A MULA SEM CABEÇA

(Altos – Piauí)
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Era o fim dos anos 1980. Na época, eu devia ter uns nove anos de idade. Estávamos, além de mim, Pinto e Antonio Carlos brincando na pracinha da independência em Altos. Jogávamos peteca (em outras regiões do Brasil chamada de bolinha de gude) e andávamos de bicicleta. Já eram mais de nove horas da noite. Já era tarde. Nossos pais geralmente não nos deixavam ficar até aquela hora. Éramos todos vizinhos e morávamos ali pertinho.
Encerrada a partida, Pinto nos desafiou para uma corrida até em casa. “Quem chegar por último é a mulher do padre”, disse. Eu não sabia o que ele queria dizer com aquilo, mas eu é que não queria ser mulher de padre nenhum. Primeiro, porque eu era homem, um menino, e, como a maioria dos meninos, me sentia atraído por meninas. Segundo porque eu nem sequer podia imaginar o padre tendo alguma coisa comigo. Nem em pesadelo. Deus me livre daquilo. Montei na minha bicicleta BMX e corri desesperadamente.
Pra minha vergonha, eu fui o último a chegar no lugar combinado para ponto de chegada da corrida. Já em frente de casa, os meninos começaram a me zoar, me chamando de mulher do padre. Nesse momento, minha mãe abre a porta e pede que eu entre. Eu já tinha sido tão zoado que nem sequer consigo olhar minha mãe nos olhos. Envergonhado, entro em casa cabisbaixo.
– Que foi? – perguntou-me mamãe.
– Esses meninos me chamando de mulher do padre. Eu não quero ser mulher de padre nenhum… eu nem sabia que padre tinha mulher! De onde diacho eles tiraram isso?
Minha mãe mal podia disfarçar o riso. Ela achara graça no que eu havia dito, mas eu já estava chateado demais com aquilo tudo que mamãe se conteve para não piorar meu estado de Espírito. Então ela me disse:
– É por isso mesmo que eles falam assim filho… Normalmente os padres não podem manter relação alguma com mulheres. São homens santos, escolhidos a dedo por Deus para atender ao chamado da vocação ao sacerdócio. Mulher nenhuma pode triscar um dedinho que seja num padre. É um pecado mortal. Uma abominação aos olhos de Deus…
– E o que acontece se alguma mulher namorar um padre?
– Meu filho não queira nem saber… Dizem que a coitada vira mula sem cabeça e sai correndo pela escuridão da noite assombrando o povo, soltando fogo por onde devia estar a cabeça…
– Deus me livre! Quero ser isso não…
– Mas esse não é o único jeito de virar essa figura do cão: há muito tempo atrás dizem que havia uma rainha que toda noite saía nas pontas dos pés do castelo. O rei, estranhando o comportamento da mulher, já acreditava que ela estava a se encontrar com algum amante e, por isso, resolveu segui-la. Caminhou atrás da mulher até ver que ela entrou em um cemitério. O rei era muito medroso e demorou a criar coragem de entrar. Mas ele tinha que descobrir. Fez o sinal da cruz e entrou procurando pela mulher em meio às tumbas na escuridão da noite. Eu já te disse que o rei era medroso né? Pois bem, ele já estava quase desistindo, pensando em ir embora, quando viu ao longe o vulto da esposa. Se aproximou sem que ela percebesse e pôde ver algo que seus olhos nunca vão esquecer. A rainha havia escavado a terra, de onde tirou o cadáver de uma criança morta há poucos dias, e estava ela ali sabe fazendo o que?
– O que?
– Comendo a pobre criança, arrancando nacos da sua carne a dentadas… Parecia uma desvairada… Ao perceber a presença do rei, ficou tão envergonhada que saiu correndo dali. Em meio a sua correria, se transformou em uma mula sem cabeça… seu pecado não podia ficar sem castigo né? Pois ela se transformou na figura e saiu dali num galope apressado e nunca mais foi vista…
– Ainda bem que a gente não conhece ninguém que come gente né?
– Eu não sei! O rei não sabia que a própria mulher fazia isso… Nunca desconfiou… Quem dirá eu ´saber da vida alheia…
– É mesmo… Será que tem mula sem cabeça aqui na nossa cidade?
– Aí eu não sei! Mas tem gente que diz que também vira mula sem cabeça mulher moça que perde a virgindade antes de casar…
– M-mãe! Hoje de tarde eu vi a Dona Raimunda, nossa vizinha, brigando com a Fernanda, filha dela porque ela tinha perdido a virgindade…
– E foi? Eita que amanhã na rua eu vou contar pra Maria essa conversa…
– Mas mãe, e se ela virar mula sem cabeça?
– Calma filho! Isso é só coisa que o povo inventa…
– Coitada da Fernanda, tão bonita, vai virar mula sem cabeça… E se ela vier me pegar? Será que a gente não pode ajudar ela a achar a virgindade dela pra ela não virar?
