SIMÃOZINHO, O NEGRO MILAGROSO

(Localidade Cruzeiro, Coivaras – Piauí e Localidade Bacuri, Alto Longá – Piauí)

53551260_567505487077585_8287896858064322560_nSimão da Silva (Simãozinho) era um negro que por, muito tempo, em idos dos séculos XIX e XX, habitou as terras da Fazenda Cruzeiro, pertencente a Basílio Sepúlveda de Abreu e sua esposa Maria Sepúlveda de Abreu. Era preto como ele só, tendo puro sangue africano, tinha as pernas cambotas e era muito feio. Apesar da feiúra exterior, era por dentro uma das mais belas criaturas que já existiu. Andava sempre em cima de um burro, que usava como montaria. Tinha muito carinho ao “Moço Basílio”, como chamava o proprietário das terras do Cruzeiro, a quem viu crescer desde criancinha.

Basílio, órfão muito jovem, ainda rapazote, herdou muito cedo o título de Coronel e as terras da família. Simão já servia aos seus pais e como o rapaz Basílio não conhecia bem a lida na administração dos bens, contou com a ajuda de Simão, que já auxiliava aos pais de Basílio. Era tão querido que era tratado por Basílio como parte da família, de modo que o latifundiário, na intimidade, disse que Simão não era um serviçal, era na verdade “pai” dele. Um reconhecimento ao fato de que sem a ajuda de Simão não teria  transformado a Fazenda Cruzeiro na empreitada bem-sucedida que se tornou.

Ao que consta teria sido um escravo ou descendente de escravos até os anos da publicação da Lei Áurea. Depois disso, contudo, Simãozinho teria continuado a prestar serviços à Fazenda Cruzeiro, até o fim dos seus dias. Existem na região do Cruzeiro muitas histórias que dizem quem teria sido o negro Simão em vida. Praticava ele rituais de magia e curandeirismo africano com conhecimentos que seus ancestrais haviam lhe repassado. Também tinha o costume de cantarolar músicas da terra de seus antepassados.  Era sabido que ele só, e às vezes, como todo mortal, gostava duma pinga e duma brincadeira.

Era um excelente vaqueiro, montava como ninguém. Vivia a campear e tinha uma habilidade muito grande com o laço. Contam que todos os anos fazia-se um concurso em outra Fazenda para que fosse montado um cavalo brabo, que poucos conseguiam montar. Em uma dessas ocasiões, todos os homens se recusaram a montar o animal, até mesmo o que era tido como o melhor montador, teria dito que aquela não era a ocasião apropriada. Simão, então, riu-se e disse que se ninguém iria montar ele montaria o animal, e assim o fez. Fazendo o percurso exigido, desceu do animal contando vantagem: “Aqui é o Simãozinho do Cruzeiro!”.

Dizem que tinha, como ninguém, a perícia de atrair animais para si, inclusive aqueles que eram dados pelos demais  como perdidos em meio a mata. Para tanto sacudia um matinho daqueles que os bichos comem e fazia sons com a boca chamando os bichos. Logo, logo, todo animal, não importa quão longe estivesse, atendia o chamado e vinha até Simãozinho.

Em uma outra ocasião, Simãozinho estava a colocar uma ferradura em um burro, quando este lhe deu um coica na cara que fez vazar seu olho. Furioso, Simão, com uma faca, arrancou o olho do animal. Quando viu o bicho, Basílio perguntou quem havia lhe furado o olho, ocasião em que Simão teria dito que havia sido ele. “Mas porque Simão, você fez isso com o animal?”, perguntou Basílio. “Olhe aqui o que ele fez comigo também”, disse Simão mostrando o olho vazado pelo bicho. A reação de Simão, contudo, toda vez que Basílio o chamava de pai ou de dono do Cruzeiro, era em dizer “Imagina… Sou um mero escravo do Coroné”.

Basílio nunca infligiu qualquer castigo a Simão. Por vezes, dizia brincando que Simão é quem era o dono do Cruzeiro. De fato, Simão tinha certa liberdade em agir independente de qualquer autorização do dono das terras. Certa vez, matou um carneiro para comer, e Basílio perguntou porque tinha matado o bicho, se havia sido feita comida suficiente e ninguém aguentaria comer o animal. “Ora moço Basílio, fiz isso porque não queria comer o que fizeram… Eu queria comer era carneiro!”.

Uma certa vez, os meninos filhos do Coronel Basílio, vendo Simão já velho e acabado, desafiaram Simão a montar o animal mais brabo da Fazenda. Simão aceitou o desafio e rumou para montar o animal. “Ele vai já é cair”, diziam-se rindo. Para seu espanto, contudo, Simão, já idoso, montou o animal de um pulo e conseguiu dominar o bicho, agarrando-se a ele com as perninhas cambotas.

