FINADO MARIANO

(Localidade Cruzeiro, Coivaras – PI)

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Foto de Mariano ainda vivo. Créditos: Arquivo de família

Mariano Vieira da Silva nasceu em 02 de Fevereiro de 1942, sendo filho do casal Manoel Lourenço da Silva e Josefa Vieira da Silva, sendo natural da cidade de Altos, Piauí. Sua família é ainda hoje estabelecida na Localidade rural Cruzeiro, antes Altos, hoje pertencente a Coivaras – Piauí. Foi ali que Mariano se criou e viveu até o fim dos seus dias.

Nasceu ele com um certo grau de retardo mental, de modo que, mesmo homem feito, agia como uma criança. Era querido por todos que o conheciam, inclusive por Antonio Rodrigues de Abreu, que foi Delegado Distrital (subdelegado de polícia) em Altos e proprietário da Fazenda Cruzeiro, que deu nome ao lugar em que morava Mariano. Outra figura ilustre da história altoense que tinha enorme carinho por Mariano era o líder político José Barbosa (Dr. Maninho), que sempre que ia ao Cruzeiro, lhe levava como presente cigarros. Gostava muito de frequentar a casa do Senhor Luiz Antonio, onde passava dias. Se afeiçoava facilmente às pessoas, bem como estas a ele.

Ao que cantam Mariano tinha enorme carinho por toda espécie de animal, e vivia a passear pela região da Localidade Cruzeiro, admirando a natureza como só uma mente que preserva a inocência infantil consegue fazer. Gostava de andar bem arrumado, tanto quanto podia, por vezes usando chapéu, e com uma faquinha que sempre levava consigo, não para fazer mal a ninguém, mas para utilizar com fins mais puros, como por exemplo, na colheita de frutos das árvores da região.

Catava tudo que achava à sua frente sem dono, gostava de colecionar objetos como facas, chapéus, pentes, etc. Quando chegava em uma festa se animava todo e começava a dançar sozinho, pois como não achava par, não ia deixar de aproveitar.

Para além do retardo mental, a educação escolar na região, àquela época, era escassa, de modo que Mariano nunca aprendeu a ler ou escrever. Também não trabalhava, passava a vida a passear, conversar e admirar as belezas da vida. Apesar de todas as suas limitações, ao que dizem, não raras vezes demonstrava uma certa sabedoria, talvez obtida na escola da vida.

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Um sábado pela manhã, aproximadamente em fins dos anos 1990 ou início dos anos 2000, Mariano saiu para passear como de costume. Perdeu-se então na mata, na região do Cruzeiro, e ficou andando por largo tempo, de um lado para o outro, sem saber voltar para casa. Ainda teria pedido abrigo, água e comida em uma casa, mas recusaram-lhe o pedido, de modo que os moradores da residência, mandaram que ele procurasse voltar para o seu próprio lar. Com essa atitude, selaram o destino do pobre homem. Mariano morreu perdido sem nunca conseguir voltar pra casa.

O corpo só foi encontrado na segunda-feira. Já estava em avançado estado de putrefação, de modo que a pele estava totalmente preta, e, ao menor contato se soltava e pedaços de sua carne se partiam. Assim, nem tiveram condições de levá-lo do lugar onde morreu para um cemitério. Foi enterrado ali mesmo, enrolado em uma rede.

Depois, colocaram uma cruz no lugar onde foi sepultado. Com o tempo, os moradores do Cruzeiro, bem como de regiões vizinhas, o elevaram à condição de mártir milagroso. Com a morte sofrida, Mariano teria sido purificado dos poucos pecados que tinha em sua inocente existência. Assim, poderia interceder em favor das pessoas junto a Deus, para que fossem agraciadas com milagres em situações de aflição, doença e necessidade, de modo que o muitas pessoas já teriam se apegado a sua alma, com o fim de obter graças.

FB_IMG_15550355472222216Como ele morreu perdido, dizem que Mariano seria especialista em encontrar objetos furtados, roubados ou desaparecidos. Uma moça de nome Fátima, residente em Pau D’Arco do Piauí teria prometido a Mariano que se a moto de sua irmã, que havia sido roubada, aparecesse, acenderia velas, rezaria terços e soltaria foguetes para Mariano

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Victor Vieira, sobrinho neto de Mariano, no túmulo do finado

Em pouco tempo amãe do ladrão ligou para a irmã da promitente, a quem o veículo pertencia, dizendo-lhe que fosse pegar a moto em determinado local de Pau D’Arco. As duas moças ainda ficaram com medo de que pudessem correr algum perigo e pediram para ser acompanhadas por um policial, mas, chegando no local indicado, lá estava a mulher que lhe havia telefonado, entregando o veículo e a chave para a proprietária. Fátima, então, foi ao túmulo de Mariano, agradecer-lhe, junto com a irmã, na forma prometida.

Mariano também teria sido o responsável pelo achamento do carro de um genro de Kim Rodrigues, que havia sido furtado. O próprio Kim, no caso, foi quem se apegou com o finado, cumprindo também a promessa depois que o veículo foi encontrado.

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Eu ladeado por Maria das Neves e Raimundo Vieira, irmãos de Mariano

São muitas histórias e os devotos de Mariano. Muitos deles vêm de Pau D’Arco do Piauí, ou de localidades vizinhas ao Cruzeiro, na zona rural de Coivaras, mas Mariano já socorreu também pessoas de municípios como Teresina, Altos, Beneditinos e Alto Longá, de modo que Mariano já é consagrado como Santo por toda a gente.

Inclusive foi em Pau D’Arco, e não no Cruzeiro, a primeira vez que ouvi falar de Mariano. Procurava histórias na região, ao que me foi recomendado procurar na localidade Cruzeiro, em Coivaras, Dona Maria das Neves e Raimundo Vieira, irmãos de Mariano, que foram os que me contaram, de forma detalhada, a história do pobre homem de mente infantil que, depois de morto, fazia milagres, e, ao que se sabe, continua a fazê-los.

FONTE:

COSTA, Itamar. A saga fascinante de Antonio Rodrigues de Abreu. Meio Norte, 06 jul. 2014. Disponível em: <https://www.meionorte.com/blogs/josefortes/a-saga-fascinante-de-antonio-rodrigues-de-abreu-seu-delegado-por-dr-itamar-costa-301223&gt;. Acesso em 09 março de 2019.

NEVES, Maria das. Entrevista a José Gil Barbosa Terceiro. Coivaras (Localidade Cruzeiro), março de 2019.

SILVA, Raimundo Vieira da. Entrevista a José Gil Barbosa Terceiro. Coivaras (Localidade Cruzeiro), março de 2019.

VIEIRA, Vitor. Entrevista a José Gil Barbosa Terceiro. Coivaras (Localidade Cruzeiro), março de 2019.

TEXTO E FOTOS: JOSÉ GIL BARBOSA  TERCEIRO

 

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