O PIAGA ALADO

(Sete Cidades (Piracuruca) e Serra da Capivara (São Raimundo Nonato))

piaga alado3

Pinturas rupestres deixadas por antigos moradores das terras piauienses, datadas de milênios antes do nascimento de Cristo, apresentam a estranha figura de um ser que, por muito tempo, pessoas de mente pequena acreditaram ser o diabo.

Acredita-se que nessa época um ramo da cultura megalítica tenha conseguido atravessar o oceano atlântico chegando ao Brasil e se situando nas terras que, um dia, viriam a ser o Piauí. Portadores de uma religião diferenciada, se instalaram nessas terras, convivendo pacificamente com os indígenas que aqui viviam. Donos de avançada bagagem cultural e de técnicas modernas, cultuavam o sol e acredita-se que submeteram culturalmente alguns nativos Tapuios e Tupis para que os mesmos servissem como auxiliares, inclusive nos cultos religiosos solares.  Teriam ensinado a eles as técnicas de simbologia rupestre que mais tarde seria prática comum entre nossos primitivos habitantes.

Nessa época, os pajés eram as figuras centrais daquela sociedade antiga, bem como os guardiões das antigas técnicas de escrita indígena. Foram eles os responsáveis pelos painéis de pinturas rupestres em que estão registrados, principalmente, dados astronômicos e da liturgia solar, além de fórmulas da farmacopeia sacerdotal, dados topográficos, calendários, antropônimos, anotações tribais, obituários, etc.

Algumas das pinturas rupestres apresentam, em São Raimundo Nonato e em Sete Cidades, a figura que hoje os adeptos do Paganismo Piaga (religião politeísta piauiense) chamam de Piaga Alado.

Em seu livro “Mistérios do Brasil”, Paulo Villarubia Mauso comenta:
“O desenho do que parece ser um homem alado e com chifres seria também de origem europeia, ao qual Mahieu chama de diabo. A roda solar, o esboço de uma suástica, os martelos de Thor e os dracares mostraria a natureza escandinava de algumas pinturas. Uma cruz mostra abaixo uma figura que ele identifica como a serpente do mundo, que também aparece representada com frequência nas estrelas e cruzes do período viking.” (MAUSO. P. 188)

Discordâncias à parte, o fato é que as terras do Piauí já foram habitadas por povos indígenas, que tinham sacerdotes chamados de pajés ou piagas, homens que, por sua sabedoria, exerciam papel de influência naquela sociedade, sendo os responsáveis, como se viu, pelo culto religioso e pelos registros na forma de inscrições rupestres. Ressalta Rafael Noleto que

“Esse tipo de escrita seria aquela em que determinado sinal representa aquilo  que realmente é (pictograma), podendo simbolizar também um fato ou uma ideia (ideograma). Nesse caso, o pictograma representado por um desenho simples de um sol pode significar exatamente o sol. Por sua vez, o ideograma representado pelo mesmo sol pode abrigar acepções diversas, tais como o calor, ou dia, ou luz, ou culto solar, ou o povo do culto solar, etc.” (NOLÊTO, 2013).

Assim, o que já chamaram de homem alado, ou até de “diabo”, seria na verdade a representação pictográfica de um pajé alado. Rafael Noleto conclui que “O que alguns consideram chifres, seriam duas penas destacadas de seu cocar sacerdotal, adorno utilizado até hoje em muitas etnias indígenas” (NOLETO, 2019).

Os ritos religiosos dos antigos piagas eram repletos de práticas xamânicas, onde o Pajé (ou Piaga) acessava o mundo dos Deuses e dos espíritos durante ritos, para, em seguida, partilhar revelações e conhecimentos adquiridos de forma mística com os demais membros da aldeia.

