A CRIATURA DO CORTE

(“Corte”, trecho da PI-221 na zona rural de Altos – Piauí)

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Algumas décadas atrás, antes da construção da PI 221, rodovia estadual asfaltada que liga Altos a Beneditinos, o trajeto entre as duas cidades era feito através de uma estrada não pavimentada (o que popularmente se chama no Piauí de “estrada de chão”). A velha estrada respeitava a geologia do lugar, de modo que circundava morros e outros obstáculos naturais. Com a construção da PI 221, buscou-se superar alguns deles, construindo pontes sobre rios e cortando ao meio morros, afim de garantir que o trajeto fosse encurtado.
Um dos morros cortados ao meio para a passagem da estrada, há poucos quilômetros da zona urbana de Altos, é hoje chamado por todos como “Corte”. Quem passa por ali, percebe que a estrada passa pelo meio do morro, de modo que paredes rochosas cercam o transeunte que circula naquele trecho da rodovia.
À época em que anunciaram a construção da PI 221, vivia por ali um velho feiticeiro, descendente de índios e escravos, adepto de práticas e rituais de magia, uma arte herdada de seus ancestrais hoje esquecida pela maioria das pessoas. Seus conhecimentos, normalmente, eram utilizados para o bem, de modo que auxiliava o povo da região com rituais de cura através de ervas e orações.
A natureza era o seu templo, de modo que muitos dos materiais que utilizava em suas magias eram colhidos do meio ambiente natural que circundava o morro, que, por sua vez, era utilizado como local de meditação pelo velho mago, eis que a tranquilidade do lugar permitia uma melhor conexão com forças elementais.
Ao receber a notícia de que a estrada cortaria ao meio o morro querido, o velho feiticeiro não ficou nada contente. Tentou argumentar com as autoridades acerca da necessidade de preservação da natureza. Dizia ele que não é a natureza que deve se dobrar ao homem, mas sim o contrário. A destruição daquele ambiente natural afastaria dali espécies que utilizavam o lugar como habitat. De nada adiantou. “O progresso não pode ser impedido”, diziam os líderes políticos.
O velho feiticeiro, ao que dizem, ficou doente de desgosto ao ver destruído o morro que tanto amava. Foi definhando aos poucos, perdendo sua energia vital. Era impressionante. Parecia que havia uma conexão entre ele e aquele lugar de tal modo que ele próprio não sobreviveria à devastação daquele habitat pelo homem. De fato, assim o foi, antes mesmo de finalizada a obra, o velho morreu.
Ao que dizem, sabia ele o dia e a hora do desfalecimento que se aproximava. Já se despedia de velhos amigos, mesmo esses dizendo que não acreditavam no seu anúncio. “Para com isso! Isso é coisa da sua cabeça. Não se entrega homem”, diziam a ele. No dia anunciado, contudo, o velho veio a morrer, exatamente como havia dito.
Antes disso, no entanto, realizou seu último feitiço. O ritual era há muito conhecido por ele, mas nunca se atrevera a usar. As palavras ditas se perderam no tempo, não tendo sido repassadas por ele a ninguém. Para tanto, utilizou-se da seiva de árvores da vegetação do lugar e de seu próprio sangue, extraído de uma pequena e precisa incisão no seu dedo indicador esquerdo.
A mistura, derramada ao solo da estrada recém-aberta, ainda não asfaltada, fez brotar do lugar onde foi derramada, após proferir palavras de invocação em uma noite de lua nova, uma criatura horrenda aos olhos humanos e que poucos conseguem descrever. Como tudo que nasce, a criatura invocada se contorcia e urrava enquanto saía pequenininha do chão, mas tão logo viu-se fora, se pôs a crescer e criar pelos e chifres, não demorando ficar maior que um homem de dois metros de altura. Em suas últimas palavras, o velho incumbiu a criatura que invocara de uma missão: afastar daquele lugar os pecadores que desrespeitam a natureza ou que tragam a maldade em seu coração.
