LAGOA DOURADA: A LAGOA ENCANTADA DAS PIMENTEIRAS

(Sertão das Pimenteiras, Sudeste do Piauí)

Lagoa Dourada
Representação Cartográfica da Lagoa Dourada extraída do Mapa da Provincia do Piauhy, que consta do Atlas do Império do Brazil, de 1868.

À época da colonização do Brasil, muitos mitos povoaram a cabeça dos colonizadores que se aventuravam pelo Brasil Colônia em busca de riquezas que pudessem ser exploradas. Entre eles podemos citar as lendas de Eldorado (uma cidade que diziam ser construída totalmente de ouro maciço e ouro puro) e da Mina Perdida de Muribeca (uma mina lendária cheia de de ouro que teria sido encontrada por Muribeca – descendente de Caramuru – com a ajuda de índios e que nunca se soube ao certo onde fica, mas, que, dizem, ficaria no Sul do Piauí). Lendas como essas levaram muitos aventureiros a se embrenhar nas matas da terra brasilis em busca de riqueza, de certa forma, ajudaram a colonizar nosso país…

Uma outra lenda, contemporânea às já mencionadas, dá conta da existência de uma lagoa dourada no sertão do Brasil. Pero de Magalhães Gândavo, autor do Século XVI, fez a seguinte observação sobre o rio São Francisco, em sua História da Província de Santa Cruz:

“Este rio procede de um lago mui grande que está no íntimo da terra, onde afirmam que há muitas povoações, cujos moradores (segundo fama), possuem grandes haveres de ouro e pedraria.” (GÂNDAVO, Pero de Magalhães Tratado da Terra do Brasil: História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, p. 97)

É claro que Gândavo jamais estivera na nascente do São Francisco, mas parecia não ter problemas em afirmar a existência de “povoações“, “moradores“, “ouro e pedraria” no interior de um lago. Não satisfeito, voltaria ao assunto na mesma obra:

“Principalmente é pública fama entre eles [os indígenas] que há uma lagoa muito grande no interior da terra donde procede o rio de São Francisco, de que já tratei, dentro da qual dizem haver algumas ilhas e nelas edificadas muitas povoações, e outras ao redor dela muito grandes onde também há muito ouro, e mais quantidade, segundo se afirma, que em nenhuma outra parte desta província.” (op. cit.)

Foram muitos os que deram se aventuraram em busca da lendária lagoa. Gabriel Soares, autor do Tratado Descritivo do Brasil em 1587, foi um dos que resolveram procurá-la.  Frei Vicente do Salvador, o primeiro nascido em solo brasileiro a escrever sobre a história do Brasil,  em sua obra História do Brasil, escrita na primeira metade do Século XVII, dá conta disso:

“O intento que Gabriel Soares levava nesta jornada era chegar ao rio de São Francisco, e depois por ele até a Lagoa Dourada, donde dizem que tem seu nascimento, e para isso levava por guia um índio de nome Guaracy, que quer dizer sol […].”

Na busca pela lagoa, Gabriel Soares, o índio Guaracy, e muitos outros aventureiros sucumbiram ao sertão brasileiro, sem nunca encontrar o local de maravilhas e riquezas descrito pelos indígenas. Talvez porque tenham procurado no local errado.

Há relatos que dão conta de que a famosa lagoa dourada ficaria no Sudeste do Piauí, na região conhecida como Sertão das Pimenteiras.

O tenente-coronel João do Rego Castelo Branco, militar, fazendeiro e político, de grande influência no Piauí de então, comandou, no século XVIII, várias incursões bem-sucedidas contra nações indígenas na Capitania do Piauhy, como contra os Gueguê e Akroá. Sua derradeira atuação como militar foi coordenar frustradas campanhas contra os índios Pimenteira. Idoso e quase cego, João do Rego comandou pelo menos três expedições contra os Pimenteira na década de 1770, incluindo a bem documentada expedição de 1779.

D’Alencastre, em sua Memoria chronologica, historica e corographica da provincia do Piauhy [1855] (In: Revista do Instituto Historico e Geographico Brazileiro. Tomo XX. Rio de Janeiro, 1857. pág. 41), informa que a guerra contra os índios Pimenteira teria sido “engendrada por amor da descoberta da Lagôa Dourada”.

Essa também parece ser a opinião do poeta piauiense H. Dobal. Em seu poema El Matador, o célebre escritor piauiense narra a luta de João do Rego contra os Pimenteiras por meio de um texto em que aparecem, entrecortados, o texto histórico e o texto literário, na composição de um anti-heroi, um “matador de índios” que habitavam a terra brasilis do Piauí. Do poema, extrai-se o seguinte trecho:

“[…]

Tenente-coronel dos auxiliares

João do Rêgo Castello Branco

chefe da tropa

senhor dos trabalhos

castigos e desgostos,

matador de índios.

[…]

Sem firmeza

nos ajustes de paz.

Firme na guerra

a todos os índios.

Rápido na guerra

lança os proclamas

as derramas

de gente

farinha

cavalos e bois.

[…]

Índios e ouro

seu sonho execrando.