Em seu livro  Enigmas de Sete Cidades Reinaldo Coutinho externa uma conclusão no sentido de “Que os pajés eram as figuras centrais e depositárias das antigas escritas indígenas de Sete Cidades, podemos afirmar pelo fato de haver, em algumas pinturas rupestres do Parque, as figuras destes sacerdotes em atitudes rituais” (COUTINHO, 1997).

Eram, assim, os piagas, considerados quase deuses, um elo de ligação entre os seres divinos e os homens, detentores de conhecimentos sobre segredos que mais ninguém conhecia, sobre tudo e todos, quase oniscientes. Eram assim sábios que sempre eram consultados, e como tal ocupavam posição de respeito, chegando a receber, por vezes, devoção por parte dos demais nativos primitivos das terras piauienses.

PIAGA ALADO

Dessa forma, o Piaga Alado é o pajé ancestral divinizado, uma das principais divindades cultuadas por esses povos antigos, como se pode verificar claramente em inscrições rupestres encontradas em Sete Cidades e São Raimundo Nonato. Em tempos atuais, o neopaganismo piaga consiste em uma tentativa de resgate da herança deixada por nossos ancestrais, admitindo a figura do Piaga Alado como entidade de destaque, por atuar como revelador da sabedoria ancestral perdida com o passar dos anos.

O Piaga Alado, contudo, aproxima-se apenas daqueles que reconhecem seu papel sagrado. Segundo Rafael Noleto, organizador do novo Paganismo Piaga,

“Para cada um que o consegue sentir, Ele vai revelando os mistérios piagas, a magia e a beleza que há em redescobrir nossa história. Por onde passa, vai quebrando a dormência das sementes, despertando-as para que seja possível replantar uma ‘floresta’ de esperança, amor, autoconhecimento e magia. O efeito dessa magnética presença divina reúne seus filhos, por mais que estejam em “galhos” diferentes. Quando se reconhece uma causa maior, todas as folhas se unem em um mesmo galho, fortalecendo o eixo da magia ancestral, num processo de harmonização entre a Terra, o Fogo, a Água, o Ar e o Espírito.” (NOLÊTO, 2015).

Assume assim, o Piaga Alado, em dias atuais, o papel de uma divindade guardiã da ancestralidade, do Sol, do culto piaga, dos rituais e dos conhecimentos ocultos. Geralmente é honrado com cânticos, orações e oferendas. Na magia está associado à sabedoria, à cura, à inteligência e à energia vital.

Referências Bibliográficas:
– COUTINHO, Reinaldo. Enigmas de Sete Cidades. Piripiri, PI, 1997.
– MAHIEU, Jacques de. Os Vikings no Brasil. Ed. Francisco Alves, 1976.
– MAUSO, Pabro Villarrubia. Mistérios do Brasil. São Paulo: Ed. Mercuryo, 1997.
– NOLÊTO, Rafael. Mitologia Piaga: Deuses, Encantados, Espíritos e outros Seres Lendários do Piauí. Teresina: Clube de Autores, 2019.
– NOLÊTO, Rafael. Piaga Alado: Quem é Ele? Piauí Pagão, 19 de novembro de 2013. Disponível em: <http://piauipagao.blogspot.com/2013/11/piaga-alado-quem-e-ele.html>. Acesso em 17 de maio de 2019.
– NOLÊTO, Rafael. Vila Pagã: Uma semente de Magia no coração do Piauí. Paganismo Piaga, Facebook, 6 de novembro de 2015. Disponível em <https://www.facebook.com/PaganismoPiaga/posts/o-piaga-alado-divindade-guardi%C3%A3-do-conhecimento-ancestral-de-nossa-terra-aproxim/946408178772873/>. Acesso em 17 de maio de 2019.
– SCHWENNHAGEN, Ludwig. Antiga História do Brasil: de 1100 a c a 1500 dc. Editora do Conhecimento, 2008.

 

 

TEXTO: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

ILUSTRAÇÕES (FOTOS E DESENHOS): RAFAEL NOLÊTO

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