FINADO RAFAEL, O CURANDEIRO MILAGROSO

(Altos – Piauí)

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Rafael foi um homem pobre que viveu cerca de meio século atrás na Localidade rural Livre-nos Deus, zona rural de Altos, Piauí. Morava naquele lugar isolado, repleto de cocais e pés de guabiraba, entre outras plantas, não tão distante de um riacho que nasce em um olho d’água por ali, em uma casinha de palha distante das demais que haviam por ali com um filho seu, ainda criança. Era uma pessoa muito bondosa que tinha verdadeiro prazer em ajudar aos outros. Apesar da carência de recursos, e do fato de não te estudado, era uma pessoa muito vivida e, detinha muito conhecimento sobre a vida no campo, sobre os segredos da mata e procedimentos de cura através de rezas e plantas medicinais, conhecimento que havia sido repassado por seus antepassados, que também haviam lhe ensinado a arte da tecelagem artesanal.

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As pessoas da região, sabendo disso, recorriam a ele em momentos de aflição para que rezasse nelas, e também pediam orientação sobre o uso de plantas medicinais para tratar doenças. Em agradecimento pelos ensinamentos, as pessoas lhe presenteavam com coisas, animais, alimentos e dinheiro, o que era aceito de bom grado, embora Rafael não cobrasse nada. Apesar dos presentes que recebia, Rafael tinha uma profissão da qual extraía o seu sustento: Fabricava coisas usando da arte da tecelagem, o que lhe permitia auferir alguma renda.

50905813_2196449950615998_1610061485537492992_nUm dia, o menino, filho de Rafael, brincava em frente à casa em que residia com o pai, quando percebeu presa à palha do teto uma casinha de marimbondo. Apesar da pouca idade, o menino já conhecia a dor da picada de um daqueles pequenos animais, e um amontoado deles ali, na palha de sua casa era para o menino inaceitável. Lembrou-se de ter visto o pai matar, tempos antes, com fogo os marimbondos que haviam construído sua morada em uma árvore ali perto. Foi então que teve a idéia de tacar fogo na casinha de marimbondos. Por infelicidade do destino, o menino, em sua imperícia, acabou por queimar também a palha da casa que morava com o pai, causando um incêndio de grandes proporções que inevitavelmente consumiria toda a morada.

Rafael, como era muito pobre, pôs-se a tentar salvar os poucos bens materiais que tinha. Entrava na casa em chamas e retirava suas coisas para que não fossem consumidas pelo fogo. Preparava-se para retirar o último objeto: um rolo de fio que utilizava em sua tecelagem, quando, por infelicidade do destino, o teto em chamas desabou sobre o pobre homem. Rafael saiu ainda caminhando do fogo em direção ao filho, mas logo caiu desfalecido no chão. Havia sofrido graves queimaduras. A carne pregava na roupa e a pele soltava ao menor contato. O homem havia sido assado vivo.

Depois de algum tempo, os vizinhos mais próximos perceberam a fumaça oriunda do incêndio, que a essa altura tomava conta dos céus. Correram ao lugar e já encontraram Rafael morto. Os homens, vendo o estado em que se encontrava, não tiveram coragem de transportar seu corpo até uma sepultura. Largaram o coitado que tantas vezes os havia ajudado ali. As mulheres, no entanto, compadecidas da situação, puseram o pobre Rafael em uma maca improvisada com alguns talos de coco, enrolado em uma rede, e o levaram a um pequeno cemitério na localidade Aracati, solo bento onde já haviam sido sepultadas algumas pessoas, e ali enterraram o pobre homem. Depois, entregaram o menino a familiares do falecido que moravam em localidades próximas e passaram a cuidar da criação e educação do filho de Rafael. No lugar onde seu corpo foi encontrado, fincaram uma pequena cruz, que até hoje pode ser vista ali, na Localidade Livre-nos Deus.

