FESTA MACABRA?

(Altos – Piauí)

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Em 1996, Altos era uma pequena cidade, com pouco mais de 38 mil habitantes, que pouco lembra a capital da manga em dias atuais. As pessoas ainda tinham o costume de sentar à porta de casa à noite para conversar com familiares e amigos, as crianças brincavam nas ruas, mesmo nas mais movimentadas, o trânsito era mais tranquilo, o comércio era modesto, sem grandes grupos empresariais, e havia apenas uma agência bancária.

Aparelhos de telefone celular eram raros, ainda imensos em tamanho, ao ponto de serem chamados “tijolões’ e sem as modernidades de hoje em dia. Tudo que faziam era ligar, como qualquer telefone de então. Não haviam DVD’s, Blu-Rays… O que se usavam eram aparelhos de vídeo cassete, e poucos tinham acesso. As tvs eram de tubo e os aparelhos de som, apesar do recentíssimo surgimento dos CDs, ainda vinham como os toca-discos LP, bem como com players de fitas K7. A internet era discada e pouca gente tinha acesso, sendo ainda uma coisa bem limitada.

Não haviam motéis na cidade, sendo comum que os casais se aventurassem à noite em ruas escuras, casas abandonadas ou mesmo em estradas rurais ou riachos como o banho chamado Santa Luzia, onde muitos iam namorar. Mas não tinham tanto com o que se preocupar. A cidade pouco conhecia a violência: não se ouvia falar em drogas (à exceção de loló e maconha), assaltos, homicídios, ao menos não na proporção em que conhecemos hoje.

Mesmo com ares tão provincianos, já nessa época, até mais que hoje, a pequena Altos era uma cidade muito festeira. Começava com o carnaval. Acho que foi nesse ano que surgiram os primeiros blocos nos moldes que foram importados dos baianos para todo o Brasil, com abadá e coisas do tipo. Ainda lembro o nome do bloco: Axé Bahia. Antes disso, só haviam os famosos blocos de sujos, como o famoso Bloco das Virgens, com foliões fazendo a festa vestidos de mulher por toda  cidade. Até hoje, o desfile de blocos é muito animado no carnaval altoense. Em março, os famosos festejos religiosos de São José, com as novenas, as barraquinhas onde se vendem comes e bebes, o parque de diversões, as festas… Em seguida, a Semana Santa, onde, ao fim depois dos dias santos, eram comuns, até mais que hoje, festas no interior (zonas rurais) com a presença massiva dos altoenses. Em junho haviam as festas juninas, com a apresentação de números grupos de danças típicas. Em setembro, o famoso show da Rádio São José dos Altos, com atrações artísticas de renome nacional. Outubro se festeja o aniversário da cidade. Nos períodos chuvosos banhos como os Tucuns, Três Carnaúbas, Santa Luzia, e outros atraíam banhistas. No resto do ano, todo final de semana, era comum festas nos clubes espalhados nos quatro cantos da cidade: Céu na Terra, Pedrinho, Som Baile, Altos Brilhos, Sandango, etc. Barzinhos e trailers muito animados alimentavam o clima festivo. Isso para não mencionar as festas de colégio, como os famosos bailes estudantis no Ginásio Pio XII. Posso até estar me esquecendo de algo, pois de fato naquele tempo havia muita opção quando o assunto era lazer.

Mesmo com tantas opções, naquele ano, a cidade de Altos vivenciou uma festa diferente das demais, que atraiu a atenção do povo e da mídia de então, como poucas festas haviam conseguido. Trata-se de uma festança promovida por particulares dentro do Cemitério São José, o maior e mais central cemitério da cidade.Por muito tempo, só se falou nela. O jornal “O Altoense”, de Chiquinho Cazuza, a chamou de “Festa Macabra”, insinuando satanismo e coisa do tipo. A tal festa foi notícia até mesmo em um dos maiores jornais impressos do Piauí de então, merecendo grande espaço no Jornal Meio Norte. Era o assunto preferido nas rodinhas de conversas, debatida por pessoas que iam crianças assustadas, passando por jovens curiosos, adultos abismados, até velhas beatas e fuxiqueiras. As pessoas conjecturavam coisas sinistras: diziam que era coisa de góticos, macumbeiros ou adoradores do diabo, que os frequentadores haviam violado túmulos e até praticado atos de necrofagia, em rituais onde dançavam sobre a lua em rituais de magia negra, fazendo pactos com o demo.

