O DESASTRE: 60 ANOS DEPOIS

mar03ALTOS – PIAUÍ. 13 DE JULHO DE 1957. BR-343. Trecho compreendido entre Teresina e Altos, cerca de um quilômetro e meio desta última, aconteceu o que foi, talvez, a maior tragédia automobilística da história de Altos, e, com certeza, ainda hoje um dos maiores do Piauí. José Cândido Teixeira Viana, dirigia um FORD E-5 que saía do lugar Caranguejo (zona rural de Altos) rumo à zona urbana da cidade, onde entregaria uma carga de toras de madeira redonda que seriam usadas na construção de uma casa. Ao todo viajavam no caminhão 10 (dez) pessoas, sendo 08 (oito)  na carroceria e 02 (duas) na cabine. Ao entrar na BR 22 (atual BR 343), em sua frente vinha um ônibus horário com destino a Campo Maior, que, sendo então estrada de piçarra, levantava sobre o caminhão uma nuvem de poeira de piçarra, razão pela qual Zé Cândido, o motorista, tentou, por diversas vezes, ultrapassar o ônibus.

Chegando perto da Fazenda Buritizinho, o ônibus desce da estrada para o acostamento e Zé Cândido, compreendendo que ele abria passagem, acelera sem ver muito à sua frente por conta da nuvem de poeira, colidindo frontalmente com um ônibus da empresa Marimbá que vinha em sentido contrário. O estrondo da colisão teria sido tamanho que fora ouvido há cerca de quatro quilômetros de distância. A madeira que era transportada pelo caminhão, com o impacto, foi arremessada para a frente, o que causou a morte imediata de aproximadamente 26 pessoas. O motorista Zé Cândido ainda ficou preso nas ferragens gritando por socorro. Depois de algum tempo, após os esforços para separar as ferragens dos veículos, o cabo de aço que era utilizado para afastar as ferragens rompe e o metal se contrai ceifando de vez a sua vida, contabilizando a 27ª vítima fatal.

Os feridos foram levados ao Hospital Getúlio Vargas em Teresina, e, com o tempo, morreram mais seis pessoas, totalizando 33 vítimas fatais. Do caminhão sobreviveram dois tripulantes, ambos já falecidos: Zé Gago e Manoel. No ônibus, os poucos que sobreviveram ficaram muito machucados, tendo sido internados no hospital por dias. O acidente, à época divulgado pela grande mídia piauiense sensibilizou todo o Piauí, e todos os dias chegavam presentes no Hospital para as vítimas do Desastre, que recebiam, inclusive, doações em dinheiro.

mar04Entre os mortos, haviam pessoas de muitos municípios piauienses, eis que o ônibus da Marimbá, vinha de Parnaíba com destino à capital, tendo falecido o motorista e muitos passageiros, entre eles o prefeito de Piripiri à época, Joaquim Canuto de Melo.

Na época, o prefeito de Altos era o Dr. José Gil Barbosa (1918-2013), que providenciou que os corpos das vítimas fossem removidos para o Centro de Saúde de Altos (antigo Posto de Saúde São José), que ficava o lugar onde atualmente está erguido o Fórum de Altos. Já o corpo do prefeito de Piripiri foi levado para a prefeitura de Altos, onde foi velado por algum tempo. O corpo do Prefeito de Piripiri foi velado na Prefeitura de Altos. Os demais corpos foram levados, por parentes, para as suas respectivas cidades, enquanto os mortos de Altos foram enterrados no Cemitério local.