– Menino, virgindade é uma coisa que depois que a mulher perde não dá pra recuperar mais não…
– Porquê?
– Porque não! Agora para de me perguntar besteira e vai dormir…
– Mas se ela vier atrás de mim o que eu faço?
– Aí você fura ela com um alfinete virgem ou puxa o freio de ferro que ela traz no pescoço… Se conseguir um desses feitos a maldição é quebrada e ela volta à forma humana… Agora passe! Vá dormir…
– Mas…
– Mas nada… vá logo dormir!
Quando a mãe da gente fala, a melhor opção é obedecer. Foi assim que me ensinaram e foi assim que aprendi. Jamais tive coragem de questionar uma ordem direta da minha mãe. Fui deitar, enquanto os adultos, ela e papai, ainda ficaram mais um pouco na sala vendo Televisão.
Já era umas onze e meia quando eles foram deitar. Em pouco tempo, eu ouvia do meu quarto eles roncando e ressonando. Obviamente, depois de uma história daquelas, eu não consegui dormir nem um minuto. Passei a noite toda rolando na cama…
Lá pelas tantas, nem sei bem dizer que horas eram, ouvi o portão do terraço em frente à nossa casa se abrir… Mamãe quase nunca o trancava. O normal era apenas encostar. Não havia tanto perigo, a cidade era tranquila, ela dizia… Mas agora tinha uma mula sem cabeça solta pela cidade… Eu devia ter lembrado ela para trancar… Agora era tarde… Do lado de fora, uma barulheira dos infernos. Parecia uns vidros arrastados no chão… Sei lá! Só podia ser ela, a mula sem cabeça… quem mais ia fazer aquela zuadeira, de sons tão esquisitos, àquela hora…
De repente, escutei um relincho que parecia saído do inferno… Ela percebeu que ouvi na hora que a mãe dela brigava com ela por ter perdido a virgindade e, para guardar o segredo, ela tava vindo me pegar… só podia ser isso! E eu nem sabia o que diacho era virgindade… Porque ela não me deixava em paz?
Então ouvi uns sons que me pareceram pisadas de casco de cavalo… Ela tava bem no pé da minha janela , do lado de fora… logo estaria no meu quarto. Não aguentei! Pulei da cama e saí correndo gritando pela mamãe. Quando meus pais caíram em si da minha gritaria eu já estava na cama deles, escondido debaixo do cobertor.
Papai ainda brigou comigo, perguntando o que eu tinha visto pra gritar daquele jeito. Eu apontei pro lado de fora da casa e disse:
– A-a Mu-mu-mu…
– Que mu-mu-mu o que? – indagou papai – fala logo.
– A mula sem cabeça… tá vindo me pegar…
– Deixa de besteira que mula sem cabeça não existe…
– Existe sim… então o que tá aí do lado de fora?
– Não tem nada do lado de fora, oras…
A fala do meu pai foi cortada pela zuada da torneira em frente à casa jorrando água… Alguém havia aberto a torneira…
– Oí tá vendo? É ela…
Todos ficamos arrepiados. Até meu pai que não era de acreditar nessas coisas, parecia estar com medo. Abrimos a janela e do lado de fora vimos uma cena que jamais iremos esquecer:
– É só o Antonio do Litro com uma sacola de estopa cheia de casco de garrafa, banhando pelado na torneira do nosso quintal.
Antonio do Litro era um homem portador de deficiência mental que andava pelas ruas da cidade carregando um saco cheio de garrafas de vidro… Muitas crianças tinham medo dele, mas eu já era grandinho e sabia que ele era pacífico… não tinha razão pra ter medo.
“O susto foi grande, mas ao menos não é a mula sem cabeça…”, pensei. Meu pai saiu fora de casa e fez com que o homem seguisse seu rumo pelas ruas da cidade, trancando o portão. Da janela eu vi que um casal de mulas velhas passava na rua em frente a nossa casa. Agora sim, estava tudo explicado e o medo passou…
Voltamos todos, cada um para suas camas… Meus pais já cochilavam, mas eu, embora mais calmo, não conseguia dormir… devia ser a adrenalina no sangue! Nesse momento, escutei um urro feio, que agora eu sabia ser os asnos que estavam na rua… Ou será que não? E se a mula sem cabeça se aproveitasse dos bichos pra chegar despercebida? Naquela noite, eu só dormi quando meus pais concordaram em me acolher na cama deles… De outro jeito eu não ia dormir… e nem eles! Antes de deitar, por precaução, fui na máqina de costura da mãe e peguei um alfinete novinho em folha, que botei no bolso pra ter ele ali pertinho de mim… Mas só por precaução besta mesmo, porque mula sem cabeça não existe, não é?
ILUSTRAÇÃO: DOUGLAS VIANA
 
PARA SABER MAIS SOBRE A MULA SEM CABEÇA:
 
 
 
 
 
 
 

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