limpezas energéticas de pessoas ou ambientes.

22855854_10214520558588454_1765836431_nAlimentos sagrados associados ao festival são os grãos e favas (concentra a energia vital mesmo após a morte da planta), farofas, cogumelos, abóboras, romãs, beterraba, maçãs, gengibre, pipoca, castanhas, massas e vinhos.

Nessa época também é hábito decorar a casa com figuras bizarras, caveiras, máscaras e espantalhos, para assustar os maus espíritos. Também podem ser acesas velas ou tochas, com o objetivo de iluminar o caminho das almas perdidas.

Divindades que regem essa época

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A estes simbolismos de morte e renascimento estão associadas diversas divindades, com distintas origens. A seguir, vejamos algumas divindades e personagens mitológicos relacionadas à morte, ao submundo e à ancestralidade.

Mitologia Brasileira

– Luison (da mitologia guarani, criatura semelhante a um macaco de olhos vermelhos, com barbatanas de peixe e um enorme falo, detentora do poder sobre a morte); Anhangá e Ticê; Sumé.

–  Zumbi-do-Caboclo (arquétipo associado ao espírito ancestral de um pajé, que vaga pelas florestas), Velha-do-Peito-Só.

– Tranca Rua das Almas, Pomba giras, Léguas, Pretos-velhos.

Mitologias Estrangeiras:

[Mitologia Romana] Prosérpina, Plutão, Leto, Lares, Mercúrio, Naemia (Deusa dos funerais), Libitina, Manes.

[Mitologia Celta] Macha (Dama Branca), Morrigan, Banshee (Irlanda).

[Mitologia Nórdica] Eir (Deusa da ressurreição), Hela (Deusa dos mortos).

[Mitologia Eslava] Deus Flins, Morana, Zemyna (lituana), Veles e Perklenc.

[Mitologia Egípcia] Geb (da terra e da morte), Osíris, Deusa Ament, Anúbis.

[Mitologia Africana] Nanã (iorubá), Egungun (Ancestral).

[Mitologia Hindu] Yama (Deus da morte), Durga, Kali.

[Mitologia Grega] Perséfone e Hades, Tânatos, Hécate, Caronte.

[Mitologia Caribeña] Maman Brigitte; Barão La Croix, Barão Cimetière e Barão Samedi.

[Mitologia do Oriente Médio] Ereshkigal (sumeriana), Husbishag (suméria), Nergal (sumério), Ahrimán (persa).

[Mitologia do Pacífico] Hine-Nui-Te-Po (Deusa polinésia/maori da morte).

[Mitologia Ameríndia] Chalmecacihuilt (Deus asteca do submundo); Coatlicue (Deusa asteca); Tezcatlipoca (Deus asteca da morte); Ah Puch (Deus maia da morte); Cizin (Maia).

[Mitologia Ibérica] Atégina (Deusa lusitana do renascimento).

[Mitologia do Extremo Oriente] Dizang (地藏菩薩) Deus chinês que salva da morte, Yanluo (Deus chinês da morte).

[Mitologia Inuit] Pana (Deusa das almas), Tupilak (rege toda a parte oculta ou desconhecida do universo).

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* Rafael Nolêto é jornalista, bruxo piauiense, sacerdote do Paganismo Piaga e idealizador da Vila Pagã, em José de Freitas.

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