MENINA LULU, A SANTA VIRGEM DO MORRO DO SÃO ROBERTO

(Localidade São Roberto, Pau  D’Arco do Piauí – PI)

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Há muitos anos atrás, lá no início do Século XX, havia um grande proprietário de terras. Seu nome era Francisco de Assis Almendra (1889-1975), da família dos Almendra, mas era mais conhecido, pelo  apelido de Nena. As suas terras eram conhecidas como Fazenda São Roberto, naquele tempo muito maior que o lugar que leva o mesmo nome hoje, pois compreendia as áreas hoje pertencentes à Estaca Zero, entre Altos e Beneditinos, e abrangiam ainda a região da Localidade São Roberto,  em Pau D’Arco do Piauí, onde ainda há uma Fazenda que leva o nome de São Roberto, pertencente a descendentes do homem, mas muito menor que naqueles idos, embora ainda conserve alguma grandeza.

Sua esposa era Cezárea Sepúlveda Almendra (Dona Doninha). De sua prole numerosa posso citar os filhos: Antonio Sepúlveda Almendra (conhecido como Antonio Senhor), Domiciliano Sepúlveda Almendra (conhecido como Santo), João Pedro Sepúlveda Almendra, Aldenora Almendra, Amanda Almendra, Oscar Sepúlveda Almendra, Vilma Sepúlveda Almendra. Tanto ele, quanto sua esposa, como os filhos do casal, já faleceram todos.

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Lápide do túmulo de Nena no Cemitério da Localidade São Roberto. Foto: Louvercy Rodrigues Almendra

Era o Velho Nena um homem muito rico, mas também muito caridoso, e tanto ele como seus filhos ajudavam muito os moradores de suas terras. Havia herdado todas as terras da família, que lhe foram deixadas por sua mãe Filomena Amada do Amor Divino Almendra (conhecida como Dona Santinha), que já morreu viúva, repassando ao filho as terras que havia adquirido com seu falecido companheiro. Ao que contam, Dona Filomena até tinha tido uma outra filha, Luzia Almendra (Lulu), irmã de Nena, mas ela havia falecido bem jovem, aos 11 anos de idade, sem deixar filhos, razão pela qual o Nena foi o único herdeiro de seus pais. Ao que contam, a menina Lulu, foi vítima de grave tuberculose.

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Quadro com retrato desenhado de Nena. Foto cedida por Louvercy Rodrigues Almendra.

Naquela época, a tuberculose era uma doença fatal. Foi responsável por muitas mortes ao longo da história. Tuberculosos célebres que figuram nas principais enciclopédias são: 16 reis e imperadores, duas rainhas, 53 com titulagem de nobreza, 101 escritores, 110 poetas, 40 cientistas, 8 filósofos, 16 músicos, 9 pintores e 9 santos católicos. Os sintomas são muitos: tosse, com ou sem secreção, que pode ser espessa ou sanguinolenta;  Cansa-ço excessivo; Falta de ar; Febre baixa, mais comum à tarde;  Sudorese noturna; Falta de apetite; Perda de peso e Rouquidão.

Os primeiros medicamentos tuberculostáticos só chegariam ao Brasil a partir da década de 1950. Antes disso, foram usadas diversas terapias para tratar a doença. Um dos métodos mais receitados à época que Lulu Almendra adoeceu era a frequência do doente a lugares altos, pois com o ar mais rarefeito, a doença, que precisa de oxigênio para proliferar, muitas vezes acabava cedendo.

Acredito que, morando na região, muitas vezes subiu no Morro do São Roberto, buscando deter o avanço da doença. Se não foi assim, ao menos conheciam o lugar. O topo do morro, ao que dizem, é todo planinho e na época não tinha muita vegetação. Ali tinha ar puro pra respirar e uma bela vista: verde pra todo lado, pássaros revoando ao redor, e acima o azul do céu. Um local encantador, mais pertinho do céu que o resto da terra em seu redor.

O certo é que a beira da morte, muito tísica e doentinha, tossindo, escarrando sangue, com a voz muito  fraquinha, pediu à sua família que lhe enterrasse ali em cima do Morro. Morreu virgens, sem nunca conhecer o pecado da carne. Após o velório, enterraram-na no topo do morro. Acima da cova apenas um montinho da terra cavada. Para indicar que ali foi enterrada uma cristã, fixaram no topo do morro um enorme cruzeiro de madeira, que dava pra ver de longe.

Com o tempo, as pessoas da região passaram a considerá-la uma almas santas por ter morrido tão jovem, virgem e em situação tão penosa. Ademais, era gente de bem e muito religiosas. Devota fiel de Nosso Senhor Jesus Cristo. O certo é que pra ela preces e promessas foram sendo realizadas e pouco a pouco muitas graças foram sendo alcançadas.