A lagoa dourada

o rio do Sono:

se revolve em sangue

a sede de ouro.

Os corpos no campo

para o pasto das feras.

Passados à espada

                    Acoroazes

                    Pimenteiras

                      Gueguezes   

raça extinta

lembrança extinta

nomes nações

apagados

no próprio sangue.

Matador de índios.

A fama de seu nome.

Sua memória em sangue

se repete.

(In: H. Dobal. O Dia sem Presságios. 1970.) 

Através da cartografia e do corpus mitológico das comunidades no sudeste do Estado do Piauí, que a Lagoa Dourada, ainda que abstratamente, ocupou e ocupa os domínios do Sertão das Pimenteiras.

Informa-nos Negreiros (2012) que

No mapa da “PROVINCIA DO PIAUHY” contido no “Atlas do Imperio do Brazil” de 1868, a Lagoa Dourada é representada juntamente com outras duas lagoas intituladas Ibiraba e Pimenteira, situadas a sul da localidade Pimenteiras. As lagoas formavam, na iconografia referida, as pontas de um triângulo equilátero localizado nos domínios da Comarca de S. Raymundo Nonato, no sudeste da Província. Em mapa anterior, datado de 1816, a localidade Pimenteiras aparece a nordeste de três lagoas ainda não nomeadas. Em cartografias posteriores, do fim do século XIX e inicio do século XX, a associação entre as três lagoas e a localidade Pimenteiras é mantida. 

Em mapas datados de 1891, 1893 e 1897, há referência nominal somente à localidade Pimenteiras, as três lagoas estão presentes, porém sem denominação. No mapa de 1922, a localidade Pimenteiras está ausente, sendo representadas somente as três lagoas, e somente as lagoas Ibiraba e Pimenteiras estão denominadas. Em um mapa de 1929, estão presentes e denominadas tanto a localidade Pimenteiras quanto as três lagoas, sendo que, ao invés do topônimo Ibiraba, utilizou-se o topônimo Lagôa do Matto.

A evolução dessas representações cartográficas no sudeste do Piauí pode ser acompanhada na tabela abaixo.

tabela cartografia lagoa dourada
Fonte: NEGREIROS, 2012.

Ainda hoje moradores do sudeste do Piauí dão conta da lenda dourada. Segundo Negreiros (2012),

Em alguns municípios no sudeste do Piauí, a Lagoa Dourada é conhecida como a encantada Lagoa da Pimenteira, um mito lembrado pelos mais velhos das zonas urbanas e conhecido e difundido pela população da zona rural. Segundo a tradição oral, haveria no alto dos Gerais, chapada que pertenceu ao território do Sertão das Pimenteiras, uma lagoa encantada, a lagoa da Pimenteira. Essa lagoa juntamente com os habitantes de seus arredores, os caboclos, só apareceriam para quem eles desejassem, ocultando-se magicamente nas demais circunstâncias.

No município de Canto do Buriti, no sudeste do Piauí, os caçadores eram aconselhados pelos mais velhos a terem cautela ao se embrenharem na chapada dos Gerais, pois lá poderiam se deparar com a lagoa encantada da Pimenteira.

Da mesma forma que o Sertão das Pimenteiras se justificou e perdurou devido à presença do “gentio” homônimo, a Lagoa Dourada, sítio fecundo no desconhecido, não poderia ser pensada em disjunção aos índios bravios, que eram a personificação do sertão. Isso explicaria a associação na cartografia histórica da localidade Pimenteiras, onde se supunha habitar o “gentio”, com a Lagoa Dourada. Da mesma maneira, por fusão e por interpretações locais, se configurou e se difundiu em nossos dias o mito da lagoa encantada da Pimenteira que, como não poderia deixar de ser, é abrigo de caboclos igualmente encantados.

Assim, como se vê, a Lagoa Dourada, de fato, existe e fica no Sudeste do Piauí, na região do Sertão das Pimenteiras. O fato de nunca ter sido encontrada não quer dizer que esta não exista, apenas e tão somente que essa lagoa é encantada e não se mostra a qualquer um. Os povos, cheios de riquezas, que os indígenas diziam habitar suas ilhas e proximidades, na verdade são criaturas encantadas, que volta e meia dão o ar da graça aos habitantes do Sudeste do Piauí. Essas criaturas, contudo, penalizadas pela forma como foram mortos os indígenas Pimenteiras que habitavam a região, prendem em suas cidades encantadas, as poucas pessoas que, volta e meia, conseguem ver a lagoa, de modo que estas nunca mais voltam a ser vistas pelos amigos e familiares. Assim, ninguém mais vai dar conta da localização da lagoa, e nem mais ninguém vai morrer por conta das riquezas que se encontram por ali.

Há quem acredite, que essa história toda é besteira que o povo conta. Eu, pessoalmente, não duvido de nada. Sei bem que o Piauí é cheio de mistérios e terras habitadas por criaturas encantadas. Isso ser verdade, para mim, não seria causa de espanto. Quem quiser duvidar que duvide…

 

REFERÊNCIAS

 

TEXTO POSTADO POR JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

 

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