Apesar do cemitério ser bem antigo, ainda hoje o túmulo de Rafael está em pé à margem da estrada que liga o Aracati ao Livre-nos Deus. Sobre o túmulo do mártir apenas tijolo comum marcando o lugar do túmulo que fica ao lado de duas outras tumbas bem antigas, onde ainda podem ser observadas as lápides, com inscrições típicas de tempos passados, como já não se faz mal. O estado de conservação dos túmulos é péssimo, o que é lamentável.

 Quem me contou a história de Rafael foi o Poeta Zé Bandeira, que mora ali no Livre-nos Deus, bem pertinho do lugar em que ficava a casa em que o finado morava com seu filho. Segundo ele, pouco depois da morte de Rafael, as pessoas da região, considerando a pessoa que o pobre homem era em vida, e considerando a morte trágica e sofrida que teve, passaram a considerar Rafael uma “alma santa”. Se tinha algum pecado, havia sido este também consumido pelo fogo, eis que, conforme a crença popular, quem morre em intenso sofrimento, tem seus pecados perdoados.

Assim, logo teria começado um movimento de fé e devoção, onde as pessoas da região, em momentos de aflição, recorriam ao auxílio daquela pobre e santa alma. Faziam preces e promessas à sua alma, que consideravam milagrosa, e, se atendidos em seus pleitos, agradeciam com rezas, orações e velas no local em que Rafael foi encontrado morto e no lugar em que foi sepultado.

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Zé Bandeira afirma que até hoje as pessoas da região realizam esse ritual de fé. Ele mesmo já teria sido socorrido pelo mártir milagroso. Certa vez, um boi havia se perdido na mata, e, mesmo tendo procurado muito, não encontrava o animal. Disse então, em sua mente, a Rafael, que se encontrasse o bicho, rezaria um terço e acenderia velas em sua homenagem. Em pouco tempo encontrou o animal, e prestou as honrarias ao mártir milagroso como havia prometido.

Contou ainda que certa vez seu filho mais novo adoeceu, ainda bem criança. Já se havia dado ao garoto de tudo e nada de melhorar. Sua esposa, então, teria se apegado com a alma milagrosa de Rafael, dizendo que se o menino melhorasse, rezaria um terço e acenderia velas, dedicando tais ações à alma do finado santo. Como que por milagre, no dia seguinte, o menino amanheceu curado e com todo o vigor recuperado. Até corria pelo quintal, fazendo brincadeiras, como é próprio das crianças de sua idade. Zé Bandeira e a esposa, então, rezaram um terço e acenderam velas, no lugar em que Rafael morreu e no local em que está sepultado, em agradecimento ao restabelecimento da saúde do filho.

Quando visitei Zé Bandeira, estavam comigo os amigos Riba e Josué. Seu Zé recebeu-nos muito bem, servindo de guia aos locais de devoção a Rafael. Ofereceu-nos ainda um simples, mas delicioso almoço, com aquele tempero que só o povo simples do campo sabe aplicar nos alimentos. Tivemos ainda o prazer de conhecer alguns dos poemas que integram sua obra, que pretende publicar no futuro. Na ocasião, visitamos ainda o riacho, que nasce em um olho d’água ali pertinho, onde pudemos banhar e sentir um pouco do que é estar em contato com a natureza.

Seu Zé mostrou-nos ainda uma pedra que marca o local onde teria morrido uma mulher muito tempo atrás. O lugar fica próximo de onde ficava a casa que pegou fogo. Na pedra, muito antiga, foi esculpida de forma rústica uma cruz pelos antigos moradores da região. Infelizmente, a história perdeu-se no tempo, não se conhecendo maiores detalhes.

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Segundo Zé Bandeira, existem na região outras histórias de devoção popular que atestam outros milagres realizados pela alma santa do finado Rafael. Disse, enfim, que no dia de finados, muitos fiéis visitam os locais associados à devoção à alma do mártir, mesmo sem que tenham feito promessa alguma, e que ainda hoje acredita-se na santidade do pobre Rafael, o curandeiro milagroso.

 

TEXTO: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

FOTOS: JOSÉ GIL TERCEIRO E D’RIBA

FONTE:

  • Relato oral do poeta Zé Bandeira, residente na Localidade Livre-nos Deus, zona rural de Altos – Piauí.

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