Minha sogra Alzira Soares de Sena, residente no Bairro Santo Antonio, em Altos, Piauí, se criou na região da Localidade São Roberto, onde sua mãe, Dona Inês, morou por muitos anos, bem em frente ao tal morro. Disse-me que, quando criança, de uma queda ficou doente. Inês, sua mãe, prometeu que se a filha melhorasse acenderia velas para as almas do morro e rezaria um terço. Logo Alzira melhorou, e, assim fez Dona Inês. Muita gente por ali faz promessa visando saúde. Acredita-se que a moça proteja os enfermos.

Contou-me ainda que, já casada com meu sogro, Luiz Bispo de Sena, voltou, depois de muita andança, a morar com Dona Inês, levando consigo, além do marido, os filhos já nascidos, vivendo nessa época, ali, por 3 anos. Segundo ela me conta, o movimento de fiéis nessa época já era mais intenso. As pessoas constantemente acendiam velas, rezavam terços e soltavam foguetes em agradecimento às graças concedidas pela alma de Lulu. Com os disparos de fogos ao céu, o povo podia saber que era mais uma graça alcançada.

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Alzira Soares de Sena e Luiz Bispo de Sena. Foto: José Gil Barbosa Terceiro

Foi nessa época que seu marido Luiz perdeu um cavalo que solto para pastar havia se embrenhado nas matas do São Roberto. Depois de muitos dias, procurando sem sucesso, apelou então às almas do Morro. Minutos depois da prece efetuada, o cavalo se fez ouvir relinchar no topo da elevação, onde é enterrada a menina. Como moravam em frente, logo viram o cavalo lá em cima. Foi preciso uns  dez homens para descer o animal, que já estava muito fraco de fome e sede. Em agradecimento, Luiz acendeu velas pras moças no alto do morro, onde rezou um terço e soltou alguns foguetes.

Foi somente nessa época que Alzira subiu ao morro. Quando solteira, embora morasse em frente, sua mãe Inês jamais deixava. Temia que a filha pudesse perturbar o sossego das almas. Dona Alzira me contou que o caminho para subir ao morro, todo ele até o topo, era cercado por grandes lajes pintadas de branco, marcando o roteiro que devia ser seguido por fiéis e familiares que queriam visitar  o lugar onde Lulu foi sepultada.

Dona Gina Soares,  76 anos, irmã de Alzira, residente na Localidade Estaca Zero (zona rural de Coivaras), diz que já se apegou diversas vezes com a alma milagrosa do São Roberto e toda vez que recorre a ela, é sempre valida. No entanto, não quis dizer o que foi  que pediu. Acredita veementemente que o assunto é entre ela e a alma da moça e não deve ser revelado.

Socorro Pinho, viúva de Mateus Alves do Nascimento (Mateus Sibra), residente no São Roberto há mais de 40 (quarenta) anos, onde foi morar após o casamento, contou-me que a almas de Lulu, de fato, é muito milagrosas. Fez uma promessa para ela e foi valida em seu pedido. Havia pegado uma criança para criar e esta, após cair em seus cuidados, ficou doente, de modo que percebendo que o pequeno sentia falta da mãe, fez a promessa à finada para que a genitora do infante aceitasse o menino de volta para o bem da criança, e no outro dia a mãe foi buscar o filho em sua casa.

Reza a lenda ainda que como a família do velho Nena era muito rico, Lulu foi sepultada com todos os seus pertences, levando consigo a parte do patrimônio familiar a que fazia jus, de modo que ali tinham moedas, jóias, ouro e prata. Por muito tempo o tesouro de Lulu lhe fez companhia na sepultura, até que um dia, durante os eventos dos Festejos do Castelete, tempos atrás, uma homem, hoje falecido, cavou a sepultura e da terra colheu todas as riquezas. De repente, apareceu rico, comprou terras e gado, e viveu com muito conforto seus últimos dias. Não quiseram me dizer o nome do homem que se apropriou do tesouro, mas ao que consta, seus herdeiros ainda vivem na região.

Existem outras histórias entre a gente que mora por ali. A devoção popular a Lulu, todavia, é mais celebrada pelos mais velhos. Até os anos 1980, viam-se velas acesas lá em cima e os moradores da região  tinham cuidado para que animais não fossem causar lá danos.

Hoje em dia, contudo, não se vê mais, de baixo, o velho cruzeiro, onde se praticavam os rituais de fé. Acredita-se que tenha cedido à ação do tempo. Os mais jovens não se lembram, poucos conhecem a história, mas aqueles com mais de três décadas conhecem todos, ainda que vagamente, a história da pobre Lulu, a alma milagrosa do morro do São Roberto.

TEXTO E FOTOS: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

FONTE:

3 comentários em “MENINA LULU, A SANTA VIRGEM DO MORRO DO SÃO ROBERTO

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  1. Sou filho de Amanda Sepúlveda Almendra (nome de solteira) ou Amanda Almendra Correia Lima (nome de casada), Filha de Francisco de Assis Almendra (Vô Nena) e Cezária Sepúlveda Almendra (Vó Doninha).
    Desejo saber o nome completo do pai do meu avô Nena e os nomes completos da minha avó Doninha.
    Alguém sabe informar?

    Curtir

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