O MITO DA CARNAÚBA (SENHORA CARNAÚBA)

(MITO DOS COCAIS PIAUIENSES)

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Há muito tempo atrás vivia no norte do Piauí uma tribo que habitava uma região muito fértil, que lhes proporcionava uma vida com alimentos abundantes e muita felicidade, normalmente exacerbada em festas onde se faziam oferendas aos deuses.
Um dia, o deus sol, há muito esquecido pelos índios resolveu castigar aquele povo com uma intensa seca. Assim, o sol esquentou tanto que tornou a terra improdutiva, secou rios e matou os animais, levando a fome àquele povo.
Os índios rezavam e dançavam pedindo chuva, mas era tudo em vão. O flagelo persistiu e por várias luas a tribo viu seus filhos morrerem um a um. Os índios e animais morriam enquanto os urubus devoravam a carniça dos cadáveres. Apenas uma família sobreviveu à calamidade: um casal e um filho, que, em meio à desgraça que se abateu sobre o seu povo partiu dali em busca de um lugar melhor para viver.
Depois de seis dias e seis noites de viagem, em que se alimentaram apenas de raízes, os pais foram vencidos pelo cansaço e pela fome, e, logo, avistaram uma palmeira sozinha em meio ao planalto deserto em que se encontravam, de modo que resolveram descansar à sua sombra.
Um indiozinho era o único que permanecia acordado e já temia que seus pais não mais acordassem daquele sono como tantos outros da sua tribo. Assim, já se entregava ao desespero e clamava para que Tupã o ajudasse quando, de repente, ouviu uma voz que chamava por ele.
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– Eu me chamo carnaúba. – dizia uma índia no topo da palmeira – Como ocorreu com seu povo, a minha tribo também foi vencida pela seca e, quando morri, Tupã me transformou nessa palmeira, para proteger meus irmãos índios da fome em tempos de seca. Faz conforme te digo e você será saciado e revigorado. Pega tua machadinha e me talha, daí poderá obter minha seiva para matar tua sede. Depois corta-me e extrai de mim o meu palmito, que ele te alimentará. Cozinhando minhas raízes, obterá um remédio que curará tuas feridas. Comendo meus frutos poderá matar o resto de fome que houver sobre ti. Em seguida, pega minhas folhas e bate. Delas sairá um pó cinzento e perfumado. É minha cera. Com ela, poderá iluminar o teu caminho nas noites sem lua. Por fim, pega minhas palhas e, com elas, poderá construir uma cabana para te abrigar. Em troca, te peço somente uma coisa: planta meus coquinhos e deles nascerão outras como eu. Assim, com a madeira poderá construir uma cabana mais resistente para te abrigar e por longo tempo, além de que elas servirão para ajudar outros em tempos de seca futuros.
Assim fez o jovem índio, com a ajuda de seus pais que, após ouvirem o que lhe sucedera, lhe ajudaram na empreitada. Em pouco tempo, aquela terra árida deu lugar a um território cheio de carnaúbas, e aquela família deu origem a uma nova tribo, que por todas as gerações cultivou a carnaúba como uma árvore sagrada, que entre eles ficou conhecida como a árvore da vida.
Já velho, o pequeno índio partiu em viagem por todo o Piauí, levando consigo coquinhos de carnaúba, que saiu plantando, até o fim de seus dias, ao longo de todo o caminho por ele percorrido, espalhando a planta sagrada por todo o território piauiense.
Até hoje, a planta sagrada que se tornou símbolo do Piauí concede sustento a muitos piauienses, através da extração de cera, palha, madeira, pó, ou artesanato. A senhora Carnaúba foi cultuada ao longo dos anos pelos índios piauienses, hoje quase extintos. Seu culto sobrevive em dias atuais na Vila Pagã (José de Freitas, Piauí), onde anualmente adeptos do politeísmo piaga se reúnem para festejar as bençãos da Senhora Carnaúba e de outras divindades, na festa das palmeiras sagradas.
FONTE:
NOLETO, Rafael. A magia das Palmeiras: Divindades da Mata de Cocais. Teresina: Clube de Autores, 2018.

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