A verdadeira história por trás da tal festa nada tem de horrendo, nefasto, satânico ou sobrenatural. Trata-se de uma história bem humana, o que fica fácil de perceber quando compreendemos que os seres humanos têm suas falhas e defeitos, e podem ser mal interpretados mesmo quando agem com a melhor das intenções.

Vou começar falando da pessoa responsável pela tal festança. Eu a conheço desde bem criança, e embora não fosse minha parente, por ser íntima da família, sempre a chamei de “Tia” Elita e seu esposo, João Ribeiro Paz, chamava de “Tio” João. Era uma forma carinhosa e respeitosa que meus pais haviam me ensinado de respeitar os mais velhos que fossem próximos da família.

Embora tenham raízes no Piauí, sendo nascidos aqui, moraram muito tempo no Distrito Federal, em cidades como Brasília e Sobradinho. Vez por outra vinham ao Piauí, com os filhos Jaqueline, Juscelino e Janaína, passando, por vezes, longos períodos, até mesmo meses ou um ano inteiro. Nessas idas e vindas entre Altos e a capital do país, chegavam sempre cheios de novidades, costumes que nem sempre eram conhecidos ou praticados por aqui. Era natural, viviam uma outra realidade, onde as coisas aconteciam com mais frequência e intensidade, em ritmo mais acelerado. Eu, de todo modo, gostava muito de quando apareciam. Tia Elita era (e ainda é) uma pessoa de mente aberta, muito alegre e festiva, pessoa de um coração enorme e mente aberta, mas por vezes tida como exótica, talvez dado às diferenças culturais da cidade grande para a Altos de então. Já o Tio João, sempre foi um sujeito respeitoso e conservador, amigo e dado a debates intelectuais. Os meninos, filhos dele, sempre foram muito gente boa, e compartilhamos muitos momentos da infância e juventude, pois sempre que vinham ao Piauí, eram como se fossem da família. Certa vez, até mesmo moraram um tempo na nossa casa em Altos, tempo em que frequentamos a mesma escola. Pra mim, eram tipo primos, mesmo não sendo.

Quem nasceu até 1985 com certeza lembra de uma novela global, transmitida em horário nobre, que fez grande sucesso no Brasil em 1992. “De Corpo e Alma”, de Glória Perez, tinha entre seus astros Yasmin (Daniela Perez), Bira (Guilherme de Pádua) e Reginaldo (Eri Johnson). Essa novela, embora tivesse uma trama muito envolvente, marcou a história da televisão brasileira por um outro motivo, que nada tinha a ver com o seu enredo ou qualquer um de seus personagens. Na vida real, Guilherme de Pádua, junto com sua então esposa Paula Tomáz, assassinaram Daniela Perez com 18 estocadas de instrumento perfuro-cortante (tesoura, faca ou punhal), antes do final da novela. O crime, sem nenhum motivo justo, foi um choque para todo o país, Guilherme e a esposa foram presos, e, embora a novela tenha continuado sem dois de seus principais protagonistas, tendo os autores que inventar um motivo para a saída dos personagens, e depois nunca mais foi reprisada.

Antes de toda essa tragédia, contudo, a novela era acompanhada todos os dias por milhões de brasileiros, que haviam aprendido a amar seus personagens, inclusive o gótico Reginaldo, um rapaz que se descobre gótico e passa a se vestir de forma a apresentar uma aparência agressiva – vestia-se de preto, usava garras nos cintos, pintava as unhas de preto, usava sombra nos olhos e tinha um penteado “sinistro” –, mas agia como um poeta do final do século, um ultrarromântico. Como todo bom poeta romântico, Reginaldo tinha como diva e musa a jovem, meiga e doce Yasmin, que só conseguia vê-lo como amigo, pois gostava mesmo era de Bira. Assim, a afeição de Reginaldo por Yasmin era externada em suas poesias. A mãe não aceitava o filho gótico e o levava a um psiquiatra afim de “curá-lo”. Ao final, o psiquiatra é quem se torna gótico, e Reginaldo um escritor de sucesso.