Simão, contudo, nunca se chateava. Era muito brincalhão e sempre devolvia tudo com uma brincadeira. Tinham o costume de dizer, quando o viam sujo “Simãozinho tu tá é mijado é?” ao que ele respondia “Ora mais, cagado até”. Contam que uma vez, serviu-se de uma panelada. Ao botar o alimento na boca, disse “ola, ola, ola… Mas que tripa dura”. Tirou a “tripa” da boca e viu que na verdade era uma lesma. Jogou a bicha fora e continuou a refeição.

Ocasionalmente Simão prestava serviços como vaqueiro para outros proprietários de terras próximas à região do Cruzeiro. É o caso, por exemplo, do latifundiário Coló de Mira, proprietário de terras na região da Localidade Bacuri, zona rural de Alto Longá, para quem Simãozinho também fazia serviços de forma habitual. O negro também se dava muito com este latifundiário.

As pesquisas que efetuei me deixaram dúvidas quanto ao fato de que Simão tenha nascido escravo, como diz a lenda, ou se este já nascera livre. Explico: antes mesmo da Princesa Isabel assinar a Lei Áurea em 1888, decretando a “liberdade” de todos os escravos, em 28 de setembro de 1871 foi publicada a Lei Rio Branco, ou Lei do Ventre Livre, que tornava livres todos os filhos de mulheres escravas nascidos a partir daquela data.

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No túmulo de Simão existe uma inscrição pouco legível que me fez crer que houvesse nascido em 1876, mas a história oral me trouxe a notícia de que Simão teria falecido no ano de 1929, com mais de cem anos, de modo que, assim sendo, pelo apurado, a sua data de nascimento seria aproximadamente os anos de 1820, ou mesmo no final da década anterior.

Ao que pude perceber, contudo, não é certo que a inscrição no túmulo de Simão esteja correta, eis que só foi construída a cripta há cerca de 30 ou 40 anos, por pessoa que não conheceu Simãozinho. Não tive condições de descobrir se Simão foi trazido da África ou se já nasceu no Brasil.

A data de morte de Simão foi-me afirmada com muita veemência, sem qualquer manifestação de dúvida, pelo Senhor João Batista de Abreu, residente na Localidade Cruzeiro desde o seu nascimento, sendo descendente de Basílio Sepúlveda de Abreu, contemporâneo de Simão.

Contou-me ele que na época da morte de Simão, Basílio teve que mandar buscar a documentação do negro na Paróquia do Poty Velho, em Teresina, ainda antes do falecimento. Nos últimos momentos de Simãozinho, Basílio teria travado com ele o seguinte diálogo:

– O que é que você está sentindo Simão?

 – Não me dói nada moço Basílio… É só o meu fôlego que tá ficando só um fiozinho… – respondeu o negro.

– Mas também Simão, com 108 anos, você quer o que?

– 108 não, 116! – esbravejou Simão dando seu último suspiro nos braços de Basílio.

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Placa no túmulo de Basílio no cemitério da Localidade Cruzeiro

Ao que consta, tal cena se deu nas primeiras décadas do século XX, de modo que muitos antepassados do povo do Cruzeiro, nascidos no início dos anos 1900 contavam aos filhos ter conhecido Simãozinho. Simão, contudo, não foi sepultado no Cruzeiro. O corpo do negro está enterrado até hoje em um cemitério antigo, onde não se enterra mais quase ninguém, situado na Localidade Bacuri, zona rural de Alto Longá, em terras que pertenceram no passado ao Coló de Miro, que cedeu lugar para enterrar o pobre negro como agradecimento pelos serviços que Simãozinho lhe prestou em vida.

O lugar em que Simão passou a descansar sob sete palmos de terra foi marcado, à época, por uma modesta cruz de madeira. Sua esposa, uma mulher negra de nome Maria, mais conhecida como “Maria do Simão”, é sepultada no Cemitério da Localidade Brejinho.

Depois de morto Simão, em pouco tempo, passou a ser visto na região da Fazenda Cruzeiro um potro preto muito bonito, de pelo escuro e sedoso. Junto a ele eram sempre vistos uma série de animais desconhecidos que ninguém conseguia identificar a espécie. O tal potro emitia um relincho que soava bem diferente do dos outros animais. Era uma coisa bem estranha, mas também muito bonita de se ver. As reações eram as mais adversas, oscilando do espanto e do medo à admiração da belezura das aparições.

Logo as pessoas passaram a associar tais ocorrências ao espírito de Simão, que, como se viu, em vida, realizava rituais de magia e cura, era excelente vaqueiro e sabia atrair os animais. Diziam que como era uma pessoa pura, livre de maldades, que não se irritava com nada e gostava de ajudar aos outros, havia virado uma alma milagrosa e a presença inexplicável das criaturas mágicas era um sinal disso.

