A LENDA DO SANGUE

 

(POVOADO SANGUE, ZONA RURAL DE URUÇUÍ – PIAUÍ)

riacho do sangue

Na zona rural de Uruçuí existe um Povoado chamado Sangue, perto de onde passa um Riacho que também leva o nome de Sangue. Ali, as pessoas sobrevivem, basicamente, da agricultura familiar, onde plantam roças de arroz, feijão, milho, mandioca, macaxeira, etc. É um povoado muito simples, que conta com apenas uma escola básica e um posto de saúde, ambos atendendo precariamente à população do lugarejo.

Ali conta-se uma história interessante sobre a origem do nome “Sangue”, dado ao povoado e ao Riacho. Muitos anos atrás, na época da colonização do Piauí, desbravadores europeus, propriamente portugueses, exploravam a região, onde viviam muitos índios.

Os exploradores viam nos indígenas uma alternativa de mão de obra escrava, que poderia ser mais barato que trazer negros da África, pois haviam muitos índios em abundância. Assim, começaram a perseguir os nativos que habitavam o Sul das Terras Piauienses antes de sua chegada, tentando escravizá-los e submetê-los a um processo de aculturação, onde impunham sua cultura e sua fé aos índios.

Os índios do Piauí, contudo, eram muito bravos, e jamais se entregariam sem luta. Assim, houveram vários conflitos. Por vezes, os índios fugiam, mas os portugueses se embrenhavam na mata atrás deles. Foi nessa andança atrás dos índios que os portugueses começaram a fundar fazendas de criação de gado, que mais tarde dariam origem a cidades como Oeiras, Amarante, Jerumenha e Bertolínia.

Um dia, chegaram à região de Uruçui, mais propriamente às margens de uma lagoa afluente do Riacho que hoje leva o nome de Sangue (e que na época era conhecido como Riacho da Água Fria). Ali estavam acampados muitos índios, que percebendo a chegada dos portugueses resolveram fugir. Os portugueses perceberam as pegadas dos índios no chão e seguiram o seu rastro. Depois de andarem cerca de 1000 metros, chegaram a uma tribo cheia de ocas, onde moravam os índios do lugar. Ali houve um grande conflito e os índios, apesar de lutarem bravamente, foram massacrados. Da tribo inteira sobrou apenas uma criança indígena, uma menina assustada que foi levada pelos portugueses.

O nome dado pelos europeus à sobrevivente do massacre foi Maria Simplícia, e esta, mais tarde, foi responsável por espalhar para a posteridade a história do massacre de seu povo, que lavou de Sangue o solo e deixou vermelhas as águas do Riacho naquela região, razão pela qual passaram a chamar o lugar e o Riacho de “Sangue”.

Dizem que às margens do riacho, onde ficava a aldeia, existe um cemitério indígena, onde, até hoje, repousam os valentes índios da tribo que lutou pela liberdade até a morte naquele lugar. Reza a lenda que até hoje, sempre que chovem as primeiras águas, a terra fica vermelha, de tanto sangue índio que penetrou naquele solo, deixando, novamente, as águas do Riacho vermelhas.

Hoje, o Riacho do Sangue, está contaminado por produtos agrotóxicos utilizados em larga escala nas plantações de soja na multinacional do ramo agrícola que fica ali perto, e os pescadores da região reclamam que mais uma vez, a sede por lucro e poder a qualquer custo, causam uma tragédia, pois peixes e plantas aquáticas estão morrendo, prejudicando o sustento dos que viviam da pesca.

Mas ao que dizem, as águas, bem como as matas da região, são protegidas por espíritos de bravos guerreiros indígenas que ali descansam, e, há rumores de que um dia, a tribo inteira vai se levantar de seu leito eterno, para vingar a afronta ao Riacho do Sangue.

FONTE:

BORGES, Sebastião Pereira; SANTOS, Raimundo Alves dos. Entrevista concedida a João Paulo Peixoto Costa, Ianaely Ingrid Alves e Silva, Matheus Martins Soares, Marília Gomes Coelho e Kamila Silva dos Santos. Uruçui, 6 de abril de 2017. Disponível em: <https://sites.ifpi.edu.br/ahoru/?p=134>. Acesso em 15 de maio de 2019.

<https://www.youtube.com/watch?v=W3O3BK_UqzM>

<https://www.youtube.com/watch?v=YXRsdUUv9kQ>

 

TEXTO: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

 

 

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