Através do personagem, a novela falou sobre o movimento gótico nascido na Alemanha durante a década de 70 e discutiu as contradições comportamentais dos seguidores desse movimento. Apresentou-os ao Brasil como seres humanos, portadores de emoções e bons sentimentos, para além  de qualquer aparência diferenciada. Nessa época, lembro de ter ouvido desses amigos de Brasília, que no Distrito Federal (como em outros grandes centros), mesmo antes da novela, era comum reuniões festivas de jovens góticos em cemitérios, onde iam admirar as artes góticas em túmulos, ouvir músicas góticas, declamar poesias góticas, discutir sobre filmes góticos, etc. Eram verdadeiros Saraus góticos. Depois da novela, contudo, as festinhas em cemitérios passaram a ser celebradas por jovens adeptos de outras culturas, e tornaram-se comuns as bebedeiras, drogas, músicas de outros estilos, dentre outras coisas que não eram praticadas pelos góticos. Talvez, por isso, anos depois, tenham encarado e levado à frente com tanta naturalidade a idéia de fazer uma festa no cemitério de Altos.

Apesar disso tudo, diga-se de passagem, a idéia não veio da Tia Elita, organizadora do tal empreendimento festivo. Tudo começou quando um amigo de anos, de uma família tradicional da cidade de Altos, também residente no Distrito Federal, adoeceu na capital brasileira, chegando a passar algum tempo morando com eles, até que uma filha o levasse para morar com ela, no Piauí, até o dia de seu falecimento, sendo depois enterrado no Cemitério São José.

No tempo em que conviveu com os amigos João e Elita, o homem vivia dizendo a eles que quando morresse, não queria choro e lamentação. Queria mesmo era que fizessem uma festa, para comemorar sua passagem na Terra e seu encontro com o Pai Celestial. Certa vez, fez Elita prometer que faria a festa para ele. Quando o homem morreu, Elita lembrou da promessa feita e passou a traçar planos para concretizá-la.

Quando chegou em Altos, depois de um tempo, começou a pôr o plano em prática. Convidou pessoas, contratou músicos, comprou bebidas… Alguns conhecidos até diziam para ela tirar a idéia da cabeça ou achavam que era apenas uma brincadeira dela, mas que não faria aquilo. O próprio marido, por vezes, tentou convencê-la a desistir da empreitada, mas não obteve êxito. Eu, na época um adolescente, fiquei sabendo da festa bem antes dela acontecer. No dia marcado, estive à tarde na casa em que estavam em Altos, e acompanhei de perto os preparativos finais. À tardinha, chegando em casa, comuniquei minha mãe que iria conferir a tal festa que ocorreria logo mais. Mamãe prontamente me ralhou e encheu de conselhos e orientações, pedindo que eu não fosse, mas nunca fui lá de desistir das idéias loucas que me vinham à cabeça. Eu sabia que seria uma coisa sem igual, que todos iam falar, e vi ali a chance de viver uma história que um dia eu poderia contar a meus filhos e netos.

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Na foto, Elita (responsável pela festa no cemitério) ao lado de seu marido João Ribeiro

À noite cheguei ao Cemitério, na hora marcada para o início da festa, com alguns amigos de então. Ainda tinha pouca gente quando cheguei e estavam terminando de arrumar o lugar. Haviam levado um pequeno microsystem que tocou as primeiras músicas. Depois, chegaram um sanfoneiro, zabumbeiro e um tocador de triângulo. Era o que faltava. O forró começou foi cedo. Logo, o lugar estava cheio de gente, uns por curiosidade, outros por quererem, de fato, curtir a noite.

O que parecia uma pequena festinha pra honrar o morto, logo virou uma festança enorme. Nessa noite arrumei uma paquera e namorei um pouquinho no escurinho do cemitério. As bebidas iam de sucos a cervejas, refrigerantes, vodka, montila, cachaça e coisa do tipo.

A organizadora do evento havia perdido o controle sobre o que se consumia, pois cada um que chegava trazia a sua bebida. Apesar disso, não houve qualquer depredação ou ato desrespeitoso no lugar. À exceção, é claro, da festa regada a forró e álcool, que, com exceção do lugar, era como qualquer outra festa. E bem animada, por sinal.

