BENEDITO, O NEGRO DO TAPUIO

(Localidade Tapuio, Pau D’Arco do Piauí – Piauí)

negrinho do tapuio2

No Município de Pau D’Arco do Piauí, na localidade rural de nome Tapuio (próximo à Localidade Saraiva) encontra-se o túmulo de mais uma alma milagrosa, qual seja, o “Negro do Tapuio”. O que se diz sobre ele é que há mais de século, quando ainda havia escravidão no Brasil, um negro cativo, fugindo de seu dono em meio ao mato, sob o sol quente do Piauí, não resistiu à sede e à fome, e acabou morrendo por ali. Quando o encontraram, já em avançado estado de decomposição, haviam nele correntes, provavelmente postas pelo proprietário (ou por alguém a mando deste), de quem fugia em busca de liberdade. A razão da fuga era evidente: haviam marcas por todo o seu corpo que indicavam frequentes castigos físicos que a ele eram infligidos.

Boa parte da história se perdeu com o passar dos anos, de modo que ninguém sabe dizer o seu nome, e nem o do proprietário de quem fugia. No túmulo, contudo, existe uma cruz de ferro, já bem antiga, com as iniciais M B T, que muitos acreditam ser as iniciais do nome do negro. Embora não se saiba dizer ao certo o nome, muitos dos mais velhos o chamam de “Nego véio” ou “Benedito”.

O pobre coitado, que em vida era escravo, castigado e humilhado, que morreu em busca da liberdade e, ao invés desta, acabou encontrando a morte de forma tão cruel, por muitos é considerado um mártir milagroso, uma alma santa. Ali, as pessoas fazem promessas e preces, e, quando atendidas, como o são no mais das vezes, depositam no local cruzes, terços, velas e ex-votos, como forma de agradecimento pela graça alcançada.

negrinho do tapuio1

A maioria das pessoas da região não o vê como um intercessor entre ele e Deus, mas como a pessoa responsável pela concessão da graça alcançada. É visto, assim, como uma esperança de amparo em situações de aflição, desgraça, dor e incerteza.

Diante da notícia de tantos milagres, a professora do Município de Pau D’Arco do Piauí, Maria de Lourdes Silva do Nascimento, escreveu um artigo científico apresentado à UFPI, resgatando a história do Negrinho do Tapuio, bem como relatos de fiéis. Assim, para demonstrar o poder que os fiéis atribuem à alma do escravo santo, apresentaremos alguns destes relatos.

A senhora Cristiana do Nascimento, moradora da região, contou à autora do artigo que, após um ano de casamento, perdeu sua aliança dentro de um riacho enquanto lavava roupa. Procurou, procurou, mas não encontrou. Já em casa, triste e desanimada, comentou com a mãe que se encontrasse o anel acenderia um maço de velas e rezaria um terço no túmulo do negrinho. No dia seguinte, voltou ao riacho com a mãe e um irmão, e logo sua genitora encontrou o objeto perdido.

Francisco Sales contou à professora, que, no ano de 2001, dois candidatos que disputavam o pleito eleitoral para o cargo de vereador em Pau D’Arco, Francisco Rodrigues (Chico Ladeira) e Antonio Fernandes (Toinho Alencar), fizeram uma promessa para o negrinho dizendo que, se eleitos fossem, iriam ao seu túmulo, acenderiam velas, rezariam um terço em sua intenção e depois construiriam uma gruta em sua homenagem. Depois de eleitos, os homens voltaram ao lugar e cumpriram com sua promessa. Um deles, o senhor Francisco Rodrigues, costuma visitar o lugar frequentemente, e no mês de novembro, tem o costume de mandar celebrar missa em intenção à alma do negro do Tapuio.

Contou ainda que ele e um amigo, desesperados por ter chegado a época das flores nas plantações em suas roças e não ter brotado nem sequer uma flor, em razão da falta de chuva, roubaram a cruz do negro do Tapuio e disseram a este que só a devolveriam se chovesse. Mal saíram dali com a cruz, logo começaram relâmpagos trovões, de modo que chegaram em casa com muita chuva. Esconderam a cruz onde ninguém pudesse ver e não contaram a ninguém o feito. Só a devolveram ao fim do inverno, que naquele ano foi bastante chuvoso.

Não se sabe há quanto tempo começou o culto ao negrinho, mas sabe-se com certeza que é já bem antigo. A história de fé e devoção atravessou gerações até chegar aos dias atuais. As pessoas a conhecem por intermédio de familiares mais velhos, como pais, tios e avós. E estes também já ouviram a história de seus antepassados. No entanto, mesmo depois de tanto tempo de sua morte, por força de todas as graças alcançadas, até hoje as pessoas o consideram uma alma milagrosa, sendo constante a visita de populares ao seu túmulo, tanto para solicitar, por meio de preces e promessas, como para agradecer, as graças milagrosas do Negro  do Tapuio (que os mais velhos chamavam de Benedito).

 

FONTE:

NASCIMENTO, Maria de Lourdes Silva do. MEMÓRIA E DEVOÇÃO PARA COM O NEGRINHO DO TAPUIO: Pau D’Arco do Piauí – 1980 a 2012. Artigo apresentado À Universidade Federal do Piauí – PARFOR como avaliação da discplina TCC II, do curso de Licenciamento em História. Orientador: Professor Benilton Torres de Lacerda. Teresina: UFPI (PARFOR), 2012.

 

TEXTO: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

FOTOS: MARIA DE LOURDES SILVA DO NASCIMENTO

 

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