O LOBISOMEM DA RUA DO CEMITÉRIO

(Altos – Piauí)

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Assombrações e figuras sobrenaturais aparecendo próximas de Cemitérios existem aos montes no Piauí. Seja A LOIRA DO CEMITÉRIO SÃO JOSÉ (TERESINA), A NOIVA ABANDONADA QUE PEDE CARONA NA PORTA DO CEMITÉRIO DE PIRIPIRI OU AS ASSOMBRAÇÕES DO CEMITÉRIO DO BATALHÃO (CAMPO MAIOR), o certo é que as regiões próximas aos cemitérios piauienses têm muita história para contar.

O cemitério São José, em Altos, tem suas próprias histórias fantásticas. Ali fala-se de um corpo seco, de um corpo santo e até de um homicida que virou alma milagrosa. Alguns anos atrás, tomei conhecimento por meio de Geane, uma moça que serviu de doméstica na casa de meus pais por anos, de que haviam rumores das aparições de um lobisomem nas ruas próximas ao Cemitério São José, em Altos.

O relato dela, embora não comportasse grandes detalhes, marcou minha memória pelo fato de que ela realmente parecia acreditar e temer aquilo sobre o qual estava me falando. Algum tempo depois, quando comecei a escrever causos, a mesma me aconselhou a conversar com dona Baíca, residente ao lado do cemitério, que ela com certeza saberia me contar melhor sobre o tal lobisomem.

Assim o fiz. Procurei por dona Baíca, e essa, de fato, me contou que já viu um lobisomem por ali. Entre o muro da casa dela e o muro do cemitério há apenas um pequeno beco (por onde só passa, a certa altura, uma pessoa de cada vez) que leva ao alto do morro que fica por trás da morada dos mortos.

Segundo ela, alguns anos atrás, já fazia alguns dias que diziam que um lobisomem aparecia por ali. Havia um zumzumzum entre os moradores no sentido de que ele saía de dentro do cemitério e pulava o muro para o escuro beco, dali saindo correndo para a rua.

Um dia Dona Baíca, de sua casa, teria ouvido um chafurdo dentro do cemitério e sabendo dos boatos ficou de sobreaviso. Um de seus netos começou a chorar com a barulheira. Tendo ouvido de seus antepassados que o lobisomem tem preferência por crianças pagãs, pediu à mãe da criança que lhe desse de mamar afim de que cessasse o choro, enquanto caminhava rumo à porta de metal que fica à frente de sua casa.

Parecia que o bicho estava encurralado no beco pelos cachorros da vizinhança, mas sabe-se lá o que ele fez que os cachorros saíram ganindo de medo às carreiras. A porta, que tem umas grades por meio das quais se pode ver a rua, era coberta à noite com uma cortina para que não pudessem enxergar dentro da casa.

A mulher afasta uma parte da cortina de modo a poder ver o que se passa na rua, ao que enxerga saindo do beco a estranha fera, que, segundo ela, era um bicho peludo com pouco mais de um metro de altura, que não tinha pé nem cabeça: parecia mais uma bola de pêlos pretos e ouriçados. “Se tinha pé ou cabeça só se fosse embaixo daqueles pêlos, pois o bicho era muito peludo”, confessou-me…

Estava lá ela olhando para aquela estranha criatura parada bem no ponto de encontro entre o beco e a rua na qual ele começa (que é a mesma que passa em frente aos portões do cemitério). Mesmo parado, os pêlos se movimentavam muito como que o bicho estivesse procurando a direção a seguir, enquanto os cachorros latiam para ele.

Nesse momento, a criatura emite um grito estridente e assustador, de fazer percorrer um arrepio pelo corpo de qualquer um que o escute, sendo que, após isso, o bicho parte em altíssima velocidade, aos saltos, sendo que a cada salto percorria cerca de dez metros antes de tocar o chão. Enquanto corria, o bicho fazia uma barulheira, como que se arrastasse coisas que se chocavam umas contra as outras.

Segundo Dona Baíca, o bicho corre muito e a razão disso é porque, como reza a lenda, o lobisomem deve percorrer sete cidades, sete encruzilhadas, sete igrejas e sete cemitérios antes do galo cantar a última vez. Em Altos, contudo, o que se diz é que a fera tem de percorrer apenas sete ruas, de uma ponta a outra, até porque não daria tempo de percorrer tudo isso em uma noite.

Mas, se é assim, porque estaria ele dentro do cemitério afinal? Ora, se não teria a obrigação de percorrer sete cemitérios, o que estaria fazendo ali? Haveria lá dentro um espojeiro de jumento? O que é certo é que se ele não conseguir fazer o percurso no período estabelecido, ficará para sempre na forma maldita, de modo que terá que procurar se esconder em alguma serra.

Dona Baíca confessou-me que, depois disso, ainda ouviu falar no lobisomem por um tempo, e, vez por outra, escutava alguns ruídos esquisitos que poderiam (ou não) ser causados pela criatura maldita. No entanto, a velha nunca mais teve coragem de olhar para fora para conferir. Hoje até que as coisas andam quietas, e os rumores sobre o lobisomem que andava por ali foram diminuindo aos poucos, ficando a história apenas na memória das pessoas.

“Mas é melhor não descuidar! Vai que ele volta…”, falou-me a simpática idosa. Desde então, cedo da noite tranca as portas de sua casa cedo, e se tem criança em casa, põe para dormir ainda cedo, em especial nas noites de quinta para sexta, que é quando os lobisomens gostam de dar suas voltas noturnas.

 

FONTES:

– Relato de Dona Baíca, residente ao lado do Cemitério de Altos;

– Relato oral de Geane Rodrigues, moradora da região próxima do Cemitério.

 

TEXTO: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

ILUSTRAÇÃO: KATH SENA

 

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