O MORRO DO PEDRÃO

(Altos -Piauí)

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Em minhas andanças em busca de histórias de Lendas, Causos e Almas Milagrosas, ouvi do amigo Riba, confrade na Academia de Letras e Línguas Nativas Altoense (ALLNA) a história de uma pessoa que havia morrido de forma horrível durante a construção da estrada que liga Altos a Beneditinos, tendo sido encontrado seu crânio com um enorme prego encrustado. Curioso, fui um dia à sua casa para juntos irmos à residência de um senhor que ele dizia saber a história, mas que ao final nem soube nos dizer maiores detalhes. Era o Senhor Alcides Ferreira de Melo, residente na cidade de Altos, próximo à Praça João Furtado (Praça da Toca do Coelho). Ao invés de nos aprofundar na história que tínhamos ido atrás, Seu Alcides nos contou muitas outras histórias, até mais interessantes que a que tinha nos levado até ele.

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Eu e Riba antes de sair em busca do Morro do Pedrão 

 

Uma dessas histórias é a história de mais uma alma milagrosa altoense, um caçador de nome Pedro, que entrou para a história oral como Pedrão. Pedrão, conforme Seu Alcides, era um caçador que, décadas atrás, ainda na primeira metade do século XX, costumava caçar na localidade rural altoense chamada Livre-nos Deus. Costumava ele caçar principalmente mocós (animal semelhante a uma paca ou a uma cotia) naquela região cheia de morros, mas não deixava de aproveitar a oportunidade de abater outro animal.

Era essa uma atividade rotineira em sua vida, sendo que, como muitos na região, extraía seu sustento dessa atividade. Um dia, saiu para caçar no alto de um morro, onde, já à noite, enfiava suas mãos em um buraco, tentando arrancar dali um mocó, ocasião em que, algumas pedras  deslizaram, desequilibrando o homem, que, fatidicamente, se descuidou e caiu em um abismo que havia ali. Enquanto rolava pela encosta, algumas pedras se desprenderam e rolaram por cima dele. O evento trágico e fatal causou a sua morte.

Só depois de alguns dias, encontraram seu corpo desfalecido, já em decomposição avançada, nas proximidades do pé do morro, e, para não deixar os restos mortais expostos, enterraram ali mesmo e colocaram sobre o local um amontoado de pedras.

Com o tempo, considerando a alma milagrosa, devido à morte sofrida, as pessoas da região começaram a fazer preces e promessas, requerendo graças ao finado. Tais bençãos foram sendo atendidas e a informação logo se propagou, de modo que, em pouco tempo, o finado já tinha um bom número de devotos. Estes, para melhor marcar o lugar onde o homem estava enterrado, cercaram o monte de pedras que indicava o local do sepultamento, com outras pedras maiores que formavam um quadrilátero ao redor, como que a demarcar o terreno onde estava sepultado o corpo.

Por anos, devotos frequentaram o lugar, efetuando pedidos e voltando para agradecer, com orações, velas, etc. Foram muitos os que tiveram graças alcançadas.O Senhor Alcides, que nos contou a história, disse-nos que ele mesmo era um destes, que já haviam obtidos graças em benefício de sua saúde. Disse-nos ainda que conhecia muitos outros, que pediam para salvar plantações, encontrar animais perdidos, saúde, etc. Todos com os pleitos atendidos.

Na busca pela história, eu e Riba fomos ao local, seguindo instruções do Senhor Alcides. Depois de cerca de uma hora caminhando por varedas em meio ao mato, acompanhados de um guia, neto de Alcides, demos de cara com o túmulo, onde encontramos ainda o velho túmulo, abandonado em meio ao mato, que tomava conta do lugar. Ao que nos pareceu, há muito tempo ninguém mais visitava o túmulo do milagroso Pedrão, nem mesmo para requerer dádivas ou graças. O culto àquela alma, a quem via o local, parecia ser coisa do passado, estando o túmulo lugar de adoração em aparente abandono, apesar de pessoas da região terem nos dito que ainda existem pessoas que visitam o lugar, apesar de em menor número que em tempos anteriores.

Próximo ao amontoado de pedras, uma velha cruz de madeira, esfacelava-se em pedaços, aparentando ter sido destruída pela ação do tempo e por atividades antrópicas, como as queimadas para o feitio de roças. Apesar de parcialmente consumida pelo fogo, ainda era possível, contudo, ver os sinais artesanais que mostravam ser ela uma bela e trabalhada cruz de madeira em tempos passados. Na ocasião, juntamos os pedaços que encontramos para ter uma idéia de como era a cruz originariamente.

Como registro da visita, ficaram algumas fotos e um vídeo. Além das lembranças das histórias que sobreviveram na oralidade, registradas neste texto, que retratam a história de fé e adoração ao finado Pedrão, no seu túmulo ao Pé do Morro, que, por sua causa, ficou conhecido como Morro do Pedrão.

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FONTE:

  • RELATO ORAL DE ALCIDES FERREIRA DE MELO

 

TEXTO E FOTOS: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO e JOSÉ DE RIBAMAR ARAÚJO BORGES (RIBA)

 

 

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