Em pouco tempo, as pessoas começaram a recorrer à alma milagrosa de Simão em momentos de aflição, buscando sua intervenção para ajudar a resolver problemas que pareciam sem solução. Assim, pediam a ajuda de Simão, prometendo-lhe velas, orações e foguetórios aos pés de seu túmulo. Ao que consta, todos que a ele recorrem, vêem-se abençoados por suas graças milagrosas.

Os problemas que Simão passou a resolver iam desde conflitos, curas físicas e emocionais a encontrar objetos e animais perdidos. Como agradecimento, as pessoas, cumprem com o prometido, acendendo velas em seu túmulo, soltando foguetes ali, e orando por sua alma. Há quem deposite ao pé de seu túmulo objetos como garrafas cheias d’água ou cachaça e chinelos, um tipo de ex-votos ali deixados como sinal dos milagres recebidos, para que todos saibam o quanto o espírito do velho negro é poderoso. Por vezes, os líquidos das garrafas desaparecem misteriosamente, como se houvesse sido bebido por uma força invisível.

O senhor Virgílio de Lira, conhecido por Dico, residente na Localidade Bacuri, conta que Simãozinho é, de fato, uma alma muito milagrosa. Ele próprio, já alega ter encontrado animal perdido há cinco anos, e depois de apelar a Simãozinho, o bicho apareceu com cerca de 15 (quinze) dias sem nenhum mal sofrido.

A sua esposa, Maria de Fátima Lemos, conta que uma vez uma vaca grávida estava em complicado processo de parto e pediu a Simãozinho que ajudasse que tudo corresse bem, e a partir daí o bezerro nasceu sem nenhuma complicação.

Contaram ainda que, em tempos mais recentes, um conhecido fez uma promessa para que Simãozinho ajudasse a encontrar a moto recém-comprada por seu filho, que havia sido tomada em um assalto. Com oito dias, o veículo apareceu como que por magia, estacionado à frente do comércio de um parente, em Teresina.

O túmulo de Simãozinho, inclusive, foi construído com tijolos recobertos por cimentos por uma devota que morava na região cerca de 30 a 40 anos atrás, em agradecimento a uma graça obtida.

53781514_364894010765935_3006025688957321216_nSão muitos os relatos de milagres realizados por Simãozinho, de modo que os casos aqui narrados são meramente ilustrativos, mas, nem de longe, se aproximam da quantidade de pedidos atendidos pela alma do negro. Ao que dizem, todo mundo  que recorre a ele tem seu pedido valido. E olhe que já foram muitos os que pediram…

No mais das vezes, a maioria dos fiéis, ao ver seu pedido atendido, percebe nas proximidades um belo potro negro. Acredita-se que seja o mesmo potro mágico que as pessoas associam a Simãozinho desde os primeiros dias depois de sua morte. Quando as pessoas não cumprem com o prometido, ao que dizem, a graça concedida é desfeita, de modo que doenças retornam e objetos que haviam aparecido tornam a desaparecer.

Todos os contemporâneos do negro Simão, estão hoje mortos e enterrados, mas o nome de Simãozinho continua vivo, geração após geração, atestando que existem pessoas que marcam a história de um lugar de tal modo, que continuam a fazê-lo depois de mortas.

Até parece que o velho negro sabido que ele só se recusa a, mesmo morto, deixar de ajudar a sua gente tão sofrida, de modo que, até hoje, gente de Teresina, Altos, Alto Longá, Coivaras, Beneditinos e Pau D’Arco, dentre outras cidades, procuram a região do Bacuri, em Alto Longá (zona fronteiriça com a Localidade Cruzeiro, Coivaras) para requerer a intercessão da alma milagrosa do pobre negro que um dia foi conhecido por todos como Simãozinho do Cruzeiro, uma dessas pessoas únicas que deixou a existência mortal para virar lenda entre o povo da sua região.

TEXTO E FOTOS: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

FONTES:

ABREU, João Batista de. Entrevista a José Gil Barbosa Terceiro. Coivaras (Localidade Cruzeiro), março de 2019.

COSTA, Itamar. A saga fascinante de Antonio Rodrigues de Abreu. Meio Norte, 06 jul. 2014. Disponível em: <https://www.meionorte.com/blogs/josefortes/a-saga-fascinante-de-antonio-rodrigues-de-abreu-seu-delegado-por-dr-itamar-costa-301223&gt;. Acesso em 09 março de 2019.

LEMOS, Maria de Fátima. Entrevista a José Gil Barbosa Terceiro. Alto Longá (Localidade Bacuri), março de 2019.

LIRA, Virgílio de. Entrevista a José Gil Barbosa Terceiro. Alto Longá (Localidade Bacuri), março de 2019.

NEVES, Maria das. Entrevista a José Gil Barbosa Terceiro. Coivaras (Localidade Cruzeiro), março de 2019.

SILVA, Raimundo Vieira da. Entrevista a José Gil Barbosa Terceiro. Coivaras (Localidade Cruzeiro), março de 2019.

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