A reportagem do Jornal O Dia publicado na época dizia:

“A tremenda catástrofe de sábado último, na rodovia Teresina-Fortaleza, quase à saída da cidade de Altos, com o balanço cruel de mais de trinta vidas sacrificadas, e cerca de uma dezena de feridos, ecoou dolorosamente entre nós, sensibilizando a cidade inteira. […] Todos os depoimentos das testemunhas do sinistro concluem em atribuí-lo à imprudência do motorista do caminhão, que veio a ser, aliás, uma das primeiras vítimas. Tentava cortar o ônibus-horário de Campo Maior, e, cegado pela poeira, foi atirar-se contra o coletivo ‘Marimbá’, da linha Parnaíba-Teresina, que viajava na ‘mão’ própria, em sentido contrário […] um impacto brutal, que ressoou lugubremente a mais de quatro quilômetros de distância”. (Jornal O Dia, edição n° 477, de 18.07.1957. Reportagem de Petrus Mauricius)

O “Jornal do Piauí” (de Teresina), edição de 18 de julho de 1957, também divulgou matéria sobre o acidente. Carlos Dias, pesquisador altoense, fez o levantamento dos nomes das 33 vítimas do acidente:

Com certo esforço, conseguimos listar os nomes de vários falecidos. Além do motorista altoense José Cândido, proprietário do caminhão causador do acidente, faleceu o motorista do ônibus, Joaquim Gomes do Rego, mais conhecido pela alcunha de Quincas Rego (natural de Barras-PI).

As demais vítimas foram: Adalberto Lopes Camelo, Anísio Pereira da Silva, Antonio Oséas Pereira, Eliezer Guilherme de Oliveira, Francisco Nery Batista da Silva, Francisco Vieira Gomes(Chico Fumaça), Gladson Coelho de Araújo, Joaquim Canuto de Melo (Prefeito de Piripiri-PI, que estava em seu segundo mandato), João Batista Specht, João Pedro, João Porfírio Saldanha Fontenele, José Carlos Nascimento (04 anos de idade), José Ribamar Dias, Julita Carvalho, Kleber Meireles do Nascimento, Leônidas Furtado Mourão, Luís Soares, Luiz Valamiro (?), Manoel Fernandes Alvarenga, Marcela Meireles, Maria de Sousa Machado, Maria Ilka Campos, Maria Meireles do Nascimento, Maria Nazaré Meireles, Pedro Flor da Silva e Raimundo Nonato Lages.

Para a complementação da lista, recorremos à reportagem do jornal O Dia citado acima e publicado em 18 de julho, cinco dias após o acidente.

Quanto à família que teve seu fim no desventurado choque automobilístico, trata-se da morte de Maria Meireles do Nascimento e de seus três filhos: Kleber Meireles do Nascimento, com menos de sete anos, Marcela Meireles e Maria Nazaré Meireles, de 06 meses de idade. O sobrevivente foi o senhor Bernardo Nascimento, chefe da família, que escapou com vários ferimentos.

A tragédia foi tão marcante que até hoje o lugar é conhecido pelo povo da cidade de Altos como “Desastre”.

ALMAS MILAGROSAS

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Depois do acidente, foi construído um memorial no lugar em memória das vítimas que encontraram sua morte no fatídico Desastre. Ali foi erguido um monumento com o nome de algumas vítimas, bem como foram fixadas algumas cruzes. Em pouco tempo, o lugar logo foi convertido em santuário, de modo que o povo da região considera milagrosas as almas falecidas naquele dia. Afirma Carlos Dias que “A prática de devoção se difunde numa rede de crenças propagadas pelos fiéis, que por meio da memória vem sendo transmitida desde a morte trágica daquelas pessoas até o momento presente”. São inúmeros os fiéis que têm devoção pelas “almas do desastre”, a quem atribuem a graça de muitos milagres alcançados, sendo muito comum acender velas no lugar, bem como depositar ali ex-votos em agradecimento.