No dia seguinte, encontraram o velho sem vida, caído ao chão, próximo de sua casa. Era um casinha de paredes de barro e cobertura de palha que já não se vê por ali sequer vestígio dela. Em uma carta, amaldiçoava aos homens e dizia que, por gerações, iriam se arrepender do qu haviam feito. De fato, não demorou a se apresentarem os resultados.
Em noites de lua nova, lua cheia e noites de quinta para sexta, a criatura passou a ser vista por pessoas que passavam por ali altas horas da noite. O terror era imenso, eis que viam-se entre os paredões de rocha, sem saída, pois a criatura se posicionava no meio da estrada, de modo que assombrados, voltavam para trás, mas não saíam do meio das paredes do morro cortado, eis que logo a criatura aparecia na outra saída.
Não foi uma nem duas pessoas que já viram a criatura do corte. Existem vários relatos. O tormento do cerco que lhes é infligido só cessa, no mais das vezes, ao raiar do sol ou quando algum outro veículo se aproxima. Às vezes é visto por ali também o espírito do velho feiticeiro, que do alto das paredes rochosas, olha inerte o tormento dos homens maus.
As poucas pessoas que conseguem fugir, sem a aproximação de outra pessoa ou sem o raiar do sol, do cerco da criatura, dizem se lembrar de ter pedido proteção divina e o perdão dos pecados. Mas não é certeza que isso funcione, até porque, para que pecados sejam perdoados, faz-se necessário o arrependimento sincero.
Não é todo mundo que vê a criatura, pois ela só aparece a quem traz maldade no coração ou devaste a natureza. Os que conseguiram fugir ao seu cerco por se arrependerem dos seus pecados, no mais das vezes, não a veem mais. Mas os que fogem dali, por conta do raiar do sol ou em razão da chegada de mais alguém, continuam a ser atormentados, mesmo tendo fugido dali.
Conta o povo que a criatura e o velho aparecem em seus sonhos para lhes assombrar. Muitos não conseguem uma noite de sono tranquilo em muitos anos. Só se livra da maldição quem apresenta arrependimento sincero dos pecados praticados. Há quem diga que já teve gente que ficou lelé da cuca, por conta dos tormentos sofridos.
Ali pertinho do corte, há hoje em dia, uma extração de rochas do solo para fins comerciais. Alguns funcionários do lugar já se viram perseguidos pela criatura. Outros, por terem bondade interior, e só trabalharem ali por realmente precisarem do dinheiro para cuidar dos seus, escapam dos tormentos. Dizem que a criatura só não ataca com frequência o povo dali porque raramente se encontram no lugar à noite.
Já teve até quem se aventurasse em tentar, junto com outros, encontrar o bicho, para matar ou capturar. Mas nunca o encontraram. Há quem diga que nas noites em que aparece, sempre brota novamente do chão, para cumprir com seu papel, e depois é novamente tragada pela terra. Mas ninguém sabe bem se isso é verdade… O que todo mundo sabe é que, volta e meia, aparece alguém dizendo ter sido vítima da entidade. Eu mesmo já presenciei um motoqueiro chegando à cidade trêmulo de medo, branco que nem vara verde, contando ter sido perseguido.
Tem até gente que não acredita e diz que isso é coisa da cabeça de gente medrosa. Muitos que a viram, contudo, também agiam assim. Parece que o bicho tem um gostinho a mais em se apresentar àqueles que, além de pecadores, são céticos… Eu nunca vi e nem quero ver, mas não duvido de quem viu… E eu que não passo por ali sozinho de noite.

REFERÊNCIAS

FILHO, Raimundo. relato escrito via facebook para José Gil Barbosa Terceiro. Altos, janeiro de 2019

ARCANJO. relato oral a José Gil Barbosa Terceiro. Altos, 2017.

 

TEXTO: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

ILUSTRAÇÃO: DOUGLAS VIANA

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