Ressalto que as pessoas que estavam ali não eram góticos, nem emos, nem membros de nenhum grupo satanista. Eram pessoas comuns da cidade, que movidas pela curiosidade, ou pelo espírito festivo, ou por ambos, resolveram participar do evento em homenagem ao falecido.

Lá pelas tantas, contudo, a polícia acabou com a festa. Parece que um dos parentes do morto não tinha gostado na celebração e avisou as autoridades, que expulsaram todos dali. Elita ainda tentou se explicar, mas não teve jeito. A festa tinha que acabar. Ao menos ali, porque logo em seguida Elita chamou todos para a casa em que estava, na Avenida João de Paiva, em Altos, onde a festa continuou até o raiar do sol.

No outro dia, o burburinho era geral. Aonde a gente ia, o assunto era a festa no cemitério. Eu mesmo, que fui apenas um dos muitos presentes no evento, expliquei mil vezes para amigos, familiares e conhecidos, que, tirando o fato de ter ocorrido no cemitério, havia sido uma festa normal, onde só haviam pessoas conhecidas. No entanto, as pessoas maldavam e faziam comentários que nada tinham a ver com o que ocorreu de fato. No mínimo era coisa de louco. A própria nota assinada por Chiquinho Cazuza em seu jornal não via a coisa com bons olhos. De uma forma geral, a festa foi muito mal vista. Era tida como um desrespeito aos mortos (embora a intenção, na verdade, fosse justamente honrar uma promessa a um amigo morto).

A repercussão foi tamanha que, além das mídias da imprensa piauiense, a festa foi parar na Justiça. Familiares do morto denunciaram a organizadora às autoridades, e Elita se viu processada e condenada a prestar serviços à comunidade, consistente na pintura do muro e de túmulos velhos do cemitério. Tal como a justiça ordenou que fizesse, ela fez.

Apesar do constrangimento à época, ela logo superou o ocorrido, e até hoje é uma pessoa alegre, extrovertida, de grande coração. Sempre que vem a Altos, se me chega ao meu conhecimento, os visito. Sua alegria é contagiante e adoro conversar com ela. Até hoje, contudo, ela não gosta muito de tocar no assunto da festa. Percebo a indignação por ter sido incompreendida por todos, à exceção de poucos como eu, que sabem como tudo ocorreu e suas reais intenções.

Nem todo mundo, contudo, tem o discernimento necessário para compreender o ocorrido até mesmo em dias atuais, depois de tantos anos. Volta e meia, quando conto a história a alguém, as pessoas logo dizem que, de fato, houve desrespeito aos mortos. Até entendo que pensem assim. Mas, com certeza, sei também, que não foi a intenção dela, que só queria se despedir do amigo em grande estilo, exatamente como ele pediu.

Depois disso, já nos anos 2000, houveram outras “festinhas” em cemitérios altoenses. Geralmente turminhas ou “tribos” de jovens altoenses que gostavam de curtir nesse tipo de ambiente. Nunca, contudo, nenhuma teve a mesma proporção e notoriedade.

Talvez porque esses que vieram depois o façam em menor número e, sempre, às escondidas, enquanto a festa de 1996 era uma festa pública, aos olhos de todos, sem nenhuma intenção de esconder a comemoração que se fazia ali, onde havia muita gente. Era uma coisa diferente, justamente por não ser algo de um grupinho de amigos, mas uma coisa da qual participaram muitos altoenses de então, membros de grupos distintos, embora todos conhecidos.

Com certeza, uma festa igual àquela, nunca havia acontecido, nem aconteceu depois, e sei muito bem que não vai acontecer tão cedo. É quase certo também que nenhum defunto recebeu uma despedida tão festiva quanto aquela. Ao menos não em Altos. Quem viu, viu; quem viveu, viveu; quem não viu, e nem viveu, só pode imaginar o que aconteceu naquela noite de 1996. Eu era apenas um adolescente, mas vivenciei tudo de perto, por isso peço que não maldem… A ação pode até ter sido mal interpretada, mas teve a melhor das intenções. Como alguém que lá estava, posso garantir que tudo aconteceu exatamente assim como lhes contei.

 

TEXTO: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

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