Fernanda Gomes de Lira e Samara Batista Viana Costa, formadas no curso de Licenciatura Plena em História pela UESPI, campus Heróis do Jenipapo, de Campo Maior, produziram o artigo “Da tragédia às almas milagrosas: a sacralização do ‘santuário das almas’ do desastre do Marimbá, em Altos-PI”, de onde se extrai o seguinte trecho:

Em memória às “almas do desastre”, muitos devotos rezam, acendem velas, depositam os ex-votos e fazem pedidos buscando um elo intermediário entre Deus e os fiéis. Essas práticas de devoção estão inseridas na religiosidade popular, que estão relacionadas com os discursos atinentes aos milagres, que se difundem por meio da oralidade, bem como por memórias herdadas e vividas. Essa devoção propagada pelos fiéis se insere num espaço cultural e social nos “modos de sentir da sociedade altoense. Os devotos permitem que o “santuário do desastre” transforme-se em um local de memória que vai se configurando no imaginário da sociedade altoense.

O lugar, ainda hoje, é visitado todos os dias por fiéis que consideram o lugar sagrado. No último dia 13 foi fixada no lugar uma faixa que lembrava a passagem dos 60 anos da tragédia.

LENDAS E ASSOMBRAÇÕES

Como em outros lugares onde ocorreram mortes de forma violenta e inesperada, o local do “Desastre” é cercado por uma aura de misticismo e magia, de modo que por ali dizem que volta e meia espíritos se manifestam às pessoas que passam pela BR 343. Os relatos assombrosos são inúmeros e, alguns, já se disseminaram de tal forma na tradição oral da cidade de Altos, que já são considerados verdadeiras lendas, sendo que algumas delas já foram, inclusive, contadas aqui no blog dos Causos Assustadores do Piauí, de modo que aqui neste post narraremos apenas de forma resumida essas histórias:

1. A LENDA DO MECÂNICO FANTASMA

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Conta o povo que ali na região do Desastre, sempre que um carro sofre uma pane mecânica, um mecânico surge de forma inesperada para auxiliar o motorista do carro. Após consertar o carro, contudo, o mecânico renega qualquer forma de pagamento. Diante da insistência das pessoas, pede aos desavisados motoristas que levem o pagamento até a casa de sua esposa, que mora mais à frente, e, ao chegarem lá, recebem a notícia de que o marido da dona da casa está morto, de modo que saem dali assustados, mas não antes de deixar o dinheiro nas mãos da viúva.

2. A CARONISTA DO DESASTRE

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Volta e meia as pessoas dão conta de uma bela mulher que fica à beira da estrada, nas proximidades do Desastre pedindo carona, mas sempre que alguém lhe concede a carona, ela some pouco mais à frente, deixando os motoristas assombrados.

3. UM PEDIDO DE SOCORRO

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Conta-se em Altos que há poucos anos atrás um casal trafegava pela rodovia no sentido Teresina-Campo Maior, quando, chegando ao Desastre, perceberam uma enorme quantidade de pessoas feridas em meio à pista clamando por ajuda. Desesperados diante de cena tão dantesca, foram até o hospital da cidade e pediram que a ambulância fosse ao lugar socorrer os feridos. Chegando lá, contudo, a ambulância não encontrou qualquer sinal dos feridos.

4. A MENINA FANTASMA

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Como já se disse, o lugar do Desastre é hoje um santuário, de modo que muitas pessoas fazem promessas para as almas falecidas no acidente, que consideram milagrosas. Em uma dessas promessas, uma moça prometeu que se arrumasse um emprego acenderia dois maços de velas no dia de finados ali no santuário para as almas do desastre. Conseguiu o emprego, mas no dia só acendeu um maço de velas, ao invés dos dois que havia prometido. Na mesma noite, uma menina apareceu em seu quarto e, em seguida, todas as luzes da casa se apagaram, só acendendo de novo depois que o casal acendeu um maço de velas. Dizem que a menina era uma das almas do desastre que tinha vindo cobrar o resto da promessa, pois promessa é dívida. E as almas do desastre não dispensam o que lhes prometem.

REFERÊNCIAS

TEXTO: JOSÉ GIL BARBOSA TERCEIRO

ILUSTRAÇÕES: DOUGLAS VIANA

FOTOS COLHIDAS DA INTERNET

 

 

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