CÂNTICO ENCANTADO

(Ipiranga – Piauí)

Por Elmar Carvalho*

desfiladeiro

 

Quando fui morar em Furta-lhe-a-Volta, logo fiquei sabendo de uma lenda que corria na redondeza. Diziam os caboclos que, de tempos em tempos, uma ou duas vezes por ano, ouviam um canto muito lindo, enfeitiçado, que parecia vir da região do olho d’ água. Nunca alguém tinha visto quem assim cantava tão belamente. Mesmo porque o local era de difícil acesso, encravado num socavão da serra, uma espécie de desfiladeiro íngreme e perigoso, em que a pessoa poderia despencar no abismo, se desse um passo em falso. Os moradores achavam que o canto era de uma iara ou mãe-d’ água, que moraria na vertente. Fui ver o olho-d’ água. Ficava entre belas plantas aquáticas, de folhas grandes e lustrosas, rodeado de verdejantes e imponentes buritizeiros, nos quais se enroscavam trepadeiras. A nascente era borbulhante, quase como se fosse um caldeirão de água fervente. Só que a água era fria, ao ponto de engelhar a pele de quem nela tomasse banho. Era um lugar encantado, parecia, acho, o próprio jardim do Éden, tal a sua magia e temperatura agradável, com o ar puro a nos encher os pulmões. Era misterioso, escondido, encantado, como se um feitiço o envolvesse. Os moradores tinham certo receio do local, e poucos tomavam banho em suas águas, e mesmo assim só o faziam em grupo de duas ou mais pessoas. Tanto pela beleza da paisagem como pelo banho agradável, decidi fazer minha casa de taipa ali perto. Nesse tempo eu era casado de pouco tempo e ainda não tinha filho. Minha mulher não gostou muito da ideia, por receio da lenda da mãe-d’-água, mas terminou concordando, e depois passou a gostar do local. Devo confessar que não fui só por isso. Sempre fui curioso e um tanto desconfiado, e por isso gostaria de descobrir se era verdade a estória dessa música encantada. Até porque sempre fui doido por música, e sempre toquei minha viola e sempre tive um pífano para tocar as modinhas dos outros e as que eu próprio fazia. Alimentava o desejo secreto de ouvir essa iara, para me deliciar com essa música mágica. Talvez ela me ajudasse na inspiração, e eu pudesse compor uma música que se tornasse imortal, e que deixasse meu nome falado pelos séculos dos séculos.

Numa noite de lua cheia, ouvi um canto diferente. Não se parecia com nada que eu já tivesse ouvido, seja voz humana, de bichos ou de instrumentos musicais. Meus ouvidos são aguçados, finos, e capto sons que outras pessoas não escutam. A música era muito baixa; parecia vir de muito longe, ou das entranhas da terra. Minha mulher dormia plenamente. Coloquei uma camisa, para me proteger do frio, e saí mansamente, pé ante pé, para não acordá-la. Fui em busca dessa música misteriosa. Segui em direção ao olho-d’ água, de onde a música parecia vir. À medida que me aproximava do desfiladeiro, a música foi se avolumando, e eu já a ouvia com bastante nitidez. Já então eu estava enfeitiçado por essa música indescritível, inefável, como diria um poeta. Com efeito, não posso compará-la a nada deste mundo. Na verdade, parecia um canto do outro mundo, suave, mavioso, maravilhoso, melodioso, cheio de sortilégio. Às vezes, um acorde se prolongava indefinidamente, como se quem cantava não precisasse respirar ou tomar fôlego. Havia riqueza de timbres, de ritmos, mas tudo harmoniosamente encandeado, numa composição inaudita. Eu já não tinha vontade própria, e parecia dominado pela música, como se estivesse enfeitiçado. Não sei como desci o cânion, cheio de pedras escorregadias e ciladas. Simplesmente fui ao encontro da música, que de fato vinha das proximidades da vertente. Quase não acreditei no que vi. Quem cantava assim tão divinamente era uma enorme cascavel, enroscada numa árvore. Não pude deixar de me lembrar da serpente tentadora do jardim do Éden. Pequenos animais se quedavam a seu redor, como hipnotizados por tão belo e atraente som. Não sei o que seria de mim. Eu marchava resolutamente, embora como um autômato, para mais perto. O cântico me embriagava, me atraía e me aterrorizava, mas não conseguia lhe resistir. Não podia fugir as seu fascínio, que talvez fosse mortal. Mas, subitamente, a música cessou, e recobrei a razão e a minha vontade própria. Foi como se acordasse de um sonho ou de um pesadelo. Voltei sobre meus passos. No dia seguinte, sem dar nenhuma explicação, derrubei a casinha, e me mudei para bem longe daquele lugar encantado.

 

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TEXTO DE ELMAR CARVALHO EXTRAÍDO DE:
CARVALHO, Elmar. Cântico Encantado. Disponível em: http://poetaelmar.blogspot.com.br/2010/10/diario-incontinuo_18.html. Acesso em 30 set. 2017.
ILUSTRAÇÃO: DOUGLAS VIANA

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